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“A população da Galiza tem nas suas mãos o poder de desfrutar de música, literatura, cinema… de partes do mundo interessantíssimos!”

Valentim R. Fagim – A Minha Embala é o duo formado pola angolana Aline Frazão (voz, guitarra) e o segoviano César Herranz (flauta transversal, percussão) que recentemente ganharam o prémio Musicando Carvalho Calero com o tema Maria Silêncio.

O PGL entrevista-os agora para que o nosso público conheça mais detalhes do seu projeto musical e de como chegaram a se interessar tão vivamente pola Galiza e a sua língua.

Como foi o vosso primeiro contato e quando surgiu o projeto de formar um duo musical? Era um projeto mui diferente, em termos artísticos, do que estades a musicar agora?

A: Conhecemo-nos quando eu vivia em Barcelona e participávamos os dois no projecto de um “Menjador Cooperatiu”. Surgiu a oportunidade de dar um concerto e o César animou-se a acompanhar-me com o djembé e a flauta transversal. Lembro que esse foi o primeiro concerto em duo. Foi um concerto inesquecível: no Espai Social da Casa Okupada Magdalenes havia umas 80 pessoas, a maior parte amigos, todos muitos atentos, silenciosamente e a média-luz. Vivia-se uma atmosfera realmente especial. Na lista de canções havia fados, mornas, bossa-nova, música popular angolana, um par de canções minhas… A verdade é que aí se esboçou um pouco o projecto d’A Minha Embala, a nível musical, quero dizer, ainda que o nome tenha surgido muito depois, numa ida à Galiza. E quando surge o nome acabamos também por definir o cariz d’A Minha Embala e a sua ânsia de juntar musicalmente as lusofonias ou galeguias.

C: Conheci a Aline em Barcelona, em Março de 2009 e surgiu rapidamente a oportunidade de acompanhá-la num concerto muito especial, num espaço autogerido. A partir daí, começámos a tocar juntos. Começámos timidamente, interpretando versões e alguns temas da Aline. Com o tempo, fomos dando forma ao projecto artístico, mantendo o ponto na questão luso-galega e escolhendo o reportório de maneira mais meticulosa. Quase paralelamente, formámos, com outros dois músicos – Gabo Kulisepsky e Rubén León – o projecto Nu Bai, um grupo no qual apostámos forte durante três meses e com o qual ficamos muito satisfeitos. Com A Minha Embala começámos a fortalecer-nos musicalmente, com canções próprias.

Para além da Minha Embala, Aline tem outros projetos musicais, não é?

A: Sim, um dos projetos mais apaixonantes é o grupo Madera de Cayuco, um colectivo musical com gente de muitos países diferentes, a maioria africanos. O objetivo deste grupo é sensibilizar para o tema da imigração no estado espanhol já que muitos dos companheiros passaram por situações complicadas até conseguirem os papéis e outros ainda não os têm.

Aparte dos Madera, este ano dediquei-me principalmente a compôr temas novos e a formar banda, saindo um pouco do formato acústico. E felizmente está tudo a ir bem, “malembe, malembe”, como dizem na minha terra. Vou agora no fim de novembro ao Festival Musidanças, onde farei a primeira apresentação com a banda, só temas originais… Acho que será surpreendente para quem está habituado a ver-me só com a guitarra, flauta e percussão, nessa proximidade e intimidade tão grande, de repente agora uma bateria e um baixo eléctrico. Mas eu gosto bué dessa sonoridade nova. Também acho que as novas músicas pedem uma batida mais forte para que a mensagem chegue com mais força. Mas confesso, não vou deixar o formato solitário, aliás, tenho trabalhado esse formato igualmente.

Qual foi o vosso primeiro contato com os galegos e as galegas da onda lusopata? Que implicou em termos de mudar a visão que tínhades da Galiza?

A: A primeira vez que ouvi falar do reintegracionismo foi através de um artigo que escreveu uma amiga portuguesa, a Cátia Faria, e que me enviou por e-mail há uns anos. Esse foi o primeiro contato, na verdade. E quando saí de Lisboa e fui estudar em Barcelona dava-se a coincidência de que a Cátia vivia ai e através dela conheci o César e a uma multidão de galegos e galegas. Ai foi quando me meti um bocado mais a fundo na história política do estado espanhol e das comunidades autónomas. O tema Catalunya já era para mim conhecido. Antes de ir para Barcelona pus-me a ler algumas coisinhas e aprendi o catalão. Calhou que de repente estava rodeada de galegos e galegas que me falavam em galego, que eu estranhava mas que compreendia perfeitamente. Claro, comecei a perguntar, a perguntar e fui sacando as minhas conclusões.

C: Sempre tive um interesse especial pelas línguas em geral, concretamente pelas românicas e, em particular, pelas ibéricas. Esse foi um dos motivos que me levaram de Castela para a Catalunha e quando cheguei, há três anos a Barcelona, de repente rodeei-me massivamente de galegos e galegas que defendiam (e defendem) o reintegracionismo. Alguns participavam em movimentos pela defesa da língua galega na Catalunha (gente d’ A Mesa ou do Espai Gallec), outros eram filólogos e também conheci outros neofalantes como eu, de fora da Galiza. Entre numerosas conversas sobre língua fui penetrando completamente nesta “onda”. Eu já conhecia o galego (desde pequeno que ouço folk galego) mas não conhecia a língua em profundidade nem a sua história. Agora vejo a Galiza com um potencial cultural-linguístico único.

Como foi a vossa primeira visita à Galiza?

A: Já estava a viver em Madrid nessa altura… Ir à Galiza pela primeira vez foi bastante simbólico porque ia sabendo que ia a uma terra lusófona, de certa maneira era voltar um pouco a casa, a falar a minha língua.

Lembro-me que fomos tocar à Esmorga, em Ourense, e fomos super bem recebidos. Acho que ai ainda não tinhamos o nome “A Minha Embala”. Poucos meses depois voltaram a convidar-nos e guardamos boas recorações dessas visitas a Ourense, tudo gente boa.

Aparte estive também a fazer umas entrevistas a alguns reintegracionistas e terminei conhecendo o Valentim Fagim, que mais tarde ajudou a organizar a seguinte ida d’A Minha Embala à Galiza.

C: Como duo musical, a primeira vez que visitámos a Galiza foi para tocar no centro social ourensano A Esmorga, em Setembro de 2009. A conexão com o público e organizadores foi muito fluída, dado tratarem-se de pessoas que impulsam a cultura e a língua galegas. A nível da transmissão da nossa intencionalidade linguística através da música, foi muito interessante a nossa segunda visita, em Março de 2010, numa tourné pela Corunha, Lugo e Ourense. Fizemos cinco concertos, levando a Galeguia de maneira explícita por lugares como a Biblioteca de Sagrada Famíla, na Corunha. Foi fantástico conetar com um público que não espera ouvir um repertório que inclui a Galiza no seio da Lusofonia.

Antes, já conhecia a Galiza por duas visitas consecutivas que fiz ao Entroido de Verim e Laça. Galiza em estado selvagem!


Aline e César na Esmorga (Ourense)

No vosso repertório há temas em galego-português de vários continentes. Que tem a ganhar a Galiza no espaço da língua portuguesa?

A: A Galiza tem a ganhar o mesmo que Angola. Ganhamos porque através da mesma língua se partilha conhecimento e cultura, sem o desdobramento da tradução. Tem-se acesso direto aos filmes brasileiros, à música portuguesa, à literatura moçambicana e a toda a produção científico-académica lusófona. É muito mais fácil realizar projectos de todo o tipo com gente que fala a nossa língua. Agora mesmo o Zézé Gamboa, realizador de cinema angolano, está a terminar de gravar o “Grande Kilapy”, uma co-produção angolana, brasileira e portuguesa.

Em segundo lugar, no caso da Galiza, parece-me forte o argumento de manutenção da língua, quer dizer, que todos os galegos e galegas se deem conta que falam uma língua internacional: são 250 milhões de falantes! De alguma forma essa consciência poderá fazer travar a forte castelhanização do galego-português da Galiza e até mesmo a perda de falantes.

Além disso, creio que a Galiza poderá ainda ter todos os benefícios económicos que os demais países lusófonos a nível de trabalho, por exemplo. Se realmente se reintegra o galego será mais fácil que uma professora galega possa ir dar aulas em Angola, que bem nos fazem falta professoras, ou médicos ou sociólogos.

C: Penso que ganha sobretudo a justa recuperação de um corpo idiomático genuíno, num sentido puramente linguístico. E, desde a visão da língua como cultura, ganha a possibilidade de comunicação e, portanto de relação e intercâmbio com lugares tão ricos em expressões culturais como Angola, Brasil, Cabo Verde, Portugal, Moçambique, etc. A propósito disto, ocorreu um episódio muito interessante noutra visita que fizemos, desta vez a Alhariz, no ciclo “Ao vivo”, onde passámos uma semana a tocar em diferentes pontos das ruas da vila, junto com outros artistas. Aí, uma mulher de uns oitenta anos, depois de tocarmos “Corcovado” de João Gilberto, aproximou-se e disse-nos “Que bem, ouvir por fim música na minha língua”, porque o resto dos artistas que cantavam, faziam-no em inglês. A população da Galiza tem nas suas mãos o poder de desfrutar de música, literatura, cinema… de partes do mundo interessantíssimos!

Qual a reação do público galego quando interpretades temas galegos inseridos entre temas angolanos, brasileiros, caboverdianos…?

A: Depende do público. Muitas vezes cantamos em espaços onde encontramos pessoas que já estão informadas para a questão da língua. Nesse sentido foi muito interessante a experiência na Biblioteca Sagrada Família na Corunha. Trata-se de uma biblioteca pública que organiza muitíssimas atividades, incluindo concertos. Tocamos duas vezes ai para um público heterogéneo e neutro, por assim dizer. E as reações são surpreendentes. Em primeiro lugar as pessoas entendem-me quando falo. Depois veem algo em comum entre as canções brasileiras, angolanas, cabo-verdianas e… galegas, claro! É lindo ver todo o mundo a cantar “Eu chorar chorei no domingo à tarde..” connosco.

C: Em lugares onde há um compromisso com a língua, é como um presente que uma angolana e um segoviano incluam temas galegos no seu reportório. Para o público não ligado intimamente a esta preocupação com a língua, normalmente percebemos reacções diferentes: surpresa ou estranheza. Mas a música é poderosa e achamos que geralmente as pessoas vão embora do concerto a pensar “E por que não a Galiza no espaço lusófono se compreendo – o inclusivamente me identifico – com cançoes de estes lugares?”

Recentemente fostes gravados na TVG a cantar Maria Silêncio, como foi a experiência?

A: Foi engraçado. Eram pessoas simpáticas e receberam-nos bem, gostaram da nossa música, explicaram bem o que era o projecto, escreveram bem o nome das músicas e do grupo e tudo isso era para nós importante. Também cantar o tema Maria Silêncio, tal como o apresentador disse, um poema do galego Carvalho Calero foi simbólico. Foi curioso que não lhe custou ao apresentador reconhecer ali em direto a Galiza como “pátria mãe da lusofonia” enquanto falávamos os dois em galego-português, claro.

C: Não desconhecíamos totalmente o mundo da televisão desde dentro, mas era a primeira vez que colaborávamos como duo musical. A projeção da televisão é grande e nós vimo-la como uma oportunidade para dar a conhecer a nossa música e a nossa mensagem aos lares dos galegos e das galegas. E ainda por cima interpretando um poema musicado de Ricardo Carvalho Calero! Foi uma homenagem a esta personalidade das letras galegas. O mais destacável da visita: ouvir o apresentador do prograna a referir-se à Galiza como “mãe pátria da lusofonia”.

 

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A Minha Embala n’A Solaina (TVG – 05/11/2010)

O que talvez não saibam a maioria das nossas leitores e leitores é que Aline vai participar no próximo Cantos na Maré, organizado pola incansável Uxía Senlle. Quais as tuas sensações ao respeito, Aline?

A: …Não cabe em mim todo o conjunto de sentimentos, sensações e pensamentos em relação a participar no Cantos na Maré. Sinto-me uma privilegiada por partilhar o palco com tais grandíssimos artistas lusófonos, num festival cuja bandeira é uma das minhas bandeiras. Tenho mesmo que agradecer bué à Uxia pelo convite e pela confiança e pelo carinho. Antes de a conhecer já a admirava dentro do seu enorme talento e inteligência e da sua atitude incansável. A Uxia é uma grande mulher, a verdadeira embaixadora da cultura galega.

Conhecíades a figura de Carvalho Calero antes de participar no concurso? Por que Maria Silêncio?

A: Eu não conhecia. Quer dizer, algum amigo ou amiga já me tinha recomendado o Scórpio e já me tinham falado de Calero mas conhecer a sua obra foi através do concurso. Eu gosto muito de poesia em português. Uma tarde de Outubro selecionei uns cinco poemas da imensa lista guiando-me simplesmente pelos títulos, confiando na sorte. Li o primeiro e gostei. Li o segundo e gostei mais. Ai chegou “Maria Silêncio” e disse: “É este mesmo”. Peguei na guitarra e a melodia que saiu e a intenção que queria dar encaixava surpreendentemente com a métrica do poema. Fiquei muito contente com o resultado e fui gostando mais dela com o tempo. É um poema lindíssimo e o facto de ter uma personagem feminino atraiu-me. Gosto muito de todos os elementos poéticos de céu e de mar, essa descrição tão visual que faz Calero, essa curiosidade que tem ele Maria muda esperando à beira do mar, essa estória sombria e triste… parece-me lindo, de verdade.

C: Sim, vagamente. Não conhecia a sua obra literária nem o seu impacto na defesa da língua. Este concurso fez com que passasse a conhecer melhor os seus magníficos poemas e também o seu trabalho como promotor da língua galega. Impressionou-me, para além da sua perfeita dialéctica, descobrir uns argumentos fortes pela defesa da aproximação do galego ao galego-português, nos anos 80, anos chave para a determinação da normativa gramatical galega. Relativamente à eleição de Maria Silêncio, foi por conta da Aline, apaixonada pelas histórias de mulheres com uma forte relação com o Atlântico. Para mim, uma opção ideal.

Que temas dos que participaram no concurso chamaram a vossa atenção? Que achades da música galega?

A: Eu oiço cada vez mais música galega. Alguns artistas galegos passaram a fazer parte da minha playlist de favoritos: Marful, Berroguetto, Uxia, Guadi Galego, Xabier Diaz… são referência para mim, sem dúvida.

C: Sobretudo a canção de “Ataque Escampe”. Já conhecia o grupo e gosto do seu som característico e original dentro da música galega. Penso que actualmente o panorama musical galego tem uma grande qualidade, sobretudo os artistas consolidados (Uxía, Guadi Galego, Berrogüeto, Marful, Xavier Diaz…), mas também alguns grupos emergentes, principalmente dentro do rock e do punk, como os “Ataque Escampe” ou os “Novedades Carmiña”. A música galega tem suficiente encanto e profissionalismo para sair de forma potente para fora das fronteiras galegas.

O prémio do concurso era gravar um álbum. Quando será isto e que podemos esperar desse trabalho?

A: Vamos gravar em fevereiro porque queremos e precisamos de tempo. A Minha Embala é fundamentalmente um projecto de versões e além do mais vivemos em duas cidades diferentes. Mas queremos aproveitar esta oportunidade para gravar temas novos, temas originais que sejam o reflexo do espirito do projecto ao longo destes dois anos: a galeguia. Para isso é preciso tempo. Mas já estamos a trabalhar. Este disco será a melhor forma de celebrar “A Minha Embala”, onde cabem tantas pessoas que nos ajudaram a passar esta mensagem através da música, e celebrar também a nossa amizade, a nossa amizade com a Galiza que tão bem nos recebeu sempre nos seus quatro cantos. Bom, não somos bons nos negócios mas em ditados populares temos a nota máxima. Dizem que “o segredo é a alma do negócio” então ficamos como a Maria Silêncio: shhhhh!… Esperem para ver!

C: Para nós foi uma dádiva receber a possibilidade de gravar um disco e por isso queremos devolvê-la à Galiza. Nesse sentido, estamos a compor temas próprios, nos quais queremos que participem músicos galegos, para deixar imortalizada a alegria de cantar a Galeguia. Será um disco muito especial que gravaremos em finais de fevereiro e do qual se poderá desfrutar a partir da primavera de 2010.


Em Alhariz, no ciclo “Ao Vivo”

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