UM QUEIPO NO LAR

A música e a fala



No dia 16 de novembro deste ano, o Coro do Hospital de Lugo celebrou um concerto em homenagem à nossa língua galega. Intercalando cantigas e textos que tentaram dar uma visão musicada a historia da nossa fala. Foi um ato digno de ver e de escutar: Um coro bem afinado com vozes bem empastadas fazendo uma só. Magistralmente dirigido por Fernando Gómez Jácome.

coro-hospital

A Igreja de São Pedro de Lugo, que é uma importante representação do gótico galego, deu justo marco ao desenvolvimento do concerto. Cumpriu-me a mim –a petição de Fernando Gómez Jácome– fazer os textos que fossem ligando as canções com seu referente histórico. Cuido que ficou um bom espetáculo, dinâmico e artístico que deu boa conta da nossa língua e sua história através da música.

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Ainda sabendo que a Historia da nossa Língua Comum, pode ser um monumento como o que escreveram muitos/as  historiadores/as,  nesta ocasião tratava-se de fazer um percorrido teatralizado, alegre e festivo que deixasse testemunha acerca do nosso folclore e de como a língua fora conformando nossos cantos e nossas falas. Também como falares e músicas  foram-se retro alimentando ao longo dos tempos e das modas.

Deixo cá os textos e as canções entre as que se foram intercalando.

Espero que gosteis como eu o fiz, quer escrevendo ou escutando. Os meus ouvidos deliciaram com as músicas e como recitado tão bem conseguido. Pois as e os atores/as fizeram uma perfeita interpretação dos textos.

Tudo colaborou para lograr uma tarde maravilhosa na invernia luguesa.

Muito obrigada ao Coro do Hospital, e a seu diretor que está fazendo um grande labor cultural em Lugo. Popularizando a música e cultivando os nossos sentidos e a nossa cultura.

O CANTAR DA NOSSA LÍNGUA

 

Texto de Adela Figueroa Para o Coro do Hospital de Lugo.

Director do Coro Fernado Gómez Jácome.

 16 de novembro 2019 Igreja Paroquial de São Pedro

I Uma Língua Nasce

Olá gente! Hoje vamos falar e cantar sobre a nossa língua. A formosa, doce e melosa língua galega.

A que ama, a que acarinha e arrola no ninho novo do vento e no colo das mães dos pais e das boas pessoas da nossa tribo.

Ainda somos tribo. A pesar da moderna sociedade voraz e veloz em que mergulhamos. Uma sociedade que destrói toda diferença  e anula a criatividade que é a arma de construção massiva dos artistas que nos ensinam a beleza do mundo e da vida.

Como a língua galega.

Com a nossa língua amamos, lambemos, comemos , falamos e cantamos. E com ela este povo galego criou a maravilha do lar o calor da lareira as folhas dos carvalhos e a sombra das carvalheiras. Os ouriços das castanhas e as patacas das leiras. Nesta língua nos arrolaram no berço cálido da família. Nela aprendemos a retranca e a andar espelidas para chegarmos  a tempo as festas. Sabemos dizer amorinhos, longe, perto , saudade, morrinha, cheirinho e arrecendos.

 A nossa língua nasceu aló polas noites dos tempos do encontro dos celtas e os latinos, e começou a balbuciar nas beiras do Minho e nas beiras do Eo. Cresceu cara o sul até os Algarves dos mouros , e da mão de inúmeros navegantes viajou e deu voltas a este mundo tolo feito de água, de terra e de ar. E no ar foram voando as falas de versos e de contos chineses ( e galegos).

 Foi língua de Reis como Alfonso X.De quem Castelao dizia:  “o único rei que mereceu o título de sábio”. E, vela ai que era em galego que ele escreveu. Madia leva!

 No medioevo,a nossa língua cantou ao amor, ao amigo e ao maldizer desde do montes do Iribio até as rias de Vigo. Desde Ribadeo até Lugo e Mondonhedo Fazendo a primeira lírica medieval da península.

Imo-las deixar nascer, crescer e façamos que voem livres como o vento.

A língua e as falas galegas:

Falamos em diferentes tons: Sopranos, contraltos baixos e tenores toda a gente faz parte da tribo

Diferentes vozes falam:

Uma língua , uma língua há uma língua!!
Há uma língua e há uma fala!!
Bla bla bla. (Toda a gente)

Uma pessoa:

-Há uma língua e uma fala
há uma cantar das fadas.
Cantam as fadas nas carvalheiras
cantam as xacias nas cachoeiras
e cantam meninhas solteiras.

Um homem:

Meninhas solteiras meninhas com garbo
moçinhos de pucha e homens barbados.

Outra voz:

Caaantam todos cantam
ao som das folhinhas
dos rexos carvalhos.
Dos bidueiros brancos dos salgueiros verdes
das urzes roxinhas das carquejas que rangem
Nasceu uma fala nasceu um cantar,
galegos galegas
vinde m’a escutar!!

Outra:

Ouvi-ches cantar?

Homem:

Ouvi minha rola
ouvi a gaitinha e as castanholas.

Pode seguir o homem:

Ouvi musicar a fala do Minho
e vil-a  dançar
nos cumes do Iribio.
Nos cumes tão altos que mais não puder
onde todos os ventos
da Galiza arrolam
as falas que cantam
as falas que sonham.

Mulher:

Lá está Praduzelos a cas do Martim
Cantou nossa língua
desde os altos cumes que tocam os céus
até os prados férteis que da génio vê-los.
Desde estes altos tesos
da Galiza real
Vejo todo quanto do mundo se puder amar
E vejo o caminho
dos cumes nevados
Que vai desde Lemos ao Berço viçoso
Onde todos frutos têm seu acocho.
E Vejo Três Bispos e Vejo os de Leão
Montes tão altos não vira jamais
Lá na linha do horizonte está Portugal.

Outra voz:

Nas beiras do Minho onde nasceu nossa fala
Irmãos fazem Pactos e escrevem palavras.
Pacto de Irmãos escrevem no Minho
aló nos fundos dos tempos idos
Herdanças registam nesoutros rios
Eo e Navia nos mesmos séculos
Velha Língua amorosa fala
que arrola meninhos que o vento canta.

Uma mulher:

Cantemos pois hoje gozosas
vamos celebrar as falas nossas:
Descendo alegres
dos Montes de Iribio
até as ondas que a arrolaram no Mar de Vigo.

Martim de Praduzelos queixou-se das mentiras
contemos verdades
de amor e de paz ao som das nossas cantigas:

“E direi-vos que lhi farei por en
d’amor nom quero seu mal nem seu bem
pois que mi mentiu o que namorei
nunca ja mais per amor creerei
pois que mi mentiu o que namorei”

(Martin de Praduzelos ( sec. XI ou XII). Praduzelos, Louzara O Iribio)

Ao mar de Vigo cantou Martim Codax.
Vamos cantar com ele no vento que zoa

CORO:

ONDAS DO MAR DE VIGO

(Martin Codax. Cantiga de amigo, S. XIII/ XIV)

Voz:

O Rei Dom Dinís cantou-lhe ao verdes pinhos
As Ribeiras Verdes,mais tarde Pondal
Perguntou pelos rumores dos Pinheiros lanzais

AI FLORES AI FLORES DO VERDE PINHO

Dom Denís, Cantigas de amigo( 1261-1325). Miguel Carneiro ( n.1933)

Voz:

Desde Mondonhedo  um vento
  arrolou amoroso
a vida que agroma num ninho etéreo
  entre os dedos do poeta Cunqueiro
molhados no rio do andar primeiro.

CORO:

QUEM PUIDERA NAMORALA.

L.E. Batallan(1988) A. Cunqueiro ( 1911-1981)

 

II O Tempo das névoas

Voz:

Agasalhada entre os grelos e as tojeiras foi guardada por labregos e costureiras,
Por marinheiros e mariscadoras durante os séculos chamados escuros.
Mas a nossa língua nunca deixou de cantar e por isso temos um dos folclores mais ricos, diversos e sonoros que se conhecem.

 E com ela imos até as feirinhas de Nadela ou cantamos alalás.

 A Língua Galega, cantado e contando, esteve à espera das grandes escritoras e escritores. Fazendo muinheiras e carvalhesas, Pandeiradas e fandangos. Alvoradas e polcas .

 Rindo a cachão polas corredoiras ou aquecendo o lume do lar em contos da lareira .

CORO:

FOLIADA DE NADELA

Fuxan Os Ventos- Arr Fernado G. Jácome

 

Voz:

Eu quero convosco cantar a Galiza
num coro de risos como outras cantaram
Galiza cantamos teus doces cantares
criados nas leiras aquecidos nos lares.
cantemos amigas na língua que falam
 as fontes os rios os montes a -iauga.

CORO:

ALALÁ DE MUGIA

Tradicional

Voz:

O povo fiel nunca te abandonara
medraches gloriosa na sua humilde fala
Falemos e cantemos na língua galega
é nossa e é vossa
é da humanidade toda inteira.

CORO:

TERRA MEIGA

Rey Rivero ( 1919-2012)

 

III  A Fala espreguiza e torna-se Língua de Cultura

Voz:

Aqueles esgrevios e esgrevias escritoras recolheram- a do povo, que a guardara zeloso, e construiram a partir das suas falas  uma potente literatura que músicos geniais adornaram com suas melodias.

Que seria a fala sem canção?

A música canta à língua que ama

Juntando à escrita notas e harmonia

 deram ao vento um presente sem igual

para gozar-mos hoje

de nos para vos

em feliz comunhão.

CORO:

NEGRA SOMBRA

Xoan Montes (1840-1899) – Rosalia de Castro ( 1837-1885)

Voz:

A nossa fala escrita ficou

pela mãos amorosas

que a cuidaram mimosas

desde que ela acordou

dum longo sono de falares e cantos

trabalhos e danças.

CORO:

SAM CAMPIO

José Torres Creo ( 1939) – Manuel Lago González ( 1865-1925)

Voz:

Um bispo uma  revolucionaria

 e um rebelde escritor

Pintaram letras recolheram sons

Para fazerem mais grande

a nossa Fala Maior.

CORO:

CANCION DO TEMPORAL

Juan López López- Lois Amado carballo ( 1901- 1927)

Voz:

Até as Terras de Cangas também chegou

a terrível sombra da inquisição.

Invejas e falares avaricias e crueldades

castigaram a inocente

 que não teve quem lhe valesse

Lembramo-la hoje muito justamente

CORO:

MARIA SOLINHA

Paz Villaverde( 1937)- Celso Emilio Ferreiro ( 1912-1979)

VOZES:

A fala é nosso património. Recebi-mo-la dos nossos maiores como recebemos a Terra em que se criou.

Cuidemos da Terra, dos montes, das águas.

 Cantemos ao vento  na língua mamada

Como fez Rosalia

 «Que cante e que cante na língua que eu falo»

 É nossa obriga.

 Que nunca tenham que nos reclamar quem detrás de nós venha por não termos cuidado do património que recebemos.

Adela Figueroa Panisse

Adela Figueroa Panisse

Adela Clorinda Figueroa Panisse é de Lugo (Galiza), fazedora de versos, observadora do mundo e cuidadora de amizades. Trabalhadora no ambientalismo e na criatividade da palavra. Foi professora e lutadora pela recuperação da dignidade da Galiza e, ainda, pela solidariedade entre os seres humanos e a sua reconciliação com a terra. Gosta de rir, cantar e de contar contos. Também de escutar histórias, de preferência ternas e de humor.
Adela Figueroa Panisse

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  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Bem belo texto e contexto, Curra