José Paz Rodrigues (*) – Antes da Lei Geral de Educação do ano 1970, a partir da qual foram criadas as concentrações escolares, existiam na Galiza infinidade de escolas unitárias. Atendidas por um só docente, tinham estudantes de todas as idades e de todos os anos. Os mestres e mestras utilizavam múltiplas estratégias didáticas para atender ao mesmo tempo um alunado tão variado.
Foram muitos os que desenvolveram um labor exemplar nas escolas unitárias do meio rural em etapas duras e com muita falta de meios. Aí está o labor esplêndido dos mestres do plano profissional republicano, alguns felizmente ainda vivos. Agora, com a preocupante baixa de natalidade, especialmente nas províncias de Ourense e Lugo, voltamos outra vez às unitárias e, no melhor dos casos, aos denominados CRA (Centros Rurais Agrupados), alguns dos quais funcionam muito bem, podendo ser a alternativa de escolarização das crianças no rural. Como o é em muitas regiões agrárias isoladas da França. Onde continuam a funcionar escolas unitárias similares. Como a que se apresenta no filme “Ser e Ter”, realizado numa escola real, com crianças reais e o mestre López real, filho dum emigrante andaluz.
Um filme formoso que oferece muitos temas educativo-didáticos, muitas propostas pedagógicas e infinidade de matizes escolares, para ser analisado, depois de olhá-lo, polos que nos dedicamos com amor ao ensino e à formação dos rapazes, incluídos também os pais e as mães.
Ficha Técnica do Filme:
Título original: Être et avoir (Ser e Ter)
Diretor: Nicolás Philibert (França, ano 2002, a cores, 104 minutos)
Atores: o mestre Georges López e as crianças Laura, Guillaume, Julien, Jonathan, Nathalie, Olivier, Alizé, Johann, Jessie, Jojo, Marie, Létitia e Axel.
Argumento: Inspirado no fenómeno francês das “escolas de-uma-turma-só” ou escolas unitárias, o filme amostra a vida de uma pequena escola durante um ano letivo e aborda, de maneira subtil e calorosa, a educação infantil e primária no interior da região agrícola da Landa de França. A turma tem 12 crianças, com idades de 4 a 10 anos, que compartilham a sala de aula e aprendem juntas as mais variadas matérias. Tudo com um professor extremamente dedicado e paciente, que conduz as crianças à adolescência, respondendo às suas argumentações e ouvindo os seus problemas.
Análise do Filme:
O olhar limpo das crianças que intervêm neste filme documental é equivalente à que oferece o diretor do mesmo a respeito das escolas rurais, tanto francesas, como perfeitamente podiam ser as galegas das nossas regiões agrárias e de montanha. Sem sensacionalismos, o filme adentra-se numa destas escolas, comprimindo todo um ano escolar em pouco mais de hora e meia. O seu suporte são três elementos que confluem na educação dos rapazes: pais, alunos e mestres. A partir daí, delega-se no espetador a sua valoração a respeito do papel que devem desempenhar as administrações educativas, que aqui fica mal.
O mestre, comprometido com os seus alunos, educa-os e conhece-os, e este labor complementa-se com os pais, os quais, apesar das suas evidentes limitações, comovem com o seu envolvimento no processo de ensino-aprendizagem. Ambos oferecem uma lição magistral ao, por vezes, impessoal labor educativa de estabelecimentos escolares urbanos. Ser e Ter é um filme estimulante, que não deixa indiferente ninguém, que faz refletir, ao mesmo tempo que permite reconhecer o subvalorizado e, contudo, determinante trabalho que muitos mestres desenvolvem nas suas aulas e escolas. Infelizmente para uma maioria de pessoas, esse reconhecimento tão só se limita ao tempo que dura a projeção deste belo filme. Que nos mostra como são importantes na sociedade os bons mestres.
Aspetos básicos a observar no filme:
– Todos os estudantes são diferentes em ritmo de aprendizagem, maturidade, interesses, etc., polo que um bom mestre deve respeitar a sua individualidade.
– O mestre do filme destaca pola sua enorme paciência e pola serenidade com que desenvolve o seu ensino. O bom mestre, antes de tomar decisões sobre um estudante, tem que contar até cem.
– É muito importante inovar o currículo, introduzindo conteúdos do ambiente natural e social: fazer saídas escolares, relacionar-se com as famílias, introduzir novos conteúdos e não limitar-se aos programas oficiais. No filme mesmo se vê como o mestre ensina as crianças a cozinhar e quando vem o bom tempo organiza a aula ao ar livre no jardim da escola.
– Um bom mestre, além de fomentar nos seus alunos a curiosidade, tem que sabê-los escuitar, ajudá-los, orientá-los, estimulá-los, compreender os seus problemas pessoais e fomentar o entusiasmo e a segurança. Necessitamos de mestres vocacionais como o do filme e mestres e mestras que gostem do seu ofício.
– A colaboração e envolvimento das famílias na educação é muito importante. Embora o técnico que sabe é o mestre. Os alunos mais velhos também podem e devem colaborar no ensino dos mais novos.
– O mestre também deve ser um bom guia e orientador dos escolares e tratá-los com alegria, sentimento e afeto. Tão importantes são num docente os valores humanos e o amor pola vida, como os conhecimentos técnico-didáticos.
(*) Didata e pedagogo tagoreano. Autor, igualmente, da coluna de opinião Dizer e Fazer.



