A Norma Internacional e a Norma Nacional

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Vou tentar não maçar demasiado o pessoal com este tema que já foi tratado por Eduardo Maragoto em um esclarecedor artigo no PGL. A minha intenção não é repetir os argumentos, com os que concordo, mas adicionar novas ideias que ajudem a ter uma visão mais ampla do fenómeno do binormativismo na Galiza.

Na procura de uma inspiração no modelo norueguês, na minha opinião, não é possível fazer uma correspondência direta entre as duas normas norueguesas e as duas galegas. De facto, cada uma das normas galegas partilha diferentes propriedades com as duas norueguesas. Mais concretamente, a norma reintegracionista assemelha-se ao bokmål (língua dos livros) no tocante à internacionalização, já que esta última está baseada no Dinamarquês. Do mesmo jeito que o galego reintegrado é percebido como uma variante do Português, o bokmål é um norueguês dinamarquizado. No entanto, o galego reintegrado também se parece com o nynorsk (novo norueguês) no facto de ser uma variante isenta da influência da língua tecto. A norma ILG, pola sua parte, partilha com o bokmål a propriedade de estarem as duas baseadas na língua tecto (Castelhano e Dinamarquês, respectivamente), mas também partilha com o nynorsk a sua proximidade com as falas mais populares. Dito de jeito mais sintético: se o Dinamarquês desempenha o role do Castelhano (língua tecto), a norma ILG parece-se com o bokmål e a reintegrada como o nynorsk. Mas se o Dinamarquês se conceptualiza como Português (língua internacional), acontece o contrário: o reintegrado se achega ao bokmål e a norma ILG ao nynorsk. Este assunto foi tratado com mais pormenor em um artigo publicado há dous anos no PGL.

Ao olharmo-nos no espelho do Norueguês, surge uma realidade poliédrica onde não há normas boas e normas más como nos filmes do faroeste, senão um conjunto heterogéneo de propriedades, mais ou menos eficazes, distribuídas entre dous padrões de uma mesma língua. Isto significa que, se perdemos uma das normas, perdemos elementos positivos para o desenvolvimento integral da língua. No caso da Galiza e da Noruega, a coexistência das duas normas escritas permite, por um lado, entroncar com uma variante internacional estável e, por outro, reativar as falas populares com uma escrita percebida como sendo mais próxima delas por uma parte da população. É aqui onde emerge o principal argumento de Eduardo Maragoto: a fortaleza do binormativismo na Galiza está no aproveitamento das vantagens que oferecem as duas normas: a Norma Internacional, por um lado, e a Norma Nacional, por outro. Reparem que procuro nomear as duas variantes usando termos positivos e integradores, com ânimo de alargar os consensos e criar bom ambiente, embora espero não parecer um vendedor paspalhão de pílulas terminológicas muito habituais em manuais de auto-ajuda.

Existem, porém, outros argumentos a favor do poli-normativismo. Em poucas gerações, o mundo vai passar de ter vários milhares de línguas, a maioria sem padronizar, a só alguns centos, todas elas com polo menos um padrão escrito. Ficaremos, portanto, com poucas línguas embora com muitos falantes cada uma. O desafio será gerir de jeito eficiente a tensão entre o processo de padronização e a grande variabilidade interna dentro de cada sistema linguístico, tanto no eixo diafásico (língua formal / coloquial), como diatópico ou dialetal. O uso de duas ou mais normas vai ser habitual na maioria das grandes línguas a medida que se afaste a escrita da fala. Isto já está a acontecer na atualidade. No caso do inglês americano, por exemplo, o registo de fala informal está mui afastado da escrita padrão, o que acarretou a criação de um standard escrito para a variante coloquial que contém expressões como gonna, wanna, ou aint,e que foi adoptado pola maioria dos editores para transcrever o estilo direto nos romances e os diálogos nas bandas desenhadas. De facto, este padrão escrito da fala informal é o mais utilizado nas redes sociais. No caso doutra língua internacional como o Árabe, existe um padrão moderno inspirado na variedade clássica corânica, que só se utiliza em contextos formais, e um conjunto de variedades dialectais amplamente diferentes umas das outras mas que não estão padronizadas. Recentes estudos sobre o ensino do Árabe como língua segunda reflectem os problemas que está a levantar esta situação. Os professores ensinam a variante padrão mas os estudantes estrangeiros querem também aprender polo menos uma variedade local. Os estudantes não só querem aprender uma língua e o seu código, mas também desejam integrar-se culturalmente. Sabem que é importante terem competência numa variedade de uso habitual para poderem conhecer bem a região árabe na que estão interessados e assim acederem a todos os aspetos da sua cultura. Dada esta situação, é esperável que apareçam regras ou normas para grafar as diferentes variedades dialetais árabesde maneira que setorne mais fácil a sua aprendizagem.

Na minha opinião, no futuro próximo, é provável que a flexibilidade necessária para manter a unidade de uma língua se consiga mediante a criação de sistemas poli-normativos.Haverá sistemas hierárquicos, como o do Árabe, e outros em rede, mas será difícil manter uma única norma a medida que as falas e variantes se afastem da escrita, sempre mais conservadora.Deste ponto de vista, se o galego adotar oficialmente o binormativismo nos próximos anos, será percebida como uma língua inovadora que marca tendência. Outras virão depois.

O binormativismo não requer que todas as pessoas dominem as duas normas ao mesmo nível. Como em Noruega, cada escola galega poderia optar por utilizar uma das normas, esperando que as escolas das cidades escolham a Norma Internacional e as das vilas pequenas a Norma Nacional. Nesse contexto, o objectivo pedagógico deve visar que o estudantado tenha um conhecimento ativo da norma veicular da sua escola e passivo (ler e entender) da não veicular. Com as novas tecnologias, será possível facilitar o acesso ao conhecimento passivo da norma não veicular. Mais concretamente, a presença das duas normas no espaço púbico e privado aumentará com o desenvolvimento de software livre de transliteração entre as duas normas e a sua integração mediante plugins nas principais ferramentas de edição e visualização de textos assim como nos teclados dos dispositivos móveis. Talvez alguém se lembre do velho port2gal (ver código fonte e aplicação web), desenvolvido no 2004, que translitera textos em Português padrão para o Galego ILG-RAG. Com a melhora da tecnologia e a partir de projetos como o de apertium/opentrad, a comunidade atual de desenvolvedores poderá criar facilmente novas ferramentas livres mais eficientes e eficazes nos dous sentidos: pt->gl, gl->pt. Deste jeito, gerar-se-ão automaticamente novos textos e expressões que farão tolear os linguistas mais ortodoxos. Por exemplo, aparecerão expressões em Galego Internacional transliterado do Nacional, como esta:

come-te-me bem o neno!

E surgirão expressões em Galego Nacional com sabor Internacional:

gosta de Matemática e interésase por Astronomía.

Finalmente, acho importante situar o binormativimo na Galiza dentro de um quadro mais amplo de ação, nomeadamente dentro de um plano estratégico elaborado à luz da Lei Paz-Andrade, para a internacionalização da nossa economia e cultura. Este plano estratégico poderia incluir a criação de instituições como o diplogal (Conselho de Diplomacia Pública da Galiza), inspirado no diplocat, que estava a funcionar mui bem na Catalunha; a elaboração de convênios de cooperação com universidades africanas de fala portuguesa para, por exemplo, o intercâmbio de estudantes, o desenvolvimento de cursos on-line de matérias inovadoras, a criação de másters interuniversitários, e assim por diante; a promoção de programas de divulagação científica em Galego Internacional, tomando como referência o modelo dos TED, com o intuito de convidar os principais investigadores e investigadoras do mundo lusófono e que nos falem das suas pesquisas na nossa língua.

Com certeza que pôr em prática tudo isto iria levantar críticas desde Madrid, mas devemos sempre tomar em conta a Lei da Periferia: quanto mais se critique desde o centro do Estado uma ação desenvolvida pola periferia, mais eficiente é para os periféricos. Não conheço nenhuma excepção a esta lei.