Estando como estamos sendo manipulados e bombardeados um dia sim e outro também com as peregrinações a Compostela, por diferentes “caminhos”, dizendo-nos que na catedral está o sepulcro do apóstolo Santiago, que é uma mentira grandiosa, pois este apóstolo de Jesus nunca tinha podido vir naquela altura à Galiza, convém pôr as cousas no seu lugar verdadeiro. Tal como bem sinalou no seu momento Castelão, ali quem está é o corpo de Prisciliano, líder da igreja primitiva galega, que fora trasladado aos ombreiros desde Tréveris pelos seus discípulos. Por isto, no lugar de Santiago de Compostela, teríamos que chamar esta cidade como “Prisciliano de Compostela” e estaríamos no certo. Os nossos escolares deveriam saber tudo isto, e que a verdadeira peregrinação de galegos e galegas é ao santuário de Santo André de Teixido, ao lado do Cantábrico, perto de Cedeira. É hora já de derrubar mentiras, e manter a verdade. E isto que comento já o tinham muito claro Risco, Otero Pedraio e Ben-Cho-Shei, que, de 4 a 12 de julho de 1927, realizaram juntos desde Ourense a peregrinação a Teixido, roteiro que está recolhido num lindo livro escrito por Otero, com desenhos de Risco. Mesmo muito recentemente o diretor italiano que mora em Ourense, Simone Saibene, realizou um filme inspirado neste livro e roteiro pelas nossas lindas terras, filme que serve para o presente depoimento da minha série fílmico-educativa do PGL.
Na Índia, a religião maioritária é o hinduísmo. Mais de setecentos milhões de pessoas professam esta religião antiquíssima, a dos Vedas, o Bagavad-Guita e os Uponishads. Alguns cidadãos hinduístas deste grande país asiático conhecem o culto primitivo dos galegos e o santuário de Santo André de Teixido. Quando escuitam o antigo provérbio galaico “A Santo André de Teixido vai de morto o que não vai de vivo”, não saem do seu assombro e comentam que se trata de um culto certamente hinduísta. Diz a lenda que quando a Teixido se vai, corporalmente e como autêntico galego, não se podem matar os animais que encontres, sejam lagartos ou lagartixas, sejam vermes ou borboletas, sejam pássaros ou joaninhas, sejam saltões ou escaravelhos, grilos ou vaca-louras. Porque em cada um deles vai a alma dum morto. E esta é também a reencarnação em que os hinduístas acreditam. Mesmo a “Santa Companha” tem um profundo senso hinduísta. O amor pela vaca, mais que pelo boi, é também hinduísmo. Podemos estar errados, embora pensemos que as teorias do nosso Florentino Cuevilhas sobre os celtas possam explicar tudo isto. O povo celta veio da Índia, atravessando a Europa, procurando os diferentes “Finsterras”: o irlandês, o galês, o galo e o ibérico-galego. A religião galega primitiva, influenciada evidentemente pelos celtas, na nossa cultura peculiar e no senso da nossa peregrinação, demonstra que a verdadeira e autêntica, a que galegos e galegas devem fazer ao menos uma vez na vida, é a do santuário de Santo André de Teixido, situado numa das paragens mais formosas da Nossa Terra. Ao lado do mar Cantábrico, entre Cedeira e Ortigueira e perto da Serra da Capelada. Sentimos opinar que, como antes comentámos, a de Compostela não é a peregrinação autêntica, por estar baseada numa grande mentira, e porque ali pode estar a alma do apóstolo Santiago, embora seja impossível que se encontre o seu corpo. Como já comentei, Castelão no seu Sempre em Galiza, sinalava que ali estava o corpo do líder da igreja primitiva galega, Prisciliano. Dado que também muito recentemente vêm de confirmar num seu interessante livro, Victorino Pérez Prieto.
Tudo o que antes resenhei o deviam ter muito claro Vicente Risco, Otero Pedraio e José Ramóm Fernádez-Ojea (“Ben-Cho-Shei”), três grandes ourensanos e galegos que, em julho de 1927, vai fazer agora noventa anos, realizaram esta peregrinação tão galega desde Ourense a Teixido. A maior parte do roteiro caminhando pelas nossas aldeias, por caminhos e “corredoiras”. Desde a nossa ourensana Praça do Ferro, com a sua fonte, até o santuário de Teixido. Um muito formoso livro escrito por Otero, com limiar e ilustrações de Risco, sob o título de Pelerinaxes I (Itinerario d´Ourense ao San Andrés de Teixido), editado naquela altura pela editora Nós, que dirigia Ângelo Casal na Corunha, de que existe uma edição fac-similar realizada por O Castro-Sada em 1993, nos conta este roteiro extraordinário pela nossa formosa terra, vai fazer agora mesmo 90 anos. Em oito jornadas vão de Ourense à Viana chantadina, passando antes por Vila Marim e depois por Monterroso, Palas de Rei, Lugo, Rábade, Vilalva, as Pontes, Ortigueira e Teixido. Ao seu regresso descem desde a bela Serra da Capelada até a localidade marinheira de Carinho, onde, a propósito, por um tempo, Ben-Cho-Shei exerceu de mestre. É muito recomendável a leitura deste livro, que é como um maravilhoso livro de viagens a pé pelo coração da terra galaica. E em todo o momento e ao longo de todo o texto, o nome empregado para chamar a Nossa Terra é o autêntico de “Galiza”, e Risco escreve o limiar com a norma ortográfica reintegrada e internacional do nosso idioma galego. No capítulo dedicado ao espaço do santuário destinado a André, apóstolo de Cristo, Otero, entre outras muitas cousas, lhe chama “Santuário céltico ou céltico-cristão”, onde pode estar a explicação do culto celta-hinduísta que comentámos ao início do nosso depoimento.
Tal como indicamos anteriormente, em 2016, o realizador Simone Saibene, realizou um filme, sob o título de “Pelerinaxes”, baseado no livro antes citado, no qual outras pessoas, neste caso três mulheres, realizam o mesmo roteiro a Teixido em oito etapas. Filme que serve para apoiar este meu depoimento.
FICHA TÉCNICA DO FILME:
Título original: Pelerinaxes. Produtora: Noveolas Producciones.
Diretor: Simone Saibene (Galiza, 2016, 74 min., cor. Documentário e ficção).
Roteiro: S. Saibene, baseado no livro Pelerinaxes de Otero e Risco.
Música: Manuel Carballo, Daniel Minimalia, Ruxe-Ruxe, Elena Domínguez e Miguel Álvarez, gravada integralmente ao vivo. Na Praça do Campo, em Lugo, o grupo Ruxe-Ruxe interpretou uma nova versão de “Não temos medo”. Fotografia: Jairo Iglesias.
Atores: Carmen Méndez, Alfonso Míguez, Joel Yáñez, Isabel Risco e Ruth Sabucedo.
Entrevistas realizadas a: Laura Tato, Valentim Carrera, Patrícia Arias, Susana Reboreda, Carme Fdez-Pérez Sanjulián, Pablo Gallego e Alberto Allegue.
Argumento: Luzia, uma investigadora licenciada em audiovisual percorre as oito etapas do roteiro entre Ourense e Santo André de Teixido, para completar um projeto audiovisual iniciado na universidade sobre o livro de Otero Pedraio e Risco de 1927, junto com um companheiro, morto anos atrás num acidente.
Nota: A neta de Vicente Risco, Isabel Risco, leu em Santa Marta de Ortigueira o discurso que redigira seu avô, ao qual o dia nove de julho de 1927 não lhe permitiram ler, por ser considerado Risco um revolucionário e nacionalista galego durante a ditadura de Primo de Rivera.
FORMOSAS PALAVRAS DE VICENTE RISCO SOBRE O ROTEIRO:
No limiar do livro tantas vezes citado, Vicente Risco justifica fazer o percurso a pé na alegria que produz à alma galega pisar intimamente a Nossa Terra e conversar com as nossas gentes. Também pela devoção à natureza apoiada no pensamento de Rousseau, por aproveitar o saudável caminhar, percorrendo a terra e ademais porque, por “patriotismo misticista”, fazer o que o grande santo indiano Mohandas Karamchand Gandhi (“Mahatma ou Alma Grande”), o maior homem do mundo naquela altura, que promovia entre os seus seguidores do “Satyâgraha Ashram”, que dedicassem três meses ao ano para andar a pé pela Índia adiante. Risco pensa que na própria terra se deve andar a pé, que toda a viagem é uma descoberta e que o caminho mais andado e olhado, guarda de cada vez em cada recanto uma surpresa. O que faz falta, diz, é sabermos pôr a alma onde pomos os pés, e não sairmos do caminho que deixamos, esquecendo na casa a nossa alma. Que há muitos galegos que na sua terra são verdadeiros turistas, quando não veraneantes, e ao comportar-se como tais insultam a nossa amada terra.
Muitos ourensanos, continua a dizer Risco, infelizmente, por não o saberem, perguntavam aos nossos peregrinos sobre onde ficava Teixido, e Risco respondia-lhes: “É ao final do mundo, no cabo do mundo”. É necessário que algumas almas abertas se aproximem à terra com devoção e amor, que se ofereçam a percorrê-la com os pés e com os olhos, sentindo crescer nos seus corações o sentimento filial e fazendo de cada santuário de fé, de cada capela consagrada pela tradição popular, um altar de amor à Pátria Galega (sic), onde se possa oferecer a dedicação completa das suas vidas, de todo o seu trabalho, de todas as suas capacidades e energias. Recomenda Risco que no “roteiro” devem aproveitar-se o disfrute com os olhos da beleza das nossas flores, os carvalhos, as gestas, os vidoeiros, os castanheiros, o odor doce dos campos, o conhecer cruzeiros e pessoas, canastros e adegas, saborear o rico pão dos fornos e o bom vinho não engarrafado, dormindo nas pousadas da aldeia, falando com velhos e crianças, e com as mulheres; divisando os largos horizontes adornados de azuis serras, almoçando ao ar fresco da manhã e pelo café da noite com luar, comungando assim com as espécies sensíveis da terra galega, a “Terra Mãe” silenciosa que Risco chama, aquela de que a aurora é o rubor, o amor, o sorriso, a morte e a saudade.
Aqui temos, continua a dizer Risco, o caminho de Teixido. Quem de vivo ali não vá, há ter que ir de morto, em figura de cobra ou lagartixa. Graças a Deus, nós (ele e seus amigos Otero e José Ramão) levamos já esta ilusão feita. E disfrutamos da paisagem, obra de Deus que abraça tudo. E Risco lembra o seu famoso e belo texto: “Tu dizes: Galiza é bem pequena. Eu digo-te: Galiza é um mundo, é o mundo inteiro (…). Não digas Galiza é bem pequena. És tu que nunca poderás conceber nada grande”. De Ourense a Teixido, está aqui a terra toda aos nossos pés, comentava Risco. E cuidade de como andedes, que ides por terra sagrada: Codeiro, Gostei, Empalme, Câmbeo, Pena de Reádegos, Paço, Leão, Rio, Lamas de Aguada, Barrela, Touça, Coedo, Buzinhos, Tresar de Sabugueiro, Tresar de Carvalho, Viana, Julfe, Começo, Riazão, Nugilde, Penasilhás, Mourícios, Argozão, Gestosa, Mesão de Campos, Susá, Cerdeda, Cal de Mourelhe, Olveda, Pereiras, Moexa, Coira, Casa de Naia, Monterroso, Esporis, Bidouredo, Pedraça, Gresulfe, Vilareda, Palas de Rei, Lugo, Robla, Outeiro de Rei, Rábade, Trobo, Gaivor, Vilalva, Candamil, Cabreiros, Pontes de Garcia Rodrigues, Cajado, Ínsua, Mera, S. Clódio, Cuinha, Ortigueira, Santo Adrião, S. Sebastião, Teixido, Carinho, Espassante…, lindo ronsel dos nossos formosos topónimos. Este singelo ronsel de nomes, não pela sua virtude evocadora, mas pela sua fónica expressão cheia de ressonâncias celtas, latinas e germânicas das nossas toponímias, é já um poema que as nossas pegadas desenharam caminhando ao seu alegre compasso. E lá no cabo, a imensidade do mar enorme nos seus limites, o augusto mar das Finisterras, onde vão dar no fim todos os sendeiros do mundo, todos os caminhos da vida, em palavras de Risco. Que é também o que ilustra os oito capítulos de que consta o livro, redigidos por Otero, com a sua prosa típica de língua popular, formosa e bela, como as cristalinas águas das nossas fontes, como a dos “Três canos” de Teixido.
ROMARIA DE TEIXIDO:
A cada 8 de setembro, desde tempo imemorial, celebra-se em Santo André de Teixido a festa e romaria mais importante do ano. E são milhares os romeiros que em peregrinação lá vão de todos os recantos da nossa terra, especialmente se o dia estiver bom com sol e sem nuvens. Ultimamente acorrem também peregrinos vindos das “finisterras” celtas europeias, da Bretanha, da Irlanda, de Gales e da Escócia. Porque os ritos ancestrais e milenários daquela paragem única e formosa, estão ligados, como já comentámos, aos cultos celtas. Aqueles cultos primitivos galegos dos nossos castros e citânias, anteriores ao Cristianismo. Que, como todos sabemos, graças às investigações do nosso Cuevilhas sobre o Neolítico e a Idade do Ferro no Noroeste peninsular, vêm inicialmente da Ásia, e em concreto da Índia, terras de procedência dos povos celtas, que emigraram caminho da Europa e chegaram às nossas finisterras atlânticas. Esta é a razão pela que os ritos típicos e seculares, que peregrinos e romeiros professam e cumprem neste lugar tão peculiar, encontram-se diretamente tão vinculados ao hinduísmo, religião indiana maioritária e uma das mais antigas do mundo. Para os hinduístas, entre outros muitos princípios, a morte não é um final mas uma passagem para a outra vida espiritual, em que a alma é imortal. Para os hinduístas também existe a reencarnação, pela qual as almas dos mortos se reencarnam noutras pessoas e mesmo em animais. Os hinduístas acreditam também no destino das pessoas, ademais de amar e respeitar profundamente tudo o que tenha vida.
Tenho que recomendar aos que lerem este depoimento que quando forem a Teixido, pelo menos uma vez na vida, ademais de colherem a “erva de namorar”, merquem as figuras artesanais feitas com miga de pão de belo colorido chamadas “sanandreses”: a flor, a mão, a sardinha, a barca, a escada, a coroa, a pomba e o Santo André, que foi apóstolo de Jesus. Porque com a chegada do Cristianismo à Nossa Terra, tiveram que cristianizar esta idílica paragem, de cultos considerados pagãos, levantando o santuário dedicado ao Santo André. Para que galegas e galegos continuassem a sua peregrinação àquele lugar tão antigo, onde quer se queira quer não, subsistem os cultos hinduístas e da igreja primitiva galega, da imortalidade das almas e do amor à vida vegetal e animal.
TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:
Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo do filme antes resenhado, realizado por Simone Saibene.
Organizamos no nosso estabelecimento de ensino uma amostra-exposição dedicada a Santo André de Teixido, e à peregrinação própria dos galegos àquela linda paragem. A mesma deve incluir textos, frases, fotos, desenhos, mapas, murais, livros, reportagens e também textos livres dos escolares.
Seria muito lindo, se pudéssemos, organizar desde os nossos estabelecimentos de ensino alguma vez um roteiro a Santo André de Teixido, ou uma excursão para olhar aquele lindo lugar. Pode ir-se de autocarro até perto da localidade e depois um treito a pé até o santuário situado perto do Mar Cantábrico. Como é natural, antes de levar a cabo o roteiro é necessário programa-lo bem, documentando-se adequadamente e fazendo um desenho com objetivos a conseguir e atividades didáticas a realizar antes, durante e depois de fazer a excursão.


