M. Felisa Rodríguez Prado – É sempre um bom momento para se ler um clássico das letras angolanas, que recebeu o Prémio Camões de 1997, mas escolher esta obra situa-nos perante uma narrativa de características particulares, no conjunto da produção de Pepetela.
O subtítulo já nos dá a medida dessa peculiaridade, porque aceita para o texto, logo à partida, leitores infantis, juvenis e de divisões posteriores, e, ao mesmo tempo, rotulando-o de fábula, marca tanto o protagonismo de uns seres-animais –criados pola imaginação do autor, diga-se de passagem!– como a hipótese de se fazer uma interpretação alegórica, sem esquecermos a finalidade exemplificadora.
A montanha da água lilás, dedicada à filha, é colocada como uma narrativa oral transcrita: apresenta-se em forma de conto transmitido polo avô Bento, nas noites africanas e à volta da fogueira; radica-se no espaço de enunciação, afirmando dar conta de casos da terra (ou de qualquer outro lugar…); liga-se a um tempo passado em que os animais falavam ou, melhor, em que os homens –em harmonia com a natureza– ainda tinham a capacidade de compreendê-los.
Era uma montanha. Eram uns seres especiais –nem completamente animais nem bem homens– cor de laranja. Era uma sociedade complexa, em que conviviam lupis, lupões e jacalupis. Era um mundo de harmonia em que os problemas eram de todos e reinava a solidariedade. Aconteceu, no entanto, a aparição de um líquido baptizado como “água lilás” e aí começaram os problemas, não apenas na montanha mas também no seu relacionamento com o mundo da planície, onde avultam a hiena falsa, o kandimba (coelho) contador de estórias, o cágado (tartaruga) sábio e juiz, e não faltam rinocerontes, onças, leões ou elefantes.
A montanha da água lilás fecha-se com uma interrogação a respeito das gerações futuras: “Aprenderão elas com a estória?”. A literatura como forma de memória e instrumento de/para aprendizagem…
Para miúdos ou graúdos, para ler ou ouvir, para entreter-se sem mais pretensão ou para refletir, para oferecer um belo texto acompanhado por desenhos ou para aproximar-se da África sem afastar-se da lareira: uma escolha certa!

M. Felisa Rodríguez Prado
M .Felisa Rodríguez Prado, é professora associada da Faculdade de Filologia da Universidade de Santiago de Compostela, onde leciona a matéria “Literaturas Africanas de Língua Portuguesa” desde a sua criação e é investigadora do Grupo GALABRA – Estudos dos Sistemas Culturais Galego, Luso, Brasileiro e Africanos de Língua Portuguesa.
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