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A arca e o limite. Folha solta duma História da migração

“Qual é o sentido
Deste pulo perpétuo
Que a onda nos transmite?”
(Xohana Torres, Estações ao mar, Vigo, 1992).

 

Há algo de transcendente na história das migrações humanas, algo que nos iguala às andorinhas, algo que nos iguala à respiração e ao movimento das ondas. Ninguém sabe que máquina move a história, mas explicar os movimentos dos homens por causas unicamente materiais parece-me como descrever o homem pelo seu funcionamento orgânico. Não é mentira, mas não é o todo. Algo sei: não é minha a história que converteu a sagrada ou curiosa vivência da viagem na procura do domínio da matéria e a exploração dos meus semelhantes.

“Estar e não estar na terra”. Com esta frase simples descrevia Daniel Castelão essa vivência pendular que acompanha aos migrantes. Ele viveu a sua infância na Argentina, país que o acolheu como presidente do Conselho da Galiza no exílio já na década de quarenta do passado século, após o fim da guerra civil na Espanha. Que visão teríamos da condição humana se juntássemos numa nação única os pensamentos dos emigrados, dos exilados, dos desterrados? Não se fizeram para nós as histórias nacionais e as suas narrativas, nem os cânones literários, nem a história do pensamento, nem as leis da democracia ateniense para as que, ainda, somos estrangeiros.

Há uma história que nos liga à origem. Outra puxa-nos na direção do sonho. Com cada migrante vai uma vida única e uma multidão de almas, longa herança de desejos, que com ele transmigram. Eu ando pelo mundo à volta da terra da minha mãe, sempre à volta da minha ria e as suas correntes, a ria que viu nascer a minha família, a ria na que tenho os sonhos mais claros, a que espelha a cidade nascida da irmandade dos homens do mar, os que acenderam em tempo distante uma luz no meio do Atlântico. Podeis não acreditar, mas a luz do farol da minha cidade alumia as minhas noites, a maresia da minha praia inicial surpreende-me em qualquer momento no meio da Avenida da Liberdade de Lisboa. E à minha mesa sentam-se cada noite as almas protetoras dos meus antepassados. Creio que não há paz maior que nascer e morrer como uma árvore. Por alguma razão o desterro é uma condenação.

Mais além da saudade alguma aventura me espera neste estranhamento, algo que me faz peregrina sagrada desta humanidade em trânsito. Algo de transcendente alenta nesta abertura, a mais aventureira viagem que posso imaginar, descobrir que não existem os outros, descobrir que na incontável variedade das formas de vida há um alento único, que toda a terra é a nossa mãe, que a herança que dela recebemos não tem limites, que a carência é um invento dos que nos roubam o pão e a liberdade, que somos, realmente, imagem do oceano único, que somos todos da linhagem única do mar. Na sua “Ode ao único mar”, Pablo Neruda sentia que chegavam a ele as ondas das praias do seu muito amado Chile natal enquanto se banhava nos mares da China. Porque o mar, esse mar que não é senão sonho, é verdadeiramente único. Como a humanidade. O “mais além”, divisa dos peregrinos a Compostela, ainda queima o coração, e tem, para mim mais claramente que nunca, um significado de amor ao próximo, a mais difícil barreira de ultrapassar neste tempo alheado do humano concreto, tempo de individualismo e solidão. “Sempre deixar de ser, para ser noutro” como reza o verso de Valentim Paz-Andrade em poema dedicado à história migrante dos galegos. Essa é a minha vocação profunda de viajante.

A esperança é semelhante à arte de remar. Barqueiros somos duma nau de muitos nomes. A humanidade toda naufraga nestes tempos no Mediterrâneo, levantando fronteiras onde só há ondas, fazendo da burocracia cenários de crimes. Calcula-se que dezassete mil pessoas terão morrido desde o ano 2000 na travessia do Mediterrâneo. Nunca saberemos a conta certa. Há números que nunca serão exatos. Não é essa a minha Europa, a minha casa, o meu sonho, um Ocidente que se identifica identificando e sacrificando os outros, com sociedades adormecidas que não ouvem o clamor de tantos mortos, com técnicos com palavras-máquinas que dizem ser os nossos representantes, com a morte diária de tanto irmão a quem chamamos irregular. A exata medida da universalidade é o amor a cada vida individual, sempre um caminho entre o corpo e a estrela. Algo de transcendente está a bater às portas da nossa consciência. Acordemos e oiçamos.

Texto originalmente publicado na Antologia universal lusófona. Rio dos bons sinais, Lisboa, Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, 2015.

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