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Xurxo Souto: “Quando comecei a falar galego senti que era eu, que estava no meu lugar”

“Se na casa a língua é o galego e a maior parte da população à nossa volta fala galego, porque optamos por outra língua e não pola mais natural?”. Esta pergunta que o músico e escritor Xurxo Souto fezo a si próprio lá por primeiro de BUP foi o germe de uma conversão linguística que o levou a atingir a “plena realização pessoal”. Para ele, o neofalantismo significou um “processo de restituição lógica, alcançar a absoluta normalidade”. Falamos com ele sobre essa tomada de consciência, os anos do bravu e a cena musical galega atual.

Em meninho, que língua se falava na tua casa? Qual falavam contigo?

Eu sou-che da Corunha. Há 40 anos, quando rapaz, estávamos num contexto totalmente galego-falante, mas, em troca, connosco, meninhos e moços, falavam em castelhano. Era algo considerado normal numa cidade, porque o castelhano era a língua da vida pública, das relações sociais, do ensino. Era a língua de uso social. Mas é importante dizer que esse uso social não era neutro. Surgia no contexto duma determinada situação política. Vínhamos da ditadura! Falarmos castelhano era na realidade anómalo, não-normal. Mas disto decatas-te quando tomas consciência.

E quando isso aconteceu? Quando questionaste a tua realidade linguística?

Lembro que em primeiro de BUP apareceu um professor de galego, Carlos Paulo Martínez Pereiro, que nos explicou a situação da língua. Ficamos todos fascinados! Na sala de aulas, 3 dos 40 alunos, eu, outro rapaz e uma rapariga, decidimos começar a falar sempre em galego. A língua prestigiada no ensino possibilitou o passo definitivo. Estudávamos galego de acordo com padrões de excelência. Então percebemos a anormalidade da situação que estávamos a viver. Se na casa a língua era o galego, e a maior parte da população à nossa volta falava galego, porque optávamos por outra língua e não pola mais natural? O castelhano era uma imposição decorrente de um determinado contexto político. Começamos a falar galego e assim continuamos desde então!

O contexto era amável para empreenderes essa mudança de língua?

Era um momento mui propício para fazer essa reflexão. Pola primeira vez havia professorado de galego no liceu e isso mexeu connosco. Morrera Franco, e nessa democracia que estava a começar, com todas as nuances possíveis, toda a gente refletiu acerca da sua própria educação e avaliou que o galego estava a ser marginalizado. Toda a gente até da direita, da Aliança Popular. Havia a noção de que o normal, com esforço coletivo, era que o galego se tornasse uma língua de uso social pleno. Havia vocação de transformação. E devo dizer que a transição, neste contexto positivo, foi mui singela. Foi um momento mui lindo, mui fermoso. A ninguém estranhava e tornou-se algo totalmente natural. Na minha casa também existia certa tradição galeguista, o meu avô colecionava daquela a enciclopédia galega e gostava muito da História. E meu pai também fazia muitas leituras galegas.

E que significou para ti falares galego depois de utilizares o castelhano durante toda a tua infância?

Para mim significou uma normalidade absoluta. Dar o passo para o galego foi um processo de restituição lógico, virei dono do mundo, dum mundo que tinha que partilhar. Então percebi quem eu era, e percebi que a minha língua não era o castelhano. O castelhano era uma ficção que encenavam meus pais para mim, e logo após a encenação voltavam ao galego para falarem entre si. Foi uma autêntica revolução pessoal a que vivi. Abriu-me todas as portas. No momento em que comecei a falar galego senti que era eu, que estava realizado, que estava no meu lugar, que deixava de ser espetador da realidade. Falar galego tornou-me o protagonista da minha vida. Lembro outro momento simbólico: quando fui ao Registo Civil e galeguizei o meu nome. Uma conquista da realidade!

Dar o passo para o galego foi um processo de restituição lógico, virei dono do mundo, dum mundo que tinha que partilhar. Então percebi quem eu era, e percebi que a minha língua não era o castelhano. O castelhano era uma ficção que encenavam meus pais para mim, e logo após a encenação voltavam ao galego para falarem entre si. Foi uma autêntica revolução pessoal a que vivi. Abriu-me todas as portas.

Após um tempo sombrio em que teimosamente tínhamos sido colocados na periferia, tornamo-nos, eu e o meu coletivo, os meus amigos, no centro do mundo. Aí começou o nosso ativismo cultural, fizemos daquela uma banda folk… Essa eclosão individual era ao mesmo tempo coletiva na cidade: a Corunha estava a ferver em cultura galega. Tudo era criatividade. Logo aconteceu outro feito político, o Paco Vázquez ganhou a presidência da câmara municipal e criou um discurso duríssimo: a Corunha era uma cidade desligada da Galiza e apenas falava castelhano. De certo modo, quebrou-se a espiral de criatividade. E, pior de tudo, a visão do Paco Vázquez alastrou de maneira geral. Muita gente pensa que na Corunha ninguém fala galego, mas é a cidade com mais falantes em números absolutos! Eu sempre faço uma brincadeira: ninguém fala galego porque assim que chegades mudades para o castelhano!

Claro! E se ninguém falava galego, como puderom então nascer os Diplomáticos de Monte Alto…

Estávamos a contribuir modestamente para quebrar esse lugar-comum. Também o cliché interesseiro da fronteira absoluta entre o rural e o urbano. Na cidade todos vêm da aldeia, mas, em vez de manter esse elo direto, procurava-se quebrá-lo e transmitir a imagem de que o galego não era falado na Corunha, com o intuito de apoiar as elites locais.

Nalguma outra conversa tens dito que através da música conheceste um país que não che explicaram na escola. Suponho que isso reafirmou todo o que vimos falando, não sim?

Deixamos de ser espetadores duma realidade que nos condenava a sermos periferia dum sistema ideológico, político e cultural, e viramos o centro do nosso mundo, para, a partir daí, dialogar com todos os povos. Como dizia Luís Seoane: “queremos fazer feliz o mundo com a riqueza da nossa diversidade”. Nós cruzávamos a Ponte da Passagem da Corunha e começávamos a conhecer um país maravilhoso, diverso, que não aparecia nos media que deviam artelhá-lo. Éramos um grupo com um discurso próprio. Daquela havia gurus que diziam que o galego apenas servia para o folk ou para a música tradicional, não para o rock and roll, mas Os Ressentidos chegarom e racharom com tudo isto. E imediatamente depois chegou outra geração: os companheiros do bravu.

Para mim, felicidade é levar a tua cultura fora do país para partilhá-la. Somos povo de artistas, estamos a produzir constantemente novos projetos cada vez mais variados. E quais são os que verdadeiramente ultrapassam as fronteiras? Os que são feitos em galego, e sobretudo os feitos por mulheres. Os mongóis ficariam com a boca aberta se deparassem com a Mercedes Peón, porque oferece um elemento cultural absolutamente diferenciado. Face à força do capitalismo, o poder da criatividade. Temos de recuperar a consciência de que somos um povo de artistas. Este país está estourando em música!

E, além disso, são jovens, com estilos musicais diversos e inéditos em galego… A cena musical atual pode fomentar o neofalantismo? Dalguma maneira, esta mocidade que apresenta o seu projeto em galego pode servir de referência para os seus congéneres.

Definitivamente sim. É absolutamente maravilhoso. É aí que vemos como, apesar daqueles clichés que visam restringir os âmbitos da língua, o galego medra em todos os géneros. Existe um discurso paternalista que diz que deves falar galego porque é a tua cultura, mas eu acho que cumpre antes dizer que deves falar galego porque desse modo acedes aos melhores conteúdos. Todos esses projetos que fazem rap, trap, música eletrónica, jazz em galego são extraordinários, prendem as pessoas e levam-nas para a língua. Já o vimos na nossa geração com o Javarim Clube, por exemplo. Estou na lavadora, estou na lavadora… Essas canções ficarom para sempre na memória duma geração inteira. Eram cantadas por estarem em galego? Não, mas porque eram boas canções e porque tinham aquela cousa de original. Bandas de rock and roll há 15.000, mas poucas em galego, e destacam-se. As bandas que fazem trap em galego estão a criar algo radicalmente diferente, são as melhores e ninguém as pode superar. Esse é o caminho!

Estou na lavadora, estou na lavadora… Essas canções ficarom para sempre na memória duma geração inteira. Eram cantadas por estarem em galego? Não, mas porque eram boas canções e porque tinham aquela cousa de original. Bandas de rock and roll há 15.000, mas poucas em galego, e destacam-se. As bandas que fazem trap em galego estão a criar algo radicalmente diferente, são as melhores e ninguém as pode superar. Esse é o caminho!

Um ponto em comum de muitos desses novos projetos é fugirem da reivindicação explícita do galego ou de letras políticas no sentido mais estrito da palavra. Normalizam a língua através de abordarem infinidade de tópicos diferentes nela. Era importante tirar a carga política?

Esse discurso contemporâneo dalgumas bandas é a nossa vitória. Uma absoluta vitória da minha geração. Diziam-nos que não era possível fazer rock em galego, rompemos com isso. E agora vem aí uma geração que efetivamente canta em galego porque sim, porque lhe peta e dá na gana, sem necessidade de qualquer compromisso ou consciência política. É maravilhoso. O facto de cantar em galego com normalidade, sem necessidade de justificações e sem utilizar a língua como forma de reivindicação, é um sucesso absoluto para a cultura e para a sociedade. Esse é o caminho, e que se lixem os que não gostem! Oxalá recebam mais promoção e partilha. A ideia é clara: somos uma língua e criamos cultura maravilhosa.

O facto de cantar em galego com normalidade, sem necessidade de justificações e sem utilizar a língua como forma de reivindicação, é um sucesso absoluto para a cultura e para a sociedade.

Xurxo, gostarias de acrescentar mais alguma cousa para concluir?

Gostaria de dizer que, ao contrário do momento maravilhoso para a língua que eu vivi, de consciência coletiva da sociedade, este é um momento difícil. Agora dizem-lhe às minhas filhas que o galego não serve para a matemática. E quem o diz? A própria Junta da Galiza. As línguas minorizadas avançam com o apoio da sociedade e da administração, que não está a fazer o seu trabalho. E cumpre lembrar isto: o galego tem um status de língua B para a própria administração, pior do que nunca. É gravíssimo e há que protestar todos os dias. Existe outro elemento a complicar: a preguiça social, em que se apoia o PP. Onte nós estávamos empolgados e precisávamos mudar a realidade, hoje dizemos que tudo foi sempre assim e nada acontece. Essa é a política que mostra o galego como língua doméstica, inçada de castelhanismos, e não como língua culta, que para isso já está o castelhano. Isto é o que transparece na TVG.

Frente às preguiças interesseiras, a opção pessoal. E eu, de acordo com a minha modesta experiência vital, digo que o galego é a felicidade, a forma em que me realizei plenamente como pessoa. E, obviamente, convido todo o mundo a viver esta felicidade plena!

[Este entrevista foi feita por Uxía Iglesias para neofalantes.gal]

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