RODÍZIO DE LÍNGUA

10 filmes que durárom 21 anos: A ditadura militar no cinema brasileiro



Por Diego Bernal

Em primeiro de abril vam os burros aonde nom devem ir, afirma o ditado popular galego.

Porém, no Brasil, em 1964, os burros figérom ouvidos moucos da sabedoria popular e fôrom de maos dadas do imperialismo contra as políticas progressistas do presidente João Golart, conhecido pola alcunha de Jango.

Contra o que alguns mitómanos ranzinzas predicam, Jango, rico terratenente, nom era comunista. Ele apenas sonhava com umha modernizaçom da economia brasileira e umha política nacionalista independente das imposiçons dos EUA.

O novo governo de marechais e generais rabugentos embrulhou em papel de presente o poder da recém construída Brasília e enviou-no para Washington. O engajamento dos norte-americanos era tal que fôrom eles os que elegêrom o novo presidente do Brasil, Castelo Branco, frente aos militares cujo candidato era Costa e Silva. Cinco “patrióticos” militares presidírom o Brasil agindo de marionetes estadunidenses até 1985, ano em que se inicia, devagarinho, a abertura do regime.

Completam-se agora 50 anos deste vergonhoso episódio da história brasileira. Do outro lado do Atlántico, a Galiza e Portugal levavam anos em xeque sofrendo regimes de semelhante carimbo. Morte, tortura e exílio fôrom a nota pedal dessas lúgubres ditaduras.

Contra o esquecimento corriqueiramente predicado polos agentes que tirárom proveito desta longas noites de pedra sofridas polos nossos povos é preciso reivindicar a memória.

No caso concreto do Brasil, o cinema é umha ferramenta muito útil para conhecer de perto o regime sangüinário iniciado, ironicamente, no Dia dos Bobos.

Talvez o filme mais conhecido sobre a ditadura seja O dia que durou 21 anos. Documentário pedagógico que dá todas as chaves sobre a planificaçom do golpe de Estado por parte da Casa Branca batizado polos ianques como “Operaçom Brother Sam”.

A heroica luita armada que seguiu ao golpe militar ganhou várias longa-metragens. Cabra-cega, com banda sonora de Chico Buarque, mostra o desassossego da vida de um militante clandestino. Nunca Fomos tão felizes, rodado no último ano do governo militar, descreve a vida de um adolescente que sofre as conseqüências de ser filho de um guerrilheiro. Com um argumento parecido, O ano em que meus pais saíram de férias, é um magnífico filme que recria a dura vida de um menino cujos pais som perseguidos pola ditadura. O que é isso companheiro? traz à tona um dos episódios mais badalados da luita contra a ditadura, o rapto do embaixador norte-americano no Brasil polo Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) em parceria com a Aliança Libertadora Nacional (ALN). Zuzu Angel, também baseado em factos reais, reconta a história de umha mae cujo filho foi seqüestrado, torturado e assassinado polos fardados. Um outro formoso e triste relato verídico sobre estes anos de chumbo é Batismo de sangue. Baseado nas memórias homónimas do intelectual frei Betto, esta obra prima relata a resistência à ditadura num convento de frades dominicanos que ajudam logística e politicamente o grupo guerrilheiro de Marighella e resgata a figura de frei Tito, umha das múltiplas vítimas da barbárie militar. Para além de Marighella, autor do Manual do guerrilheiro urbano, obra que conta com umha ediçom galega da Abrente editora, Carlos Lamarca é o outro grande nome da guerrilha brasileira. Felizmente, tanto a luita de Marighella como o exemplo do capitám Lamarca fôrom levados ao cinema. Um dos trabalhos cinematográficos mais recentes sobre a ditadura é Cara ou coroa (2012). O filme ocupa-se dos riscos que corria a juventude que colaborava com a resistência.

Assistir estes filmes ajuda a conhecer o passado do Brasil. Viver sem conhecer o passado é andar no escuro. E só no escuro é que o povo pode ser enganado o 1º de Abril.

Diego Bernal

Diego Bernal

Diego Bernal nasceu em Lugo em 1982. Licenciado em filologia galega pola Universidade da Corunha iniciou a sua carreira dando aulas de galego na EOI Jesus Maestro de Madrid, foi leitor da Junta da Galiza na Universidade do Estado do Rio de Janeiro, professor de espanhol no ISEG da Universidade de Lisboa e professor de português nas EOI de Plasencia e de Montijo, na Estremadura. Atualmente mora no Brasil onde trabalha como professor na Universidade Federal de Viçosa.
Diego Bernal


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