José Paz Rodrigues (*) – Embora não estivesse integrada no movimento europeu das Escolas Novas, por expresso desejo dos seus criadores, que desejavam ter plena liberdade e independência, considero a Instituição Livre do Ensino (em adiante ILE), como a mais completa escola nova de todas as que existiram, a primeira em ser criada já em 1876, e o mais importante movimento pedagógico que houve na Europa.
Junto com a escola de Odenwald na Alemanha, criada por Paul Geheeb em 1910, e a Santiniketon de Tagore em 1901 na Bengala da Índia, opino que estamos diante das três escolas novas mais interessantes. No seu dia escrevi um artigo comparando as três, polas suas grandes semelhanças, por cumprir com todos os princípios pedagógico-didáticos das escolas novas, elaborados no congresso de Calais de 1919 e, por tanto, por serem as mais completas de todas. O meu artigo foi publicado em castelhano polo BILE e, na Índia, em inglês e bengali, em revistas tagoreanas.
Com a colaboração de vários companheiros seus da universidade, Francisco Giner de los Ríos, junto com o seu discípulo Cossío, que continuou o seu labor depois, um dos nossos mais grandes pedagogos, funda no ano de 1876 antes citado a primeira escola nova da história. Que tanta influência ia ter na educação e cultura do nosso país, ao longo de várias décadas, e sendo a base do ensino promovido durante a Segunda República, sem dúvida, o período mais importante e mais digno da história do nosso ensino e da nossa escola.
Por tudo isso, eu não podia deixar de incluir num artigo da série sobre as aulas no cinema, a escola de Giner e de Cossío, escola modelar, como a de Freinet, cujos métodos educativos, estratégias didáticas e organizativas, poderiam, se os nossos docentes quisessem, ser levados às aulas das escolas primárias e secundárias, e mesmo universitárias, da Galiza. Começando por eliminar os antipedagógicos exames memorísticos e os livros únicos de texto, organizando as bibliotecas de aula, como alternativa inovadora mais pedagógica.
Ficha Técnica dos Filmes-Documentários:
1.- A escola esquecida (La escuela olvidada)
Diretora e guionista: Sonia Tercero Ramiro (Espanha-México, 2010, 56 min., a cores)
Produtoras: TVE, Time Zone e THCI.
Argumento: O documentário rende tributo ao Instituto-Escola da ILE, a Giner, a Cossío e a Castillejo.
2.- Francisco Giner de los Ríos e a ILE
Diretores: Enrique Lafuente Niño e Helio Carpintero Capell (Espanha, 1996, 36 min, a cores).
Produtora: UNED
Argumento: Análise da personalidade e escritos de Giner (1839-1915)
Nota importante: No seu dia, TVE passou um documentário, com debate incluído, sobre a ILE. Este documentário, do qual tenho cópia na minha biblioteca, guarda-se na filmoteca de RTVE.
A ILE, um modelo estupendo de Pedagogia Prática:
De forma sintética, pois num pequeno artigo não poderíamos estender-nos muito sobre a metodologia pedagógica e organização escolar tão extraordinárias da ILE, resenho a seguir aqueles princípios didáticos e organizativos mais interessantes e inovadores, que podem pôr-se em prática nas nossas aulas:
– Formação de pessoas íntegras, com ideais e para a regeneração social.
– Educação integral, tocando todos os aspetos (intelectuais, físicos, éticos, estéticos e sociais).
– Importância fundamental da criança e da infância, com respeito total pola pessoa das crianças.
– Coeducação: Princípio essencial. Nenos e nenas devem formar-se em completa igualdade.
– Importância da educação estética e ética, organizando atividades práticas que as desenvolvam.
– Importância da intuição: passeios e excursões, o melhor livro é a natureza, estudo das ciências no meio.
– Desenvolvimento da autonomia dos rapazes, fomentando a liberdade e a participação, os direitos e deveres.
– Educação para a paz, escola com autêntica comunidade de mestres e discípulos, educar em valores.
– Educação social, formar pessoas com integridade e dignidade, solidárias, abertura total às famílias, fomentando a sua colaboração e participação, realizar trabalhos em grupo e incidir na envolvente social.
– Eliminação dos exames memorísticos e dos livros de texto. Substituindo estes pola biblioteca de aula, com livros, atlas e monografias variadas.
– Organização de numerosas atividades circum-escolares: prática de todo o tipo de jogos e desportos, incluídos os jogos populares e tradicionais, audições musicais e concertos, exposições e amostras, palestras, tertúlias e conferências, sessões de cinema, conta-contos, teatro lido e representado, fantoches e tiruleques, atividades artísticas muito variadas, desenho, manualidades, tear, cestaria, recortáveis, origâmis, artesanato, modelagem em barro e outros materiais, carpintaria, metal, gravuras.
– Realização de colónias de verão, na praia ou na montanha.
– Criação de uma Residência de Estudantes, com muitas atividades artísticas e culturais, em que eram acolhidos os antigos alunos e alunas da ILE, que estavam a estudar na universidade.
– Organização de viagens de estudos ao estrangeiro, para estudar in situ a geografia e cultura dos diferentes países e praticar a língua, fazendo imersão linguística.
– Na publicação do BILE (Boletim da ILE), recolhiam-se muitos artigos educativos de grandes pedagogos europeus e, como é natural, também dos institucionistas.
Temas para Reflectir e Trabalhar:
– Consultar na Internet e na muita bibliografia que sobre a ILE existe, as ideias educativas de Giner e de Cossío, a sua vida, a sua obra e os seus escritos. Debater, em bate-papo ou tertúlia, sobre as estratégias educativas do movimento pedagógico inovador da ILE.
– Levar à prática nas nossas aulas e escolas as atividades que organizavam os institucionistas. Muitas delas são fáceis de organizar, se houver a vontade pedagógica e o entusiasmo precisos, que nunca devem faltar.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



