A galeguidade e os seus cúmios



Pico Sacro

Pico Sacro

No discurso mais célebre da história do nacionalismo, um dos nossos cúmios sobranceiros recria-se como emblema do país: ‘hoje as campás de Compostela anunciam umha festa étnica, filha, talvez, dum culto panteísta, anterior ao cristianismo, que tem por altar a terra nai, alçada simbolicamente no Pico Sagro.’ É o Alva de Glória de Castelao, umha evocaçom emocionada desde o exílio das nossas arelas colectivas. Estas formulárom-se, desde o primeiro galeguismo, através dumha exaltaçom omnipresente da paisagem. Particularmente dos montes, que sintetizam com umha força inigualável a pervivência da Terra contra toda adversidade, a ligaçom com memórias remotas, e o culto moderno da natureza nos tempos da desfeita industrial. Em pleno século XXI, a Galiza mais consciente segue a bater-se por preservar os cúmios, quando os inimigos do país pretendem apagá-los da memória e sacrificá-los à maquinária do lucro.

Em 1924, com o nacionalismo recentemente esfarelado pola ditadura de Primo de Rivera, um fato de militantes peregrinam ao Pico Sagro; entre eles Castelao que, provavelmente com aquela imagem gravada na retina, redigirá em 1948 o Alva de Glória. Otero Abelheira e Manuel Garcia Barros acompanham o rianjeiro; dous anos mais tarde, como celebraçom do proibido Dia da Pátria, incorporam-se Otero Pedrayo, Vicente Risco, Cuevilhas ou Prado ‘Lameiro’, que se encontram no cúmio com a juventude do Seminário de Estudos Galegos. Os próprios homens de Nós sabiam que a história fundia a lenda jacobea com mitos pre-romanos, como também conheciam que em plena Idade Média ainda existia um culto ao monte com verniz cristao: ‘Pico Sagro, Pico Sagro /que te consagrou o bendito Santiago /livra-me deste fogo airado’, pregavam os doentes polo ‘lume de Santo Antom’ (ergotismo). A tradiçom remota (o dragom na cova) e a religiom católica (os discípulos do Apóstolo), a história política do país (o esplendor compostelano) e as pervivências etnográficas (a adoraçom popular do monte), eis a soma de elementos que alimentavam a moderna mitologia galeguista.

Em 1924, com o nacionalismo recentemente esfarelado pola ditadura de Primo de Rivera, um fato de militantes peregrinam ao Pico Sagro; entre eles Castelao que, provavelmente com aquela imagem gravada na retina, redigirá em 1948 o Alva de Glória. Otero Abelheira e Manuel Garcia Barros acompanham o rianjeiro; dous anos mais tarde, como celebraçom do proibido Dia da Pátria, incorporam-se Otero Pedrayo, Vicente Risco, Cuevilhas ou Prado ‘Lameiro’, que se encontram no cúmio com a juventude do Seminário de Estudos Galegos.

Desde meados desta década, o associativismo de base vindica aquela peregrinaçom originária: em vésperas do dia nacional, as associaçons Vagalume e O Galo convocam a cidadania consciente a se encontrar no cúmio e alô, baixo a bandeira com o escudo da sereia, relê-se a arenga de Castelao e fam-se votos pola conservaçom dos espaços senlheiros do país.

Do Pico Sagro ao Monte Seixo

O montanhismo arredista actual já lembra num dos seus documentos (‘Nom consumimos paisagem’, Agrupaçom de Montanha Augas Limpas) que ‘o tratamento da paisagem como referente identitário reproduziu-se em todas as naçons emergentes. Autores de muito diversas latitudes, imersos num processo político-cultural de construçom nacional, tenhem feito do tema da paisagem um factor de criaçom de consciência.’ Por isso som tam atinadas aquelas palavras de Vicente Risco que, quando era alguém, sulinhou: ‘o facto de alguns galegos percorrerem a sua terra a pé e andando é merecente de ter um posto entre os feitos denotativos da nossa renascência.’

Monte Seixo, Portalém.

Monte Seixo, Portalém.

Portanto, a vindicaçom do Pico Sagro nom é um exemplo isolado nem responde a umha querência passageira. Relativamente perto de alô, na área central do país, confluem elementos que nos resultam familiares: o ecoar de cultos antiquíssimos, a preocupaçom dum grande galeguista, e o renovado esforço associativo por manter os nomes, os saberes e os espaços dentro dumha visom comunitária e nacional. Falamos agora do Monte do Seixo, o cúmio de Cerdedo que suscitara a atençom do Padre Sarmento. Em 1745, o frade bieito, pescudando as suas origens familiares e continuando a sua meditaçom incansável sobre ‘o Reino’ (obviamente, o Antigo Reino da Galiza), consigna as características do monte. As suas reflexons podem ler-se na obra ‘Viaje a Galicia’; desde aquela, a dimensom simbólica do Seixo sobrevive no anonimato popular e iletrado da vizinhança, que através dos penedos de Portalém mantém ritual de ligaçom com os devanceiros, ou que recria, numha trama muito mesta de relatos ligados a lugares, os motivos clássicos do imaginário galaico: antas e mouras, pitas que guardam tesouros, serpes bichocas que ajejam no fundo das poças. O inverno demográfico sacode com especial dureza Tabeirós-Terra de Montes, numha sorte de genocídio cultural incruento mas devastador; o fim de todo um mundo, junto com a gestom caciquil das suas ruínas, poderia supor também o esboroamento da memória do Seixo. A imposiçom bárbara dum parque eólico no seu território desde 2001 semelhava a estocada de morte definitiva. E porém, paradoxalmente, numha das áreas mais aferrolhadas pola direita espanhola de todo o território, um associativismo activo e afouto pujo um sério contrapeso ao esquecimento. Colectivos como Verbo Xido ou Capitám Gosende decidírom-se (entre outros labores) à vindicaçom do Monte do Seixo; o investigador Calros Solla, directamente vinculado a estas e outras entidades, empenhou-se por duas décadas a fio em sistematizar a sabedoria popular por volta do Cando, e nomeadamente dumha montanha, o próprio Seixo, considerada rigorosamente como um dos prováveis santuários célticos de maior importáncia do nosso contorno. Como o mesmo Solla explicou, pode-se falar dum verdadeiro ‘fenómeno cultural do Monte do Seixo-Portalém’, que desde inícios deste século foi visitado por milhares de pessoas, animadas pola leitura dos trabalhos de pesquisa e os roteiros do movimento associativo; iniciativas, ambas as duas, alicerçadas no trabalho voluntário e desligadas da trama clientelar do PP na zona. Com satisfaçom, Solla manifestou que o Monte do Seixo deixou de ser o grande desconhecido para virar ‘um dos destinos da galeguidade.’

E obviamente, o Pindo

monte Pindo

monte Pindo

Este roteiro apressado por alguns dos nossos cúmios tinha que dirigir-se, forçosamente, ao Pindo. Este maciço pétreo inconfundível, elevado 627 metros sobre o nível do mar, entre as rias de Corcuviom e Muros-Noia, é umha das presenças recorrentes nas fontes históricas galegas. Com o nome de ‘Monte Sacro’ aparece citado no tombo de Cela Nova de 934, e rebaptizado como Pedregal ou Alfoz de Muros, associa-se a capítulos importantes do nosso passado: as fortalezas altomedievais, os ataques normandos, a Compostela de Gelmires, a casa de Trava, ou a Revolta Irmandinha. Tinha que chamar a atençom, mais umha vez, do Padre Sarmento, que o referencia em 1745; o nosso primeiro geógrafo científico, Domingo Fontám, fai-no constar na sua carta geométrica de 1837. E é de novo um clássico quem o pom em destaque entre tantos centos de cúmios que poderiam virar emblemas colectivos: Otero Pedrayo, que na década de 50 do século passado o nomea como um dos ‘olimpos dos celtas’.

Este maciço pétreo inconfundível, elevado 627 metros sobre o nível do mar, entre as rias de Corcuviom e Muros-Noia, é umha das presenças recorrentes nas fontes históricas galegas. Com o nome de ‘Monte Sacro’ aparece citado no tombo de Cela Nova de 934, e rebaptizado como Pedregal ou Alfoz de Muros, associa-se a capítulos importantes do nosso passado: as fortalezas altomedievais, os ataques normandos, a Compostela de Gelmires, a casa de Trava, ou a Revolta Irmandinha.

De ficar apenas no interesse erudito, pouco poderia dizer à populaçom o nome do Pindo. Mais umha vez, ao movimento social corresponde a honra da sua defesa massiva. Vam já quase dez anos da constituiçom do colectivo Monte Pindo Parque Natural, com a pretensom central da declaraçom dumha zona de especial protecçom para todo o seu contorno. O caminho tampouco está a ser doado nesta ocasiom: umha década de pressom popular está a ser também umha década de desprezo oficial. O Pindo ardeu em 2013 por negligência do poder que, despótico como sempre, impediu as actuaçons repovoadoras do voluntariado e permitiu a mingua até o risco de extinçom de espécies de particular valor no monte (como o carvalho anao ou o lírio de montanha). Entre os múltiplos factores que poderiam explicar a nulidade governamental acha-se a pior das cobiças: os tesouros naturais desta comarca estám sobre-explorados; nom longe do Pindo desce o rio Jalhas, gravemente saqueado por infraestruturas eléctricas (sendo o número 17 em longitude, é o primeiro curso fluvial da Galiza em ‘aproveitamentos’ eléctricos). A lógica colonial pujo em risco a Devesa de Anlhares, estragada por minicentrais, e ameaçou também a fervença do Ézaro. Umha protecçom rigorosa do Pindo em forma de parque natural constringiria gravemente os negócios dos capitalistas aliados do PP.

O poder da Terra

Universalmente, em todas as cosmogonias conhecidas até o momento, as montanhas erguêrom-se como espaço privilegiado de intersecçom do aquém e o além, dos vivos e dos mortos, do presente e da memória, do particular e o universal; a Galiza nom foi excepçom, e, como parte da civilizaçom céltica (quiçá como área mais montanhosa de todo o celtismo mais occidental) possivelmente acolheu umha rede de santuários e cultos nas alturas. Na sua crónica sobre a conquista das Gálias, o próprio César observa como os celtas chegam a considerar deidades certas montanhas especialmente sinaladas.

Dous mil anos depois, mesmo na Europa motorizada, céptica, descreída e ignorante do mundo que rebole fora do betom e dos ecrás, as montanhas mantenhem sem embargo certo poder de atracçom e concitam o respeito. Falamos de três montes, mas seguramente parecida paixom poderiam transmitir-nos outras vizinhanças do Aloia ou do Teleno, do Gesteiras ou do Careom, da Cova da Serpe ou do Candám. O patriotismo galego poderia-se medir, se seguirmos os clássicos de Nós, com o fervor com o que conhecemos e percorremos cada recanto da Terra. Enquanto exista esta querência, ainda difusa e nom estritamente política, pervivirá certa reserva de energia para a luita.

[Este artigo foi publicado originariamente no galizalivre.com]

Antom Santos

Antom Santos

Antom Santos (Compostela, 1979) Formado como historiador em Contemporánea na USC. Militante independentista, colabora com vários meios de comunicaçom galegos.
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  • Luís Teixeira Neves

    Pois, vocês foram conquistados pelo César… nós fomos pelo Bruto. Às tantas os nossos desentendimentos advêm daí… Mas o César também andou pela Gália e pela Bretanha… De certeza que ele disse isso quando esteve na Galiza?! Tenha-o dito ou não… por acaso os gregos que também cultuavam as alturas, eram celtas? E os samaritanos? Certeza absoluta os dolmens não foram construídos pelos celtas. Nem por quaisquer indo-europeus.

  • Joám Lopes Facal

    Marco, pedra chantada, campa funérea, cruzeiro conmemorativo: sinal ou memoria sagrada: litolatria.
    Monte e outeiro , Olimpo dos imortais: orolatria
    Subconsciente colectivo, totem ancestral

  • https://pglingua.org/index.php abanhos

    Muito interessante