José Paz Rodrigues (*) – Existem muitos e interessantes filmes dedicados a grandes mestras e também a grandes educadoras e pedagogas. Estive a ver a grande listagem de filmes educativos que tenho na minha cinemateca particular, para procurar um título.
Tenho A milagre de Ana Sullivan, o iraniano Às cinco da tarde, Educando a Rita, Dor, Madame Brouette, Mentes perigosas, O sorriso de Mona Lisa e o senegalês Moolaadé, ademais de algum dos últimos filmes chineses, em que a mulher é protagonista como mestra. Em todos eles, de uma ou de outra forma, é muito importante o papel da mulher.
Ao final ficaram para escolher a que comento hoje, e o filme realizado polo genial diretor senegalês Ousmane Sembene. No qual, brilhantemente, com grande sensibilidade, se denuncia a aberração que se comete contra as nenas de muitos países centro-africanos, praticando-lhes contra a sua vontade a horrenda ablação do clítoris. Um dos maiores atentados contra os direitos humanos, a dignidade e a integridade das raparigas. Outro dia comentarei este filme, porque realmente o merece.
Finalmente decidi-me por “Diários da rua” por vários motivos. Porque é um filme muito atual. Porque a mestra protagonista Erin Gruwell, é professora dum Liceu e, portanto, a história é real, embora esteja interpretada por uma atriz. Os diários do grupo de adolescentes, seus alunos, “Os escritores da liberdade”, como gostam de se chamar, existiram e estão publicados, com grande sucesso de vendas.
Mas, especialmente, a milha escolha está fundamentalmente baseada em que esta exemplar mestra põe em funcionamento uma estratégia didática muito moderna, espetacular e inovadora. Que todos os docentes podem levar às suas aulas, se quiserem. Através da criatividade literária, contando de forma expressiva as suas vivências, conseguiu que os rapazes enormemente conflituosos e problemáticos que tinha na aula, terminassem por recuperar-se, elevando a sua autoestima de forma considerável, e terminando por integrar-se socialmente no meio, como seres ativos e não passivos.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Freedom writers (Diários da rua. Os escritores da liberdade).
Diretor: Richard LaGravenese (USA-Alemanha, 2007, 123 min. A cores)
Roteiro: Baseado no livro “The freedom writers diary” de Freedom Writers e Erin Gruwell.
Música: Mark Isham. Fotografia: Jim Denault.
Intérpretes: Hilary Swank, Patrick Dempsey, Scott Glenn, Imelda Staunton, April Lee Hernández, Mario, Kristin Herrera, Sergio Montalvo, Jacklyn Ngan, Jason Finn e Hunter Parrish.
Argumento: Está inspirado numa história real, a da professora dum Instituto-Liceu, Erin Gruwell, e nos diários dum grupo de adolescentes, “Os escritores da liberdade”, de Long Beach na Califórnia, depois dos distúrbios de 1992 produzidos por conflitos de tipo racial. O filme está ambientado nos arredores do Instituto “Wilson Classical” da localidade californiana, a meados dos 90, e expõe a força criativa e didática duma mulher, que deixa os seus preconceitos e técnicas tradicionais à parte, para exercer a sua tarefa com um grupo de adolescentes marginais.
Técnicas didáticas de escrita criativa para mudar a conduta:
A mestra do filme tem uma grande intuição pedagógica e muita constância e força de vontade, ademais de acreditar na importância do seu ofício de docente. Põe a andar na sua aula a estratégia didática (que Freinet denominava texto livre) sobre a escrita criativa dos rapazes para, ao final, conseguir a mudança das suas desviadas condutas. Utiliza a leitura do Diário de Ana Frank para motivar os alunos. Isto provoca que estes terminem por implicar-se, o que antes não faziam, e elaborar uns formosos diários de vida, alguns merecedores de ser editados, como ao final foram, com o título de Diários da rua, escritos polo coletivo de autores Os escritores da liberdade.
Aos seus 23 anos, ainda com aspeto de estudante, a idealista Erin, filha dum ativista dos direitos humanos, que, de criança, só queria estudar para advogada e poder defender assim os pobres e excluídos, entra como mestra novel no liceu “Wilson”. Na sua turma encontra-se com um grupo multiétnico de adolescentes das mais variadas origens. A maioria com muitos problemas de inadaptação, socialização e experiências vitais aberrantes. Há muito ódio entre eles e à mestra nova custa-lhe sangue, suor e lágrimas, tempo e muita paciência para conseguir que participem na aula.
A atitude otimista da mestra, não sem esforços, termina por mudar a dos seus alunos. Porque também é uma docente diferente aos outros companheiros do centro. A direção não ajuda, para ter novos livros e novas atividades, mas a mestra obstinada mesmo realiza trabalhos extra para conseguir fundos e poder financiar o seu projeto pedagógico inovador. Lutando contra todos, superiores e familiares, que acham que aquele é exagerado e inapropriado.
Porém, os jovens reagem positivamente ao desprendimento da mulher e integram-se por completo. Ela sabe ademais que cada rapaz tem uma história que contar. Para isso anima-os a que escrevam um diário com os seus pensamentos e experiências. Os diários dos rapazes pronto deixam de serem deveres de aula e se convertem num instrumento de afirmação vital. Quando a mestra lhes oferece uns cadernos para fazer anotações diárias sobre a sua vida e pensamentos, os cadernos transformam-se num remédio e logo se enchem com a dor e a angústia dos jovens. No entanto, o contato com os seus estudantes afeta a mestra na sua família e matrimónio.
Propostas para os nossos docentes:
– Visionar o filme e refletir sobre ele e o labor didático que desempenha a mestra que aparece no mesmo.
– Analisar (e tratar de levá-las à prática nas próprias aulas) as estratégias didáticas que põe em prática Erin: Leituras dos livros Diário de Ana Frank, a Odisseia de Homero e Diário de Zlata, sobre a guerra da Bósnia; visionado do filme A lista de Schlinder; organização de palestras dadas por pessoas da comunidade e de outros lugares; assembleias valorativas e leituras públicas dos diários dos rapazes.
– Comentar o facto de os estudantes desta mestra terminarem por graduar-se na universidade, chegando a criar uma Fundação da Educação para a Tolerância, aliás, muito ativa.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



