José Paz Rodrigues – Durante séculos e décadas Galiza foi um país que enviou, primeiro para a América Latina e depois para a Europa, um bom número de emigrantes. Judeus e galegos podem considerar-se como os povos que no mundo mais cidadãos próprios, durante muito tempo, enviaram para a emigração.
Nos últimos tempos, a Nossa Terra, no lugar de ser um território “exportador” de emigrantes, passou a ser um lugar de acolhida de cidadãos de outros países. Temos agora aqui cidadãos africanos, especialmente do Senegal, Marrocos e Cabo Verde. Também muitos latino-americanos da Colômbia, Venezuela, Paraguai, Uruguai, Equador, Bolívia, Peru, Argentina, República Dominicana e Brasil. E no Val d’Eorras também existe uma importante colónia de portugueses.
Infelizmente não existe ainda uma formação específica para professores, de maneira que aprendam a integrar adequadamente e de forma positiva nas aulas os filhos e filhas de infantil, primária e secundária, dos cidadãos das nacionalidades antes citadas. O que é tão urgente como importante. É necessário apoiar escolarmente, com programas apropriados, desde todas as instituições, locais, comarcais, provinciais e autonómicas, as crianças, adolescentes e jovens africanos e americanos. E dotar de educadores sociais e especialistas os nossos estabelecimentos de ensino para desenvolver este importante labor de integração de escolares imigrantes.
E mais nalguns coletivos, polo seu idioma tão diferente dos nossos, como é o caso dos africanos senegaleses e marroquinos. E isto é de vital importância, se não queremos lamentar no futuro graves problemas sociais. Como os que cada certo tempo acontecem na França. Onde, por não terem integrado no seu dia de forma acertada os seus imigrantes norte-africanos, filhos e netos dos mesmos desenvolvem ações de profunda violência nas grandes cidades e nos seus bairros. O filme que hoje analiso, que ademais é uma verdadeira obra-mestra, apresenta de maneira diáfana o que venho de assertar sobre a cegueira profunda dos galos, mais preocupados do seu orgulho nacional, do seu ego e do seu típico chauvinismo.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Le Gone du Chaâba (“O rapaz do Chaâba”)
Diretor: Christophe Ruggia (França, 1999, a cores, 105 minutos).
Atores: Bouzid Negnoug, Nabila Ghalem, Galamelah Laggra, Kenza Bouanika e François Morel.
Filme premiado no Festival de Berlim e na Seminci de Valhadolid.
Argumento: Magnífico filme, o primeiro do seu diretor. Por meio dum neno protagonista, chamado Omar, interpretado de forma magistral polo rapaz Bouzid Negnoug, apresenta-se a situação de umas famílias de imigrantes argelinos, a meados dos anos sessenta, após a independência da Argélia, num bairro mísero de lata dum subúrbio da cidade francesa de Lyon. O guião do filme está baseado no romance autobiográfico do argelino-francês Azouz Begag, com grande sucesso no país galo.
Análise do Filme:
Este formoso e poético filme é um relato sólido, muito bem construído. Os acontecimentos quotidianos, as anedotas, as situações familiares, escolares e de amizade têm o calor e o detalhe do vivido. O rapaz protagonista, Omar, tem verdadeira paixão por ler e por estudar, inculcada especialmente polo seu pai. Isto vai-lhe permitir não cair vencido polo duro meio circundante e abrirá-lhe um horizonte humano, uma esperança certa de uma vida digna para ele e os seus, quando saiam desse bairro de lata chamado “Chaâba”.
A fé e a confiança apresentam-se com naturalidade ao longo da passagem dos dias de vida no bairro. Omar é um mais entre os outros rapazes. Mas a sua educação familiar e o seu aproveitamento escolar, apresentam-no como diferente e superior aos outros. Que abandonam a escola por desinteresse e por não terem estímulos positivos nas suas famílias. A narração fílmica é singela, precisa na sua ambientação realista, profunda na apresentação da psicologia de rapazes e raparigas. Em muitos dos que aparece o ressentimento e a violência inútil contra a imagem que dão os cidadãos galos: nos maiores, pais e mães, aparece a amargura, a frustração e o sentimento de inferioridade. Polo que este filme é uma testemunha real e um documento histórico, cheio de autenticidade.
A ausência de discurso político, o afastamento do panfleto de reivindicação social, permite que os factos e as cousas e pessoas adquiram toda a força da sua realidade, dura realidade, que eu me atrevo a chamar poética, por mais verdadeira e sublime. A não razoada visão do rapaz Omar, senão a intuição de seus olhos limpos, da sua inteligência branca, e por isso mais aguda, recolhem também na inclemente paisagem humana do bairro o amor, a ternura, a alegria, a esperança e o otimismo. Afinal concluímos, temos que concluir, que aqueles imigrantes argelinos, de religião e convicções muçulmanas, são seres humanos autênticos que merecem o nosso apoio, a nossa compreensão e a nossa ajuda. Em tempos em que, por culpa de fanáticos e fundamentalistas, estendemos os preconceitos negativos a todos os que professam o culto maometano.
Aspetos a observar:
– O modelo de escola e de mestre francês, com a sua dignidade e as suas estratégias didáticas.
– A importância do ofício de pais, e a influência positiva, ou no seu caso negativa, na educação dos filhos.
– A maneira em que o meio pode influir nas crianças: ideologia religiosa, amizades, jogos, o amor e o desamor.
– A injusta e imerecida discriminação das mulheres em culturas e religiões concretas.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.
Ficha Técnica do Filme:

