Aproveitando a sinalada data do 8 de março, Dia da mulher trabalhadora, queremos trazer hoje à palestra a situação em que se encontram as mulheres nesse grande subcontinente asiático. Ao contrário do que muitos pensam, não é a miséria e a fame o problema maior, que em ocidente, com tanta miséria mental, sim que temos problema. O problema maior, ao nosso entender, depois da experiência de passar, desde 2001, uma média anual de três meses residindo em Santiniketon-Bengala, e de seis meses desde outubro de 2010, é a discriminação que sofrem as mulheres indianas desde há séculos. Discriminação injusta e imoral, na qual desgraçadamente são muitas as próprias mulheres culpáveis desta situação, ao continuar com o modelo educativo a favor da desigualdade feminina.
Lembro que certo dia um nosso amigo e médico ourensano que encontramos pela rua, criticou-nos que nos artigos dedicados à Índia falássemos tão bem deste país. Justificámo-nos dizendo-lhe que eramos conscientes de isso. Que o fazíamos porque, dum país tão extraordinário em tantas e tantas cousas, onde de cada cem oitenta são boas e positivas, só se fala nos médios das negativas. Criando nos cidadãos do mundo preconceitos e estereótipos injustos e equivocados. Que, para falar da Índia, não se pode fazer desde a distância, que é necessário visitá-la e conviver por um tempo com indianos e indianas. Que não existem países nem culturas perfeitas, e que a indiana também tem os seus defeitos. E alguns muito graves, como a horripilante burocracia herdada dos britânicos, a falta de segurança social, a excessiva poluição em muitas das suas cidades, a não escolarização de muitas crianças do rural… E, especialmente, a profunda marginação que sofrem ali as mulheres indianas. E já não digamos as da coletividade muçulmana.
Na Índia o melhor que há, ademais da alegria, a natureza, os valores pacifistas e o respeito pela vida, pelas pessoas e pelas ideias filosóficas e religiosas variadas, são as crianças – todas alegres, bondadosas e educadas – e, por cima de tudo, as mulheres. Que ademais de formosas (inclusive as velhas), são a alma, a vida e o sustento dum país com mais de mil e trescentos milhões de cidadãos. Que é o país que mais progride no mundo, com perto de 8 % de produto interior bruto anual. Diante do que comentamos, é tremendamente injusto o trato que recebem as mulheres. O governo teve mesmo que proibir as ecografias às grávidas, para evitar os numerosos abortos, ao descobrir que iam ser meninas. E que criar um ministério específico preocupado pela acolhida das muitas meninas abandonadas ao nascer. Porque as famílias consideram um enorme encargo terem uma filha mulher, pelo posterior dote económico necessário para poder casá-la. O problema maior para as mulheres é ficar solteiras, e da primeira casta, por não encontrar um homem da mesma condição, ficam bastantes solteiras. Um segundo problema o têm as viúvas hindus que têm que sair à rua vestidas de branco, não podem voltar a casar-se, nem comer mais carne, nem peixe, nem alhos, nem cebolas, nem ovos. Antigamente tinham que arder vivas na pira funerária do esposo, com aquele costume bárbaro chamado «sati».
Nas cidades, lentamente, vão mudando um pouco as cousas. 30 % estuda nas universidades, em comparação com os homens. No rural, porém, 50 % de meninos vão à escola, e meninas não chega a 20 %. Por isso é prioritário apoiar as escolas, que também há, que escolarizam a meninas, porque a educação da mulher é vital na Índia atual. Em Moldaga-Santiniketon e em Taldangra-Bamkura, visitámos escolas rurais a que assistem meninas. Pela sua importância, apoiamos no que podemos estas escolas para meninas, e todos os anos lhes oferecemos livros e material escolar. Como em Kolkata (nome atual de Calcutá), nas escolas para mulheres do Brahmo-Somalh, a que pertencia toda a família de Tagore. Que também acolhe meninas abandonadas, solteiras e viúvas. Gandhi e Tagore foram grandes defensores da mulher. E na escola de Tagore, desde 1901, pratica-se a coeducação e defende-se a igualdade.
Os livros sagrados hindus (Bhagavad-gita, Upanishads ou Vedas) não falam em nenhum momento de que tenham que ser tratadas assim as mulheres. Que, embora muitas sejam iletradas, educam os seus filhos de maneira magistral, com amor e agarimo. Dedicando-lhes tempo, brincando e cantando com eles. E realizando-lhes as milenárias massagens aiurvédicas. Ver as mães da Índia de todas as castas e as sem casta o bem que tratam os filhos é um verdadeiro prazer.
Dada a situação da mulher na Índia, nos últimos tempos existe uma grande sensibilidade entre os cidadãos, e como é lógico, entre as mulheres, pela sua problemática, com muitas manifestações quando se produz algum atentado contra alguma mulher em qualquer recanto do país. Também existem bastantes movimentos feministas e os governos da república e dos estados respetivos têm a sua preocupação por todo o acontecer relacionado com as mulheres indianas e seus problemas, que são muitos e quase a diário.
Muito recentemente foram rodados dous filmes muito interessantes sobre as mulheres indianas, que são as protagonistas principais de ambos, que causaram grande impressão ali onde foram projetados, especialmente fora da Índia. Filmes que servem para apoiar o presente depoimento dedicado às mulheres indianas, ao redor da data do 8 de março.
FICHAS TÉCNICAS DOS 2 FILMES INDIANOS:
Diretor: Pan Nalin (Índia, 2015, 115 min., cor).
Roteiro: Pan Nalin, Subhadra Mahajan, Dilip Shankar e Arsala Qureishi.
Fotografia: Swapnil S. Sonawane. Música: Cyril Morin.
Produtoras: Jungle Book Entertainment, ONE TWO Films e Protein Entertainment.
Atores e atrizes: Rajshri Deshpande, Tannishtha Chatterjee, Adil Hussain, Sarah-Jane Dias, Amrit Maghera, Arjun Mathur, Vikram Kochhar, Sandhya Mridul, Pavleen Gujral, Jeffrey Goldberg, Anushka Manchanda e Anuj Choudhry.
Argumento: Frieda, uma conhecida fotógrafa de moda, resolve organizar a sua festa de casamento e convida para uma semana em Goa (Índia), na sua casa de família, algumas das suas melhores amigas. De idades e mundos diferentes, encontram-se em momentos muito específicos das suas vidas. Estes dias servirão para celebrar a amizade, a união e a liberdade possível numa sociedade marcadamente patriarcal. Porém, esta festa de despedida será também o palco de revelações inesperadas, onde as alegrias se vão misturar com tristezas, desgostos e alguns desenganos. Apresentado no Festival de Cinema de Toronto (Canadá), um filme sobre a amizade feminina numa cultura onde elas ainda luitam pela igualdade de direitos.
Ao redor de 7 mulheres indianas:
Considerado o primeiro buddy movie feminino indiano, Deusas em Fúria ou 7 Deusas tem uma energia indestrutível. “Todas as mulheres têm Kali dentro de si”, diz a atriz Anushka Manchanda, uma das três “deusas” indianas que visitaram Lisboa no verão de 2016. Pavleen Gujral completa: “na mitologia Hindu, Kali tem ainda outras faces, Durga e Sarasvati, ou seja, em fúria é Kali, em paz e amor é Durga, e na manifestação criativa é Sarasvati, deusa da música e da educação. Da mesma forma, todas as mulheres têm diferentes disposições e é isso que o filme tenta explorar.” Falamos de Deusas em Fúria, do indiano Pan Nalin que se projetou nas salas portuguesas com sete mulheres a mostrarem a língua – como Kali, na representação mitológica.
Começámos assim a conversa porque o filme organiza o seu el
enco feminino sob a lógica de combate às injustiças sociais na Índia, na qual a ira é uma arma indispensável. São mulheres corajosas, mas igualmente vulneráveis, reunidas numa casa em Goa para celebrar o noivado de uma delas. Pode adivinhar-se aqui uma espécie de O Sexo e a Cidade, mas é preciso alertar que as aparências iludem… Há uma raiz genuína nesta amizade representada, como explica a terceira deusa que marcou presença em Lisboa, Amrit Maghera: “no início não nos conhecíamos; encontrámo-nos nessa adorável villa em Goa, começámos apenas por fazer meditação e exercícios de confiança, e rapidamente desenvolvemos esta inabalável química.” Pavleen continua, “além disso, dormíamos mesmo naquela casa, não íamos para hotéis, estávamos o tempo todo juntas!” E Anushka fala-nos da magia local: “cada lugar tem a sua própria energia, e em Goa há muita descontração, o telefone não funciona bem, a internet é má… por isso estás naturalmente desconectada e relaxada. Essa atmosfera também ajudou muito.”
Conduzido com leveza, o filme de Pan Nalin alcança um momento fortíssimo, de que nem as atrizes saíram incólumes: “nesse chamado clímax do filme, em que corremos para a praia à procura da Joanna (Amrit Maghera), a situação é real, nós não sabíamos dela há três dias, por isso, toda a desorientação e pânico que são captados é algo que estávamos mesmo a sentir”, lembra Anushka com um brilho nos olhos. A emoção da lembrança trouxe mais lágrimas entre as amigas. Amrit, a desaparecida, sublinhou, “a experiência foi terrível, mas nunca senti tanta proteção, como com estas seis mulheres à minha volta!”
Sem tempo para secar bem os rostos, ainda se abordou esse lugar-comum que é Bollywood, apenas no sentido de se desfazerem enganos. “Foi um grande risco, sobretudo porque nos filmes de Bollywood há sempre o herói e a heroína, que são grandes estrelas. Embora algumas de nós sejam conhecidas em Bombaim, comparadas com estes atores somos praticamente desconhecidas. Portanto, a ideia aqui era sermos mulheres reais, sem maquilhagens, com as marcas da pele totalmente visíveis”, diz Amrit. Anushka conclui: “Deusas em Fúria projeta a modernidade da mulher indiana, o modo como as coisas mudaram e o que é a realidade dos nossos dias. É nesse ponto fundamental que se afasta da fantasia de Bollywood. A câmara apenas nos seguiu, e isso é fantástico.”
Diretor: Leene Yadav (Índia, 2015, 116 min., cor).
Roteiro: Supratik Sen e Leena Yadav. Fotografia: Russell Carpenter. Música: Hitesh Sonik.
Produtoras: Ashlee Films, Blue Waters Motion Pictures e Brillstein Entertainment Partners.
Atores e atrizes: Adil Hussain, Radhika Apte, Surveen Chawla, Tannishtha Chatterjee, Sayani Gupta,Sumeet Vyas, Mahesh Balraj, Lehar Khan, Chandan Anand, Riddhi Sen, Farrukh Jaffar e Tanya Sachdeva.
Argumento: História de quatro mulheres indianas de uma aldeia rural em uma região seca da Índia, no estado de Gujarat. Uma mãe viúva, uma esposa que sofre abusos e uma dançarina exótica começam a questionar as antigas tradições. Embora elas vivam vidas separadas, sua amizade e a luita contra as tradições opressoras da vila continua. Uma fatídica noite, elas se reúnem e tomam um passo ousado que vai mudar a trajetória de suas vidas para sempre.
Uma nova história filmográfica sobre mulheres indianas:
No cinema de Bollywood, raramente se mostra a violência sexual. Depois de ter feito duas grandes produções, a realizadora indiana Leena Yadav decidiu fazer um filme independente onde mostra a luita das mulheres indianas contra a opressão. A ação de “Parched” desenrola-se numa pequena aldeia indiana onde as famílias praticam o sistema de dote e onde a brutalidade física, os casamentos forçados, o desprezo e as violações são tolerados. Unidas pela amizade, quatro mulheres tentam escapar à violência, à misoginia e ao desprezo da sociedade. Sem maniqueísmos, a realizadora mostra-nos um sistema patriarcal onde cada um parece ter um papel determinado à partida. Qual é a margem de liberdade individual de cada pessoa? É uma das questões colocadas pela realizadora de forma subtil. “Parched” é coproduzido pelo ator Ajay Devgan, uma superestrela de Bollywood. A obra ainda não teve exibição comercial na Índia e não é certo que possa ser vista na versão original, sem cortes, devido às cenas de nudez.
INJUSTO E IMORAL TRATO DA MULHER EM MUITOS PAÍSES:
Um dos mais acertados e lindos textos sobre o genocídio que em muitos lugares do mundo se está a exercer contra da mulher, foi escrito pela deputada holandesa Ayaan Hirsi Ali, autora do livro Eu acuso. Coincidindo com o Dia da Mulher do ano 2006, pronunciou um formoso discurso encontrando-se na Alemanha. Como é bastante longo, escolhi aqueles treitos do mesmo mais interessantes e significativos. A autora compara o trato que recebe a mulher em muitos países e culturas como um holocausto similar ao dos judeus. A holandesa diz: «Nos países onde o nascimento dum menino é considerado um presente e o de uma menina uma maldição, recorre-se ao aborto e ao infanticídio seletivos para eliminar as que são meninas». É este o caso, por exemplo, embora nos últimos anos em menor medida, da Índia, onde não está permitido fazer ecografias às grávidas, para não descobrir o sexo da criança. E Ayaan continua afirmando: «As meninas morrem de forma desproporcionada por abandono, porque os alimentos e a assistência médica se destinam antes aos seus irmãos, pais, esposos e filhos. Nos países em que as mulheres são consideradas propriedade dos homens, os pais, irmãos e esposos as assassinam por atrever-se a escolher os seus próprios companheiros. São os chamados assassinatos «de honra», embora a honra tenha pouco a ver no assunto. As noivas jovens cujos pais não pagam dinheiro suficiente aos homens que com elas se casaram, são mortas; são as chamadas «mortes por dote», embora não sejam mortes; são assassinatos. O brutal tráfico sexual internacional de moças jovens mata um número incalculável de mulheres. A violência doméstica causa a morte dum grande número de mulheres em todos os países do mundo. As mulheres entre 15 e 44 anos têm mais probabilidades de serem assassinadas ou feridas pelos seus parentes masculinos que de morrerem por cancro, malária, acidente de trânsito ou guerra, todos juntos. Concede-se tão pouco valor à saúde feminina que, cada ano, aproximadamente 600 mil mulheres morrem ao dar à luz (similar ao genocídio como o de Ruanda cada 12 meses). Segundo a OMS, uma em cada cinco mulheres tem probabilidades de ser vítima de uma violação ou uma tentativa da mesma ao longo da sua vida». Quando isto comentava esta sensível mulher de nacionalidade holandesa, não podia imaginar-se que, 10 anos depois na mesma Espanha, se iam a dar tantos assassinatos de mulheres às mãos dos seus namorados, ex-namorados, esposos ou ex-esposos, com uns números aterradores.
Perante tal situação, mais adiante comenta: «As mulheres não estamos bem organizadas, nem unidas. As mulheres dos países ricos, que desfrutamos da igualdade sob a lei, estamos obrigadas a mobilizar as nossas irmãs. A nossa indignação e as nossas pressões políticas são as únicas armas que podem promover a mudança. Depois estão as forças do obscurantismo. Muitos islamistas estão empenhados em reviver e estender uma série de leis brutais e retrógradas. Nos países em que se impôs a lei corânica da «sharia», as mulheres são expulsas do âmbito público, é-lhes negada a educação e são obrigadas a passar toda a sua vida como escravas domésticas. A luita por combater o islamismo fundamentalista é uma luita para salvar as mulheres em corpo e mente. (…) Temos que luitar para mudar as mentalidades. Uma cultura que corta os genitais das meninas (a ablação bárbara), dana as suas mentes e justifica a sua opressão física, não é equiparável a uma cultura que considera que as mulheres têm os mesmos direitos que os homens. 8 de março é o Dia da Mulher, dia em que, todos os anos, celebramos os nossos triunfos e condenamos o nosso sofrimento. Contudo, um dia não é suficiente. Precisamos de mais de um dia, de mais de um ano, de mais de uma década. Precisaríamos de todo um século para luitar contra o «generocídio». Nem mesmo, quando os homens que nos governam procuram sinceramente a paz, não são conscientes de que, enquanto existir a guerra contra as mulheres, a humanidade nunca terá paz. Se nos é negada a educação, transmitiremos a nossa ignorância aos nossos filhos. O abandono das mulheres prejudica a sociedade inteira. Quando nos violam concebemos no meio da humilhação e transmitimos a nossa raiva aos nossos filhos. Se não nos querem, tampouco nós podemos querer; e se não nos cuidam, também nós descuidamos. As mulheres tratadas com crueldade engendram mercenários e opressores. Se nos destruem, destruímos. Perante este horror, sinto-me tão importante como qualquer, embora saiba que, para acabar com ele, imos precisar de muita mais energia e imos ter que centrar-nos melhor. Nisto seria muito importante que os organismos internacionais colaborassem decididamente, criando tribunais internacionais específicos de justiça, documentar bem todas as situações nos diferentes lugares e países, e organizar amplas e fortes campanhas mundiais de sensibilização, a favor do apoio decidido a todas as mulheres do planeta».
TEMAS PARA REFLETIR E REALIZAR:
Servindo-se da técnica do Cinema-fórum, analisar e debater sobre a forma (linguagem cinematográfica: planos, contraplanos, panorâmicas, movimentos de câmara, jogo com o tempo e o espaço, truques cinematográficos, etc.) e o fundo dos dous filmes antes resenhados.
Organizamos no nosso estabelecimento de ensino uma ampla amostra-exposição dedicada monograficamente à mulher e seus problemas. Na mesma incluímos fotos, mapas, textos, frases, aforismos, murais, desenhos e livros. Para fazê-la mais interessante incluímos na mesma trabalhos dos escolares: textos livres, poemas, frases, desenhos, contos e lendas. E podemos editar ou policopiar uma monografia ao estilo das da Biblioteca do Trabalho de Freinet.
Durante uma semana ou quinzena, organizamos na nossa escola ou colégio atividades educativo-didáticas ao redor do tema da mulher, e em todas as áreas do ensino: língua, matemáticas, plástica, literatura, sociais, naturais, artísticas, ética, expressões verbais, lúdica, dramática, numérica, icónica e dinâmica. Podemos tomar como guia a Unidade Didática Globalizada publicada no seu dia pela ASPGP em março de 1989.

