Xosé Cabido: “Os privilégios que nos dá o patriarcado som mui grandes mas mui dolorosos”



“Masculinidades dissidentes. Construir homes para a igualdade” é o segundo módulo dumha formaçom em linha impulsionada desde a comunidade da escola Semente de Compostela. Foi pensada preferentemente para educadoras e famílias interessadas na pedagogia e na sexologia. Na tarde da próxima sexta, 9 de abril, contará com a presença do docente Xosé Cabido. Nesta conversa percorre a sua já longa experiência trabalhando com adolescentes varons, e detém-se de maneira especial em mostrar o sofrimento que a instalaçom dentro do regime patriarcal supom também para eles.

 

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Ena Barbazán

Como chegas a interessar-te por um trabalho no campo da igualdade? Pesou o facto de seres professor?
Começou, no campo académico, ao ter de professora María Xosé Agra, dando-nos umha ótica de género que na altura ainda era novidade, quando menos em Compostela. E com leituras, umha das primeiras sobre feminismo foi La otra política de Aristóteles, com 19 anos. Trabalhar a igualdade quase é umha obriga da minha formaçom. E também está o elemento pessoal, eu som o quinto entre várias irmás, e na minha casa já havia umha pequena cultura política e feminista. A profissom também me ligou aí. Comecei no ensino privado e, quando quigem dar essa ótica de género, falo de inícios de 90, numhas jornadas sobre emigraçom e sobre mundializaçom, sentim incompreensom por colocar um título como migraçom e mulher. E também padecia todos os dias essa fratura entre nenos e nenas que é patente. E o último grande salto foi filiar-me ao sindicato STEG e trabalhar nel. Aí entendíamos o trabalho com ótica de género como um elemento essencial. E ajudou-me a coordená-lo com maior profundidade no meu labor docente.

E como é que começades a trabalhar em espaços nom mixtos? Que pensávades que íades ganhar com essa separaçom?
Levava muitos anos tratando questons de género nas aulas. Nom estava no currículo mas com os estereótipos da Disney ou quando vinha o 8 de março tentava sempre fazer atividades deste tipo. Quando falávamos de igualdade, os homes continuavam a ser os protagonistas. E quase sempre se convertia num debate pueril, que nom ia além de nenos contra nenas, sobretudo, nos mais pequenos. E também via que os homes se colocavam no papel da vítima, sentiam o feminismo como um ataque, que se culpabilizavam. Nom estava a ser produtivo, acabava sempre num enfrentamento, e ao final saía da sala de aulas com a sensaçom de nom conseguir nada. Falando com a Sónia, umha colega de Matemática, dizia que via a necessidade de falar com os homes. Comecei a ler, a procurar na internet, e encontrava mui pouco. Apanhei algumha cousinha e logo pugem-me a botar-lhe imaginaçom à volta de que necessitariam falar. Fum com medo, porque era algo um pouco novo para mim, e decidim falar-lhes como home, mesmo um pouco como machirulo, com palavras que nom uso normalmente. Os homes somos educados com milhares de mensagens sexuais, por exemplo na publicidade. E também acorda a parte biológica, portanto, os nenos com 13 anos querem falar disso. Sentim que fora um êxito e, a partir daí, falamos de sexo como parte motivadora. Depois vou incluindo outras mensagens. As que quero ver, sobre a transformaçom dessa masculinidade. Se tivesse que sintetizar isso, diria que as mensagens socializadoras para eles e para elas som distintas. As duas venhem do mesmo patriarcado, mas com mandados diferentes. Entom cumprem espaços separados. Por elas, mas também por eles, porque há cousas que nunca diriam com público feminino. E descubro cousas que me fam rir, às vezes, ou que me impressionam.

Se tivesse que sintetizar isso, diria que as mensagens socializadoras para eles e para elas som distintas. As duas venhem do mesmo patriarcado, mas com mandados diferentes. Entom cumprem espaços separados. Por elas, mas também por eles, porque há cousas que nunca diriam com público feminino.

Que procedimentos empregas para mostrar, de maneira acessível, como o mesmo patriarcado que outorga aos varons umha série de privilégios aos quais nom deve ser simples renunciar, supom ao mesmo tempo um regime social opressivo para os mesmos varons?
Som teatreiro, fago o palhaço às vezes, fago-os rir. Entom isto nom é politicamente correto, quem figer este obradoiro deve ser um home heterossexual. Há um pacto entre varons para o uso das mulheres. Umha mulher tem um interesse, e um gay rompeu o pacto entre varons, porque nom procura umha mulher. Quem realmente renuncia ao privilégio é um heterossexual, e essa renúncia dá mais liberdade e mais felicidade. Estes som os dous caminhos do obradoiro, liberdade e felicidade, dá-me igual a ordem. Pretendo demonstrar-lhes que nom somos livres, que estamos educados para um patrom que nos mata. Sempre digo umha frase: ser macho à antiga, mata. Pido-lhes que busquem acidentes de trânsito, suicídios, mortes nas prisons, presos, mortes por arma branca. Além disso, quando lhes falo de mortes começam a dizer: é que as mulheres… Entom digo-lhes: nom, nom, isso é algo mui grave, mas vinhemos falar de homes, nom da violência de género, de momento. Vinhemos falar do dano que nos fai a nós. E a metodologia é sempre mui dialogante.

Há um pacto entre varons para o uso das mulheres. Umha mulher tem um interesse, e um gay rompeu o pacto entre varons, porque nom procura umha mulher. Quem realmente renuncia ao privilégio é um heterossexual, e essa renúncia dá mais liberdade e mais felicidade.

Sempre lhes digo que nom som cura, nom som melhor do que eles. Porque umhas cousas que percebiam no feminista, na feminista, sobretudo, é essa superioridade moral. Digo-lhes que estou ali para questionar, fazer perguntas, e que eles tenhem que escolher as respostas. E conto-lhes o que a mim me fijo bem, cousas da minha vida. Digo-lhes: senhores, vou-vos falar dos meus “gatilhazos”, do que chorei, de quando um par de vezes estivem numha barra americana, com catorze anos, sem querer. E vou-vos falar de como melhorei o sexo, e do bem que se passa. Mas para melhorar isso, há que mudar. Vós igual podedes agora com 14 anos engatar com algumha despistada assim de animalotes, mas acabou-se. Eu comecei a engatar quando mudei, e fijo-me muito bem, e antes magoei. Também tés que reconhecer isso, o sentimento de culpa. O outro dia em Briom foi espetacular, quase me fam chorar, quando começárom a falar da parte física, do machinazi de toda a vida: tu que me chamaste gordo toda a vida, e aquel dia que che dei umhas hóstias. E um contava: ia à piscina e nom tomava banho, todos tomavam banho e eu punha um casaco para que nom me vissem. Foi umha mostra dos problemas físicos do modelo do machinazi que nunca vira tam clara, porque é mui difícil que os nenos o reconheçam.

O outro dia em Briom foi espetacular, quase me fam chorar, quando começárom a falar da parte física, do machinazi de toda a vida: tu que me chamaste gordo toda a vida, e aquel dia que che dei umhas hóstias.

Entom metodologia: dialogar muito, nom ser cura, muita pergunta, e muito audiovisual. Imagens, vídeos, anúncios da tele, fotos. Que eles escrevam algo também, sobre que se espera dos homes no sexo. E aí nom há fisuras, mostram claramente o que pensam que os homes temos que fazer no sexo, e é umha loucura. Para eles, e para a sua frustraçom, dá medo. Por exemplo há umha mensagem no porno que é mui potente. Fago umha louvança à sexualidade, mas relaciono a mensagem da pornografia com a prostituiçom e com a violência sexual. Digo-lhes: quando vás de Verim a Chaves, que é de onde som eu, há umhas cousas aí de néon e, do meu ponto de vista, aí há umha escravatura. Está-se-me a dar umha mensagem como home: direito ao corpo dumha mulher. Que se passa, que se polo meio há dinheiro desaparece a culpa? Entom também desaparecerá para a nossa moça, irmá ou nai; mas nom queremos isso para estas pessoas. E quando o marido crê que tem direito a foder com a mulher? Ou quando um neno começa a apalpar, e depois quer continuar, e pensa que tem direito porque já começou. Ou porque umha rapariga está bêbeda? Estas cousas há que incluí-las, mas nom é a essência da oficina, tento falar-lhes sobretudo da perspetiva dos homes.

Gostaria de pegar no fio da questom da liberdade para perguntar-che como tentar fazer visível que muitas vezes quando a abordamos acabamos reparando em como temos naturalizada umha conceiçom mui individualista desta, mui neoliberal. Como tentar fazer visível umha lógica da liberdade que fuja um pouco disto, da ficçom da autosuficiência individual?

Ena Barbazán

Ena Barbazán

Isso tratamo-lo mais nas aulas, essa ideia de pensar o bem comum, mais que a liberdade, que é umha questom mais de comunidade que de indivíduos. Mas na oficina falamos mais de indivíduos, ainda que nom desde o ámbito neoliberal. Mais bem pensando-a como um refúgio que nos fica perante umha ideologia comunitária, que é o patriarcado. O patriarcado eu entendo-o como um ataque à liberdade nos sentimentos, em especial para as mulheres. Entom entendo que a transformaçom social passa, em parte, por umha transformaçom individual, neste caso ideológica. Baseando-me na ideia feminista que di que o pessoal é político. É certo que é uma oficina que parte do indivíduo, dum processo de deconstruçom de nós próprios, porque tés que assumir que figeste cousas dolorosas. Se calhar eles nom porque som mui novos, mas eu tenho que assumir diante deles que sem fazer nada do outro mundo seguramente caim algumha vez na insistência abusiva. Ou que por exemplo o outro dia vendo Novecento o que antes para mim era umha relaçom sexual sem mais, um pouco forte, hoje é umha violaçom. Outro exemplo: eu transformei-me a nível laboral quando fum chefe de estudos, sobretudo, aprendendo com os nenos, os que tenhem os conflitos mais graves. Comecei a perguntar-lhes pola figura do pai e isso para mim foi revolucionário. Muitos choram. Digo-lhes: teu pai algum dia te abraçou e che dixo que eras a pessoa mais importante da sua vida? E que isso falte ainda continua a ser o normal. Meu pai era desse estilo e nos últimos dez, quinze anos da sua vida todas as noites lhe dixem: quero-te, pai. E el dixo-me: quero-te, filho. E isso a mim deu-me saúde e libertou-me do dó. O feminismo, os cuidados, limpar cus de velhos e fazer o mesmo que figeram as minhas irmás devolveu-me saúde. Tirou-me tempo, ócio, alegria, porque é difícil, mas devolveu-me saber que estava onde tinha que estar e nom cair numha depressom.

Comecei a perguntar-lhes pola figura do pai e isso para mim foi revolucionário. Muitos choram. Digo-lhes: teu pai algum dia te abraçou e che dixo que eras a pessoa mais importante da sua vida? E que isso falte ainda continua a ser o normal. Meu pai era desse estilo e nos últimos dez, quinze anos da sua vida todas as noites lhe dixem: quero-te, pai. E el dixo-me: quero-te, filho. E isso a mim deu-me saúde e libertou-me do dó.

A tua parte da oficina promovida pola Escola Semente centra-se nas que chamas masculinidade dissidentes. Há algo que te incomoda na etiqueta “novas masculinidades”?
Sim, isso lim-no, nom é meu. A etiqueta de machinazi sim, e estou mui orgulhoso. Isso digo-o aos nenos, e nom gostam. Claro, porque é desagradável, podemos chamar-lhes impertinentes, e haverá algumha feminista que seja umha pesada, sim, até aí podo-cho comprar; mas daí a desprestigiar o feminismo… O conceito novas masculinidades foi o primeiro que aprendim. Pode-lo interpretar como transformadoras, mas por umha parte estávamos a dizer que os homes todos éramos ruins e que de repente emergiu algo novo. Pareceu-me que tínhamos que revalorizar modelos que já existiam mas que nom fôrom hegemónicos, que nom atendérom os mandados patriarcais.

Pode-se abordar um trabalho de igualdade sem pensar em abolir as masculinidades até hoje hegemónicas? Quer dizer, vês possibilidade de reformá-las, transformá-las, deconstruí-las? Entendes este trabalho como um pedaço do caminho?
Creio que o trabalho com as masculinidades é imprescindível. O feminismo inclui todas as revoluçons que sonhamos: económica, política, existencial, sexual, nos cuidados, ecológica. Nom podemos ter metade da populaçom sendo, mais ou menos conscientemente, agente do patriarcado. Nom gosto de falar nestes termos bélicos, mas quando temos um conflito teremos que ver quais som as nossas fortalezas e as nossas fraquezas. Que os homes somem e contribuam à causa feminista está bem, mas só desde umha ótica de acompanhamento nom chega. Porque mesmo homes bons e supostamente feministas ficam limitados. A igualdade nom chegará se nom tivermos os homes, para mim é claro. Como quando há umha guerra: umhas façons ponhem-se de acordo e o poder desse grupo é maior que o dos que querem continuar com a guerra. Tés a força suficiente, quer seja moral ou doutro tipo. Trabalhamos no empoderamento das mulheres, e está mui bem, mas temos esquecido o sofrimento de muitos alunos no patriarcado. Há muitos alunos que nom tenhem nada a ver com o machirulo, que estám apagadinhos, e sofrem muitíssimo. Entom há que demonstrar aos nenos e às nenas que o feminismo, ou o discurso da igualdade, o discurso antipatriarcal, fai-nos muitíssimo bem aos homes. Temos muito que ganhar se assumirmos esse discurso, se nos somarmos. Porque os privilégios som mui grandes, é certo, mas mui dolorosos. Som em troca da submissom, eu tenho prostitutas, podo foder quando me apetecer se tenho dinheiro, mas em troca som um tipo submetido aos meus chefes, submetido aos militares, à polícia, aos treinadores, e a um sistema que nom me deixa ser como quero eu. E essa submissom está aprendida desde a base, submetemo-nos ao mais forte, ao líder da equipa, ao machinazi. E fazemos o que nom queremos, lançamo-nos desde nom sei onde, do alto, ainda que estivermos cheios de medo.

Entom há que demonstrar aos nenos e às nenas que o feminismo, ou o discurso da igualdade, o discurso antipatriarcal, fai-nos muitíssimo bem aos homes. Temos muito que ganhar se assumirmos esse discurso, se nos somarmos. Porque os privilégios som mui grandes, é certo, mas mui dolorosos.

É percetível na rapazada um avanço no questionamento do binarismo de género, significativo nos varons, pola via vivenciada da teoria queer. Mas também um nível muito menor de consciência em relaçom com o regime patriarcal e das suas implicaçons nos planos económico e político. Quererias falar um pouco disto?
Sim, também o percebo, mais desde que dou aulas em Compostela, e mesmo em nenos heterossexuais. Nom sei se tem que ver com a mudança social, vamos-lhe chamar com essa espécie de melhoria, para quem o foi, da classe média. Entom os nenos e as nenas hoje vivem umha vida mais lúdica, e o que chamamos um pensamento e umha sociedade mais líquida, há menos análise, menos procura da causa ideológica de por que vivo assim. Nessa parte mais lúdica há umha libertaçom sexual. No outro dia na primeira parte deste curso da Semente falavam de que o sexo nom ten que ver com o prazer, algo que me chamou muito à atençom. E entom creio que tem um pouco que ver com esse triunfo do individualismo e do hedonismo. E também há umha rutura de estereótipos, mesmo na publicidade. E talvez em certa medida o sentimento de que nom tenho muito que fazer neste mundo globalizado, e entom uno-me a isto. Que é positivo. Lembra-me, indo atrás no tempo, isso que explicamos em Filosofia sobre por que triunfa o estoicismo, ou o epicureismo, depois das grandes doutrinas de Platom ou de Aristóteles. Alexandre o Grande começou a fazer um império, tam grande, que a gente nom podia participar na vida pública. É como se hoje dizemos: “Vou participar na Uniom Europeia”. Como? Se está tam longe… Igual que um grego daquel tempo, mesmo que pensasse na questom do bem comum. Parece que tenhem pouco que fazer, ir às manifestaçons… e entom refugiam-se no âmbito individual.

Nos conteúdos do curso colocas um apartado que titulas “O amor e o sexo: aprendendo a desamar”, botando mao dun verbo que, em princípio, pode ser recebido com um sentido negativo. Por que?
Aí há duas partes também, umha vivencial e umha académica. A académica foi-me dada por Hombres que ya no hacen sufrir por amor, de Coral Herrera, mui interessante. Depois de Mujeres que ya no sufren por amor. Há outra parte, que é minha: até que ponto figem sofrer, nom só nas relaçons sexuais, que tivem a sorte de ser umha pessoa mais bem educada e tranquila, mas sim no desamor. Ser um cabrom, tentar fazer sofrer, porque cabrom nom é só o que bate e insulta, também o pode ser quem recrimina cousas ou nom aceita que o deixem. Os homes estamos educados para que nos queiram sempre, nessa ideia de “todo lo voy a hacer por ti”. A minha ideia pessoal, minha porque se a lim nom  lembro onde, é que devíamos ensinar aos nenos a despossuir, a ver que o desamor nom é algo tam grave.

Ser um cabrom, tentar fazer sofrer, porque cabrom nom é só o que bate e insulta, também o pode ser quem recrimina cousas ou nom aceita que o deixem. Os homes estamos educados para que nos queiram sempre, nessa ideia de “todo lo voy a hacer por ti”. A minha ideia pessoal, minha porque se a lim nom  lembro onde, é que devíamos ensinar aos nenos a despossuir, a ver que o desamor nom é algo tam grave.

Vivemos numha sociedade onde a monogamia, e a família nuclear, como o é a minha, parece que é o sentido, e fora disso nom há sentido. E isso é um problema social mas também individual. Tu nom podes ser deixado, porque estás educado para o triunfo. Creio que em todo este processo o que vim sempre foi violência, e que seria menor se os homes aprendessem a desamar. Por que passei um tempo numha rutura com desprezo, usando a chularia? Porque estava doído e nunca me ensinárom a canalizar essa dor para outro lugar.

Ana Salgado

Ana Salgado

Ana Salgado nasceu em Loureiro, O Irixo, em 1974. Trabalha como professora de Língua e Literatura no Secundário. Foi coordenadora da Revista ProTexta, da Tempos Novos, e é mãe da María, que frequenta feliz as aulas da Semente Compostela.
Ana Salgado


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  • ernestovazquezsouza

    Pois falta faz… que nos liceus o machinazismo está a ordem do dia…

    Muito não progressamos, não…