José Paz Rodrigues (*) – O dia 20 de novembro celebra-se o dia internacional dos Direitos da Criança, que comemora a aprovação pela ONU da Declaração dos Direitos da Criança em 1959 e da Convenção sobre os Direitos da Criança em 1989, ratificada esta última pelo Parlamento espanhol em 26 de janeiro de 1990.
Nos artigos 18,19 e 20 da Convenção diz-se: “Se um neno não tem pais, tem que haver alguém que se ocupe dele. Se os pais dum neno trabalham, alguém tem que atendê-lo enquanto estão trabalhando. Ninguém pode descuidar, abandonar, maltratar ou explorar um neno, nem atuar com violência sobre ele. Se um neno não pode ficar com a sua família, tem que ir viver com alguém que se ocupe dele.” Artigos tão significativos que têm que servir para que as pessoas com coração tenham que refletir sobre a situação da infância no mundo atual e em muitos dos países.
Os 54 artigos que integram a Convenção, que foi aceite por muitos países do planeta, recolhem outros muitos temas relacionados com as crianças: a sua saúde, a sua educação, o seu bem-estar… Todos eles são interessantes e muito lindos se se respeitam na prática, o que infelizmente não acontece em muitos recantos do Planeta Azul. É o mesmo que o evangelho cristão, que é muito mais formoso se se leva à prática na vida de povos e pessoas, pelos diferentes cidadãos. Mas o mundo está mal repartido, e quando falamos de crianças ainda mais. Em Ocidente, com uma perda de valores galopante, com muita miséria mental (que é a pior das misérias) enorme, os rapazes têm de tudo, mas não valorizam nada, precisamente por terem tanto. São pouco felizes, não sabem brincar nem divertir-se. Como dizia a minha mãe Rosa, o que têm é muita naturria. Por outra parte, há um problema que deveria preocupar-nos a todos: não nascem nenos, porque, por comodidade ou outras razões, os pais não querem ter filhos. Alguns preferem levar um cãozinho puxado por uma trela, que um neno ou nena no seu colo. A baixa natalidade, por exemplo, nas províncias de Ourense e Lugo, no caso da Galiza, é para mim o maior de todos os problemas que temos. Ao qual, com urgência devemos pôr remédio.
Se comparamos o nosso grave problema de ínfima natalidade com a realidade doutros países noutros continentes, no que se refere ao mundo das crianças, encontramos situações diversas e algumas colocadas em polos opostos. Conheço o Bangladesh, por estar naquele lindo país asiático por três vezes durante um certo tempo. A última, nos primeiros meses do presente ano. O Bangladesh não é, pela sua natureza e as suas matérias-primas, um país pobre. O que se passa é que tem uma grande superpopulação, para a extensão do seu território habitável. Nascem crianças como fungos, não há qualquer controlo da natalidade. Os pais, muito ao seu pesar, têm que abandonar os filhos por não terem para lhes dar de comer e poder mantê-los. Não os vão matar, como antigamente se fazia com os gatos atirados ao rio metidos num saco. Pelas ruas de Daca há infinidade de nenos e nenas que não conhecem os seus pais. Hoje existem muitas ONG que mantêm escolas e casas de acolhida para estas crianças. Crianças que, ademais de muito lindas, e apesar de estarem sem pais e sem recursos, são agradáveis, alegres, educadas, bondosas e muito agradecidas. Com 300 euros ao mês pode manter-se uma escola para mais de cem crianças. Com esta quantia chega para o pagamento do aluguer do local, honorários dos professores, comida e alojamento dos rapazes e os gastos correntes (luz, gás, água…). E depois na Europa queixamo-nos!
Noutro país tão lindo e tão próximo, linguisticamente falando, como Cabo Verde, quase todos os rapazes têm um posto escolar. Mas o seu grave problema é não terem água potável ou terem muito pouca. Na ilha de Santiago (em que fica a capital da República cabo-verdiana), estive no mês de outubro de 2009 durante uma semana. Ali comprovei que 17 escolas de primária de toda uma área necessitam com urgência de ajuda para que possam comprar um camião-cisterna para levar-lhes água potável e calmar assim a sua sede e manter a sua higiene. Seria tão difícil organizar uma campanha solidária popular para arrecadar fundos para comprar-lhes um camião de que necessitam urgentemente?
Nesse grande país que é a Índia, onde na sua Bengala moro cada ano uns seis meses na formosa localidade tagoreana de Santiniketon, e que conheço bastante, há pouco que se aprovou pelo Parlamento de Deli uma lei geral pola que se estabelece na Índia a escolarização obrigatória e gratuita de todos os nenos e nenas em idade escolar. Mas ainda passarão muitos anos para que seja efetiva na sua totalidade, embora seja este país o que mais progride economicamente do mundo. Perto do campus tagoreano há muitas aldeias dos povos primitivos Santales, em que não chegam a ter escola mais de 20 por cento dos nenos e é necessário abrir muitas escolas para escolarizar todos. O que não teria muito custo, pois poderiam dar-se as aulas ao ar livre e só haveria os gastos dos honorários do professor e materiais escolares fundamentais (livros, cadernos e lápis). Mas, o mais grave é o baixíssimo índice de escolarização das nenas. Tema da maior urgência na Índia, pois as mulheres continuam numa injusta marginação. Imerecida e imoral, sendo como é tão importante que as nenas vão à escola e se alfabetizem. Aspeto tão vital que também é um grande problema na maioria dos países árabes e africanos.
O filme que hoje escolhi, uma obra-mestra realizada por Luis Buñuel, intitulado Os Esquecidos (Los olvidados), apresenta o grave problema de como vivem os rapazes da cidade de México, uma das mais povoada e das mais perigosas na atualidade em todo o mundo.
Ficha técnica do filme:
Título original: Los olvidados (Os esquecidos).
Diretor: Luis Buñuel (México, 1950, 88 min., preto a branco).
Roteiro: Luis Buñuel, Luis Alcoriza, Juan Larrea, Max Aub e Pedro de Urdimalas.
Música: Gustavo Pittaluga e Rodolfo Halffter. Fotografia: Gabriel Figueroa.
Produtora: Ultramar Films. Cenografia: Edward Fitzgerald.
Atores: Alfonso Mejía (Pedro), Roberto Cobo (El Jaibo), Stella Inda (mãe de Pedro), Miguel Inclán (D. Carmelo, o cego), Alma Delia Fuentes (Metche), Francisco Jambrina (diretor da Quinta Pedagógica), Jesus García Navarro (Pai de Julián), Efrain Arauz (Cacarizo), Jorge Pérez (Pelón), Javier Amézcua (Julián), Mario Ramírez (Ojitos), Juan Villegas (avó de Cacarizo), Héctor López Portillo (juiz), Ángel Merino (Carlos, ajudante do diretor), Daniel Corona (mandrião 1), Roberto Navarrete (mandrião 2), Antonio Martínez (Chamaquito), Ramón Martínez (Nacho, irmão de Pedro), Diana Ochoa (mãe de Cacarizo), Francisco Muller (Mendoza) e outros muitos.
Prémios: 11 prémios Ariel em 1950, incluído o de melhor filme e diretor. Melhor diretor no festival de Cannes de 1951 e nomeado para a Palma de Ouro no mesmo festival galo. Prémio da BAFTA em 1952, nomeado ao melhor filme. Em 2003 a Unesco distinguiu este filme com o galardão de “Memória do Mundo”.
Argumento: Este sem duvida é um dos filmes mais realistas do grande cineasta, e talvez o que mais toque em temas sociais. Produzido na época em que Buñuel se encontrava exilado no México por razões políticas (governo fascista do General Franco), este resolveu mergulhar no submundo da Cidade do México para mostrar como ali (e noutras metrópoles) convivem diariamente famílias não lembradas a todo o momento pelos média e pelos demais moradores da grande metrópole. Daí surge o título. Baseado numa história real que Buñuel leu nos jornais mexicanos, o filme mostra a história de Pedro, um rapaz que assim como os seus colegas formam alguns “gangues” e diariamente praticam roubos, na cidade do México. Um dia a vida deles muda pois um criminoso famoso, e tido pelos rapazes como líder, foge da prisão e volta para reencontrar os seus “amigos”. O “gangue” pratica inúmeras crueldades, inclusive agredir um cego e um aleijado, e tentar roubá-los. Porém um dia Jaibo, o criminoso fugitivo, resolve tirar satisfações com Julian, um moço trabalhador que possui um pai bêbado, pois segundo Jaibo, Julian tê-lo-ia delatado para a polícia. Jaibo acaba agredindo Julian na cabeça, na presença de Pedro, que foi como o seu cúmplice. Logo a seguir os dous fogem sem saberem que tinham matado Julián. Quando a notícia da morte de Julián se espalha, Pedro resolve voltar para casa, e tem um sonho onde tenta reconciliar-se com a sua mãe, mas Jaibo o atrapalha. Além disso resolve procurar um emprego, e consegue. Mas Jaibo não dá sossego a Pedro e numa oportunidade comete um roubo no emprego de Pedro e a culpa recai sobre Pedro, que é demitido e passa a ser procurado pela polícia. Como se não bastasse, Jaibo envolve-se sexualmente com a mãe de Pedro e ainda a convence a entregar Pedro à justiça, para que essa cuide dele. Pedro então é mandado para um colégio interno onde se revolta com os seus colegas e desconta algumas galinhas. O diretor do colégio fica sabendo, porém, ao invés de agir como o esperado, repreendendo-o, resolve dar confiança a Pedro e entrega-lhe uma nota de 50 pesos para que ele lhe compre um cigarro fora do colégio e volte com o troco. Contrariando todas as expetativas Pedro resolve fazer isso, porém, mais uma vez, Jaibo interfere na sua vida e tenta roubá-lo. Os dous brigam, e Jaibo acaba matando Pedro. Em seguida Jaibo é morto pela polícia quando tenta fugir. Porém, a cena final é a mais inquietadora. Uma menina amiga de Pedro e o seu avó, veem o corpo de Pedro morto no seu celeiro e com enorme indiferença deitam-no fora num saco de lixo. Talvez por causar esse mal-estar este final tenha sido censurado, o que obrigou Buñuel a produzir um final mais doce e “Hollywoodiano”, porém menos com a cara do cineasta aragonês.
Crianças marginadas e esquecidas:
O filme, considerado um semidocumentário, conta casos reais de indivíduos moradores da Cidade do México. A história da personagem de Pedro, por exemplo, foi baseada na notícia de um menino encontrado morto num barranco. Apesar de se tratar de um drama mexicano, Buñuel deixa evidente que a história contada pelo filme não trata, apenas, de factos isolados de um país subdesenvolvido. Logo dos primeiros minutos, o diretor passa a mensagem de que a problemática do drama que se apresentará é de ordem universal. Trata-se de uma exposição crua da extrema pobreza e miséria que recai sobre uma parcela de pessoas em todo o mundo. Pela sua abordagem crua e direta em relação à grave situação social, o filme gerou no México muita polémica, inclusive com tentativas de agressão físicas ao seu diretor. Num primeiro momento permaneceu por apenas quatro dias em cartaz. Contudo, tempos depois, com a premiação em Cannes (melhor diretor), os média mexicanos passaram a considerar o filme a partir de um ângulo diferente, chegando a ser exibido nas principais salas de cinema por mais de dous meses seguidos.
A temática do filme é claramente de cunho social. Procura abordar, dentre vários aspetos, a questão dos bolsões de miséria que afligem as crianças moradoras de bairros marginais e favelas (lembra em muito as mazelas das grandes cidades brasileiras, e de cidades também de países considerados desenvolvidos) e, a partir do olhar de um adolescente (Jaibo) que acabara de fugir de uma instituição correcional (espécie de quinta pedagógica-centro de menores), revela o drama de pessoas que tentam sobreviver num ambiente indigno e desumano. Podemos dizer que se trata de um drama ou tragédia neorrealista, quase documental e com um viés marcadamente social. Para André Bazin, “Os Esquecidos” representaria o que ele denominou de “cinema da crueldade”, guardando uma estreita relação com o teatro de Antonin Artaud.
Em “Os Esquecidos” podemos ainda identificar elementos associados à Psicanálise (Complexo de Édipo, por exemplo), como nas cenas em que mostram as tentativas de aproximação de Pedro em relação a sua mãe que o renega sistematicamente. O sonho onde Pedro clama por comida e a sua mãe lhe oferece vísceras é marcante e aponta para caraterísticas surrealistas, bastante exploradas nos primeiros filmes de Buñuel. Sentimentos de compaixão são algo que o cineasta em questão procura afastar neste filme. A ausência do Estado como garantidor de uma vida mais decente para a população marginada é algo bastante visível. Essa desestrutura e carência é imediatamente repassada para as relações que se estabelecem entre os moradores locais, gerando conflitos e desesperanças cada vez mais pulsantes e destrutivos. É como se uma cousa alimentasse a outra. Um Estado corrupto e sem quase nenhuma responsabilidade social diante de estruturas familiares falidas, desprovidas de afeto e atenção entre seus membros.
As personagens de “Os Esquecidos”, considerando o ambiente socialmente desajustado em que moram, passam, nalguns casos, a colocar em risco o pouco de dignidade e pureza que ainda podem trazer em si. Assim, por exemplo, o momento no qual a personagem “olho pequeno” é provocada pelo cego e logo depois levanta uma pedra para atingi-lo, desistindo em seguida, é bastante emblemático, nesse sentido. Significativa e bastante forte a sequência onde a mãe de Pedro o entrega à polícia para ser internado numa escola agrária. O diálogo que se trava entre a mãe e o juiz de menor traduz muito bem o jogo de empurra-empurra que envolve o poder público e a família quando se trata de educar e acolher “os seus filhos”. Aliás, não podemos deixar de observar a semelhança entre “Os Esquecidos” e “Os Incompreendidos” (Les Quatre Cents Coups, 1959), de François Truffaut. Ambos procuram retratar a infância perdida no meio de um ambiente familiar e social confuso e contraditório. No caso do filme de Truffaut, porém, que foi realizado nove anos depois, essa precariedade infantil/juvenil ocorre em circunstâncias bem mais amenas, tanto do ponto de vista da trama em si, como também da estética utilizada pelo cineasta francês. Proximamente dedicarei um artigo da série a este filme.
O sentido de erotismo também tem o seu espaço no filme do diretor aragonês. Atente-se para a cena do leite derramado sobre as coxas da menina e as investidas de Jaibo na mãe de Pedro. Por fim, vale destacar o trabalho de fotografia de Gabriel Figueroa, cheio de contrastes de luz que nos revela uma representação crua e brutal da delinquência juvenil mexicana.
O grande desafio de preocupar-se com as crianças:
Pedro, El Jaibo, Ojitos, Metche e as demais crianças e adolescentes que vagam pelos subúrbios miseráveis da Cidade do México representam os esquecidos e os abandonados pelo mundo dos adultos que, preocupados em impor a lei e a disciplina, negam-lhes amor, carinho, afeto e compaixão (o assustador discurso de Dom Carmelo, que prefere tratá-los como simples criminosos ou como meros animais). Em “Os Esquecidos”, todos os adultos são personagens ausentes, frias ou abjetas: a mãe de Pedro, que o odeia e que o chama de vagabundo; o pai de Ojitos, que o deixa à própria sorte na feira; os pais que El Jaibo nunca conheceu; o avô surdo de Metche, mais zeloso com os animais do que com a neta; o pedófilo que aborda Pedro em frente à vitrine da loja; o velho cego que escraviza Ojitos, assedia Metche e provoca a morte de El Jaibo. Dos casos particulares ao coletivo, há o Estado em si, que deixa os mais indefesos (e a quem deveria proteger) viverem na desesperança e na desolação. Para Buñuel, a sociedade em que as suas jovens personagens estão imersas encontra-se tão viciada e tão corrupta que até a inocência infantil já se perdeu por completo. Não há, pois, redenção possível, em “Os Esquecidos”, tanto para Pedro quanto para El Jaibo, que vivem e morrem no abandono e na injustiça. Cidade do México, Paris, Nova Iorque, Chicago, Roma, Bogotá, Lima, Caracas, Madrid, Sevilha, Rio de Janeiro, não importa: cada qual possui o Dom Carmelo que merece, pregando aos quatro ventos, como saída definitiva para qualquer crise, o retorno ao poder dos tempos assassinos de Porfírio Diaz e doutros ditadores noutros países.
Em Os esquecidos Luis Buñuel trata de um problema social sem passar a mão na cabeça de ninguém. Todas as personagens retratadas no filme são um pouco culpadas e também um pouco vítimas, umas, porém, mais do que as outras. Acima de todas, está a questão social típica das grandes metrópoles: ela existe e só pode ser combatida através de medidas políticas e educativas. O questionamento que se faz é se, de facto, essas pessoas pobres, esquecidas, embrutecidas têm alguma representatividade democrática, se de alguma forma influenciam no rumo das decisões políticas. É evidente que não, afinal de contas, estão mais preocupadas em sobreviver. Então, temos esse problema, que transcende todas as personagens retratadas no filme, existe independente deles, até quando? O filme não oferece sugestões concretas, mas elas estão implícitas no espírito da obra. Realista, mas também com espaço para o estudo psicológico das personagens, tal como antes comentámos, contando inclusive com uma bela sequência onírica. Buñuel reconhece o problema sociopolítico, mas não coloca as personagens genericamente como coitadas (elas chegam até mesmo a roubar um homem sem pernas!). O meio influencia na conduta dos delinquentes, mas isso não quer dizer que todos sejam apenas vítimas. É o caso de uma das personagens, El Jaibo, cujas atitudes passam dos limites da razoabilidade e devem ser resultado de alguma patologia. Ou Dom Carmelo, o velho cego: ele só não é pior por conta da cegueira.
Luis Buñuel consegue domar bem uma história que envolve várias personagens. A trama não gira em torno de nenhuma delas. Uma está ligada a outra e todas estão conectados ao problema social, ponto de partida explícito já na introdução do filme. Se em “O anjo exterminador“, Buñuel mostrou como as condições sub-humanas podem animalizar até mesmo as pessoas mais recatadas e elegantes, o que dizer daqueles que, já crianças, sofrem a pressão perversa do meio? Alguns conseguem seguir adiante, inclusive podem melhorar com a experiência, mas isso não anula obviamente a questão central.
O mundo retratado em “Os esquecidos”, diga-se, é o mundo das crianças abandonadas, inclusive pelos seus próprios pais (mas estes já foram crianças e passaram pelas mesmas adversidades). O problema, então, pode ser visto como desesperador, mas só o é porque não dá para confiar nos homens. A única saída possível é o fortalecimento das instituições, com boas leis, distribuição de renda, respeito aos direitos individuais, enfim, tudo aquilo que só pode ser resolvido através de uma verdadeira democracia. Desde a introdução em off – …Só num futuro próximo poderão ser reivindicados os direitos da criança e do adolescente (…) Este filme mostra a vida real. Não é otimista (…) A solução para esse problema é deixada às forças do progresso social. Buñuel amostra que as medidas devem ser tomadas para frente, visando o futuro. Resta saber se, passadas décadas do lançamento do seu filme, a situação atual das crianças nos bairros marginais das cidades como a de México, no presente filme, pode ser considerada satisfatória.
O que fica muito clara é a importância de integrar todas as crianças em todos os lugares do planeta, de universalizar a sua educação, de que todas vão e tenham uma escola, de que nos preocupemos com que o seu tempo de lazer seja educativo, de que haja escolas para pais e mães, e de que todas as meninas, em todas as sociedades, tenham um posto escolar e não fiquem sem saber ler e escrever. Para isto há que investir muito mais em educação do que se faz, e muito menos em armas.
Temas para refletir e elaborar:
Depois de ver o filme, utilizando a técnica de dinâmica de grupos do “cinema-fórum”, debater sobre os aspetos fílmicos do mesmo, o roteiro e a linguagem cinematográfica utilizada pelo realizador aragonês. Fazer o mesmo sobre a realidade trágica em que vivem as crianças que aparecem no filme e as possíveis causas da sua triste situação. Analisar a psicologia das diferentes personagens e os comportamentos que mostram, procurando as razões dos mesmos. Refletir também sobre o que a comunidade internacional teria que fazer para ajudar a recuperar as crianças dos bairros marginais de todas as cidades grandes do mundo, e não só dos denominados do “Terceiro Mundo”.
Procurando informação em livros especializados e também na internet, elaborar uma monografia sobre os bairros marginais das grandes cidades, tanto de países desenvolvidos como de não desenvolvidos. Poderia também organizar-se nos estabelecimentos de ensino uma amostra ao redor do tema, incluindo na mesma fotos, mapas, textos e desenhos dos alunos, poemas, canções, livros, revistas, retalhos de imprensa, murais coletivos, autocolantes, cartazes, selos de correios, etc. Tudo para sensibilizar sobre o importante que é ajudar as crianças marginadas. Poderia colaborar na mesma a ONG “Unicef”, que conta com boletins, documentos e materiais sobre o particular.
Elaborar pelos estudantes, com a ajuda dos docentes, um grande mural para expor em cada estabelecimento de ensino, sobre os principais problemas dos bairros marginais das nossas cidades, centrando-se especialmente nos sociais e educativos. Incluir no mesmo uma proposta alternativa de doze pontos para recuperar estes bairros e integrar as suas crianças. Consultar para elaborá-lo a Declaração dos Direitos das Crianças. O mural deveria incorporar fotos, desenhos, textos, frases e poemas.
(*)Académico da AGLP, Didata e Pedagogo Tagoreano.



