Xurxo Fernandes: “O binormativismo vejo-o viável, necessário e perfeitamente assumível”



Neste ano 2021 há 40 anos desde que o galego passou a ser considerada língua co-oficial na Galiza, passando a ter um estatus legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos aos que fora relegada pola ditadura franquista. Para analisar este período, estamos a realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara o futuro.
Desta volta entrevistamos o músico, investigador e recolhedor de cántigas tradicionais, Xurxo Fernandes.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?

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As iniciativas públicas já as conhecemos… Nom saberia dizer. Há muitas pequeninhas cousas que ajudárom. Falando desde o meu caso particular, para mim o ensino foi importante, em concreto o professorado comprometido. Eu som da Corunha, educado em castelhano, e para mim foi decisivo o professorado do Instituto Agra II (agora chamado Rafael Dieste). Ali muitas aulas eram em galego, até a professora de inglês, cubana, dava as aulas em galego. Havia reintegracionismo, era habitual. De facto, saí do instituto sendo reintegracionista. Depois estudei um ano em Foz, e ao chegar ali, pareceu-me que era umha barreira, que afastava posturas, e abandonei-o. Mas, desde logo o instituto foi clave para dar o passo a falar galego, ou polo menos, estimular a sensibilidade pola língua graças a esse professorado consciencializado.
Outra cousa que me parece mui importante foi a Televisom de Galiza, à margem dos debates que poda haver sobre que variedade de língua se usa e como se usa, há programas como o Xabarín Club e o Luar, que ademais de ajudar à língua ajudárom à autoestima do rural e do tradicional. O Luar puxo a artistas mui reconhecidos ao lado da tia Maria de Simám que tocava a pandeireta, à mesma altura, e isso foi mui importante, tanto do ponto de vista artístico como do linguístico. Aliás, o maior arquivo de música tradicional de Galiza hoje é o Luar.

 

Eu som da Corunha, educado em castelhano, e para mim foi decisivo o professorado do Instituto Agra II (agora chamado Rafael Dieste). Ali muitas aulas eram em galego, até a professora de inglês, cubana, dava as aulas em galego. Havia reintegracionismo, era habitual. De facto, saí do instituto sendo reintegracionista.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situação na atualidade fosse melhor?

Eu creio que se se tivesse apostado polo reintegracionismo desde o princípio as cousas estariam muito melhor hoje, estaríamos abertos à lusofonia.
Acredito no reintegracionismo mesmo que nom o empregue habitualmente agora nas minhas aulas. Ao princípio si, entregava as cántigas em reintegrado, mas como a gente nom estava educada nesse sistema, para mim supunha mais um problema a todos os prejuízos que já tinha de por si, por isso o abandonei, o qual nom quer dizer que nom volte. Eu tivem muitos debates internos, a mim o que mais me interessa, ao trabalhar com cántigas tradicionais, é a oralidade, e se nom escrevo certas cousas diacríticas perdem essa oralidade, cousa que para mim é imprescindível. Preciso reproduzir a forma oral, por exemplo, candeeiro disse /candieiro/, mas se nom estamos afeitas, ou estando escrito “a auga” que a gente pudesse ler “a iauga”, ou para “este ano” que se pronuncie “esti ano”; agora sigo o sistema de Anton Santamarina para as transcriçons fonéticas. Tive me presentava o debate de se nom estou a contribuir a que a gente nom aprenda a ler em galego, se para que a gente diga “candieiro” tenho que o escrever com “i”… Ou a questom da gheada, que tem muito pouso de identidade, de afirmaçom. A gente nom entende que na leitura se pode manter esse e outros traços dialetais.

Ao princípio si, entregava as cántigas em reintegrado, mas como a gente nom estava educada nesse sistema, para mim supunha mais um problema a todos os prejuízos que já tinha de por si, por isso o abandonei, o qual nom quer dizer que nom volte.

A mim espanta-me a gente que está comprometida com a língua e que num registo mais formal apaga isso. Ao igual que quem pode dizer amarelo em sete línguas e em galego di “amarilho”, “porque na minha casa sempre se dixo assim”. E eu pergunto, mas na tua casa dixeste algumha vez “auxílio social” ou “converxer” ou “sociedade capitalista”? E ti di-lo. Daquela tu nom falas como na tua casa, o teu universo pode ampliar-se, mas de algumha maneira essa gente tem um conflito de identidade e isso afeta à língua. Gente do rural que sentiu o menosprezo cara a língua, encontra a forma de se reafirmar oponhendo-se ao castelhano, e oponhendo-se também a qualquer norma para o galego. Porém, nom evitar castelhanismos é nom ver o problema que tem a língua de frente; eu penso que o galego nom vai desaparecer porque a gente de repente se passe a falar toda castelhano, mas porque fique diluído no castelhano. Outro tema distinto é o de enfrentar-se com as pessoas falantes de castelhano, porque há gente que fala castelhano, mas que tem sensibilidade com a língua; nom o falam, nom dérom o passo, mas estariam a favor de medidas de apoio ao idioma. Porém, há gente que fala galego como língua materna e nom tem maior interesse no seu cuidado e o seu reconhecimento.

Que relaçom tem para ti a música e a língua, ou as línguas?

lindeiros.gal

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Eu comecei a trabalhar nas músicas tradicionais polo interesse linguístico. Interessárom-me muito as diferenças dialetais, e daí comecei a gravar as velhas, a bisavó dum companheiro meu de aulas tocava a pandeireta e daí comecei a descobrir a riqueza da literatura oral e do mundo musical, assim que para mim vai mui ligado.
A nossa música tradicional racha com todo, e dá espaço para muita cousa, por exemplo, que houvesse na Corunha umha burguesia que escutasse a Cántigas da Terra, em galego, é maravilhoso. Ou que me venha a aulas umha senhora de Juan Flórez (umha senhora bacana). Isto é superpositivo, essa senhora a cantar em galego, e ademais que cante umha cançom talvez com gheada e que diga uma palavra da que se calhar há uns anos se riria se lha escutasse a outra mulher.

Depois, no mundo da música tradicional há algumhas polémicas específicas, como a traduçom de cántigas recolhidas em castelhano, e a sua demonizaçom em certos setores, para mim errada. A certo setor interessava-lhe a música galega, mas nom lhe interessa reconhecer que na música galega há um corpus de literatura oral em castelhano. Por nom dizer que há cantigas em castelhano cheias de galego, a nível fonético, vem-me à ideia as mulheres de Traço cantando umha panjola em castelhano: “quien te doi la vista ciegho”, isto é maravilhoso, porque desde o seu galego, é a mesma palavra para terceira pessoa e para primeira (eu “dou”/ ele “dou”), e daí traduzem a dói, essas cousas tenhem muito interesse linguístico, porque demonstram como pensava a gente.
O que é mais galego dizer numha cantareia “gústame tocar a pandeireta” ou “me lleva ideia tocar la pandereta”… O primeiro que se disfarça é o léxico, mas a sintaxe… Há gente à que lhe parece que está melhor por passar-se o léxico ao galego, mas a mim, parece-me que dá mais informaçom estando em castelhano.

No mundo da música tradicional há algumhas polémicas específicas, como a traduçom de cántigas recolhidas em castelhano, e a sua demonizaçom em certos setores, para mim errada. A certo setor interessava-lhe a música galega, mas nom lhe interessa reconhecer que na música galega há um corpus de literatura oral em castelhano.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?

Xurxo Fernandes numha imagem promocional do seu último trabalho.

Xurxo Fernandes numha imagem promocional do seu último trabalho.

Teria que haver umha aposta política, isso é imprescindível. Um achegamento à lusofonia, que pode fazer que a nível capitalista se normalize o galego, que se aproveite esse interesse potencial do comércio e a indústria. O governo tem que permitir isso.
E depois, o galego, como língua “auxiliar” do espanhol está aí, e já é um milagre. É mui interessante a nível político o que passa com a língua, porque o PP e os seus caciques, nom se pode dizer que renegassem da língua, mas às vezes é mais fácil confrontar para situar-se um mesmo. Está claro que há políticas mais sustentáveis em todos os sentidos, em matéria de língua, de ecologia, de direitos das minorias… mas também há grises. Fora das lógicas dos estados-naçom há muitas possibilidades, o povo sefardita sempre foi umha minoria no império otomano, e ali vivêrom 500 anos em terras muçulmanas, sem viverem em guetos, e conservárom a língua, porque nom era um interesse imperial a homogeneizaçom cultural. Agora estou a ler um livro de entrevistas a camponeses gregos de princípios do século XX e eles mesmos nom sabiam se eram gregos ou turcos, só se diferenciavam pola língua, mas a língua identificava-se mais com a religiom que com o território: se falavas grego eras cristiano, e se falavas turco eras muçulmano.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?

Vejo-o viável, necessário e perfeitamente assumível. Há que começar por nom proibir o reintegrado, que deixe de estar proscrito, que poda aceder às instâncias públicas, às ajudas… Nom tem que ser nem sequer um binormativismo ativo, apenas sendo passivo seria um grande passo. Porém, para mim o ideal seria que a norma oficial tivesse sido a reintegracionista. Hoje já nom o vejo, porque poderia ser um susto para muita gente, mas que se permitissem as duas normas si, e há exemplos por aí adiante, com línguas com duas normativas.


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  • ernestovazquezsouza

    Esta-che boa a navalha…