José Paz Rodrigues – O nosso ensino está muito necessitado de que deixe de ser rotineiro e aborrecido. As aulas têm que ser atrativas, primeiro para o mestre, única maneira de que depois também o sejam para os estudantes. As escolas e estabelecimentos de ensino têm que ser espaços em que todos se sintam motivados.
Lugares em que se fomente a curiosidade, a sede por aprender, o gosto pola leitura, o gozo por expressar-se, fazendo uso da diversidade de expressões que existem: verbal ou literária, plástica, musical, teatral ou dramática, mímica, numérica e icónica ou por meio da imagem. Desfrutando igualmente com a elaboração de todo o tipo de recursos, investigando sobre o meio circundante, participando em jogos tradicionais e em campanhas solidárias e fazendo passeios escolares, roteiros e excursões com intercâmbios entre centros.
Para isso necessitamos de mestres criativos, com desejos de inovar o seu ensino, que são conscientes que eles são a alma da escola, em palavras formosas de Cossio, e estão por cima de DCBs e outras normas curriculares. Necessitamos mestres que entusiasmem os rapazes, como o professor Keating da academia Welton, que se nos amostra nesse lindo filme que é “O Clube dos poetas mortos”. E necessitamos também pais que se envolvam positivamente na educação de seus filhos, que respeitem os seus gostos e capacidades e não decidam por eles. Que respeitem a sua autonomia e não os sobreprotejam. Numa palavra: que sejam democráticos (nem autoritários nem débeis).
Ficha Técnica do Filme
Título original: Dead Poets Society (O clube dos poetas mortos (pt), Sociedade dos poetas mortos (br) )
Diretor: Peter Weir (USA, 1989, a cores, 128 minutos). Óscar ao melhor guião original.
Atores: Robin Willians (John Keating), Robert Sean Leonard (Neil Perry), Ethan Hawke (Todd Anderson), Josh Charles (Knox Overstreet), Gale Hansen (Charlie Dalton), Dylan Kussman (Richard Cameron), Allelon Ruggiero (Steeven Meeks) e James Waterstonm (Gerard Pitts).
Música: Maurice Jarre.
Análise do Filme:
A confiança entre os elementos de uma equipa é um fator preponderante para o sucesso de qualquer empresa. Mas, confiar nas pessoas é cada vez mais difícil. Poder ter uma verdadeira confiança em alguém é um luxo cada vez mais raro. E por ser raro e valioso, é que vale a pena apostar por saber encontrar e criar muita confiança entre as pessoas que nos rodeiam. Não é fácil e basta abrir as páginas dos jornais para vermos tantos casos de deslealdades, fuga de informação, traições e desilusões… mas apesar disso, o valor da confiança mantém-se em alta.
O “Clube dos Poetas Mortos” é um filme que pode ser analisado de muitos pontos de vista: o da confiança é um deles. As aulas de um colégio interno vão começar. Os alunos acham a disciplina de literatura uma maçada. Mas, logo na primeira aula, o professor – novato no colégio – explica a matéria de um modo completamente diferente. Motiva os alunos. Obriga-os a falar, a intervir, a pensar e deixa-os correr riscos. Confia neles. Ao longo do filme, vamos conhecendo melhor os alunos. Um deles tem um conflito com os pais. Não há confiança entre eles. O pai nunca deixou “espaço e tempo” para o seu filho e este nunca teve coragem e oportunidade para explicar ao pai os seus pontos de vista.
No colégio, também há um paralelismo curioso, pois o professor novo não goza de grande confiança por parte do Diretor. Mal se falam. Os dias vão-se sucedendo. As aulas de Literatura decorrem a bom ritmo. A relação entre o professor e os alunos é excelente. A barreira professor / aluno vai sendo ultrapassada, mas alguns não conseguem deixar de pensar e de atuar segundo uma visão do tipo “superior/inferior ou chefe/subordinado”. O professor vai dando mostras cada vez maiores de que confia nos seus alunos. Mas essas provas não são por vezes compreendidas. Para não quebrar a confiança, o professor evita aprofundar algumas questões. O diálogo falha. Deixa correr riscos desnecessários. Incentiva mas sem a segurança necessária. Às vezes desconfia que algo poderá não estar correto… mas não fala diretamente com os alunos e quando o faz, um deles mente. Há desconfiança. O desastre tinha de acontecer e acontece com estrondo.
No final, perdem os alunos, o colégio e o professor. Há um relativo sucesso pois são apresentadas as linhas de rumo e algumas resultaram. Mas são evidentes as falhas de um sistema onde sem confiança, nada é possível. Não é só saber escolher as pessoas certas. Trata-se de saber construir uma equipa. A confiança não se impõe, é reconhecida. A confiança não se conquista, ganha-se…Por isso, a maioria dos alunos de Keating terminam por apoiá-lo ao ter que sair da escola.
Aspetos a observar:
– A inovação educativa como fator motivador e as estratégias didáticas criativas que põe este mestre em funcionamento nas suas aulas, dentro e fora da escola.
– Analisar os estímulos que utiliza o docente para criar confiança.
– A importância do ofício de pais e a sua responsabilidade educativa, quando esta não é, ou por defeito ou por excesso, a adequada.
– A maneira como Keating consegue desenvolver as capacidades literárias e artísticas dos seus alunos.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



