Waka pelos Kofun e as saudosas casas do antigo Yamato

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Por Ernesto Vasques Souza

Gallia est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli appellantur. Hi omnes lingua, institutis, legibus inter se differunt.

C. IVLI CAESARIS, Commentariorvm de Bello Gallico Liber Primvs, I.

Como destacava Edward W. Said no seu luminoso Orientalismo: que as cousas pareçam evidentes não quer dizer que sejam realmente tal: que o peso da tradição, dos discursos elaborados, da opinião pública feita de encargo pelos contemporâneos referentes, da moda global, das ideias em destaque pelos média, dos sucessos do momento mais os dramas cotidianos do presente próximo são filtros poderosos que normalmente passam despercebidos; porém são cousas todas que referenciam as leituras e interpretações sobre o que se nomeia de passado remoto, tradição e história, mas que no fundo é base justificativa e combustível da autoridade, o poder e o capital.

A nação como qualquer outro concepto com valor econômico em circulação não é uma realidade fixa, inerte nos seus túmulos reais, monumentos republicanos, instituições civis e estatuário comemorativo do século anterior. O “Nós” não é o mesmo sempre (não pode ser, que o mundo gira a ritmo) como o “Vós” e “Eles” que implica, também não.

E se corre – e como corre – o rio do tempo, a vida humana, é que são outros “Nós” os que nos antecedem e sucedem na pesca da memória que alimenta o presente nele. Apenas e em função de como desejamos que venham existir depois de Nós é que apanhamos, para legar, do que nos precedeu.

Continuamos com Said e Vico: a geografia, o território, os assentamentos humanos com os seus marcos e marcas, por muito antigos que pareçam são convenções fixadas e conservadas para o uso presente; são invenções interesseiras ou práticas dos humanos que mudam e remudam com a mudança do mundo, do tempo e a respeito das vontades acordes dos que podem fixar essas cousas no seu momento.

O curioso é que nem existia a Gália antes de César nem farrapo de cornamusa estava dividida em três partes até que interessou os Romanos a sua conquista. Que direito de conqueridor é o de impor a narração da realidade. E contar e descontar para voltar a contar a jeito (como bem nos explicou aquele grande narrador alexandrino do Eric Hobsbawm) é parte da soberba com que os humanos pretendemos dominar o mundo e justificarmo-nos para presente os feitos dos que queremos por antergos e brasões.

Provavelmente será difícil encontrar no mundo um parelho da história do Antigo Yamato no sempre exótico Japão: esse primeiro reino de remotíssima memória, túmulos neolíticos continuados, artes cuidadas, velhos castelos de pedra nos outeiros, clãs, feudos e destrutivos feudais, velha poesia cortesã, semente imperial mas não império, lendas, linhagens míticas, habitantes repovoadores e belicosos, Imperadores de fábula e até rainhas xamanescas e lupárias.

O Yamato, a província que primeiro desenha em imitação e oposição aos impérios continentais um reino, literatura, história, reis e dá origem a mais numerosa e poderosa (na administração) etnia. A província que por metonímia tem significado épico do “antigo”, do “originário”, do “essencial” e cujos habitantes e imperadores antigos deram pulo, símbolos, literatura, alicerces de língua comum, estrutura e população base ao resto da grande ilha. O complexo espaço feudal de remotíssimas casas possuidoras dos cultivos de arroz, que terminou ensimesmado e afogado pelas lutas dos seus pequenos grandes senhores entanto o Império e o arroz se estendia em territórios mais amplos e gerava o estado e a narrativa do mundo, da língua e da geografia arredor das suas dinastias originais, fora dele.

Enfim, e para que nos entendamos, para se não repetir à paisana falando do tempo atmosférico, ou refletir no celtismo libertador contra os clichês do desenho académico, esta é uma prosa elegíaca com envio, sobre as mâmoas, sobre aqueles verdes castros e castelos derrocados a lume sobre eles, sobre a aristocrática cantiga antiga, sobre o povo que se espalhou dacavalo da guerra, da perseguição e da fame para o Sul, o Leste e além mares, pelas casas do antigo reino e as guerras samurai dos clãs de Bolanho, Lobeira, Trava, Neira, Castro, Figueroa, Andrade, Soutomayor, Ulhoa, Moscoso, Ossório, Saavedra, que terminaram por extinguirem a sua força em guerras internas e rapinas milenares, pelos reis velhos nas suas covas e pelos novos que souberam se independizar de todos eles e mesmo dos túmulos, os templos, as torres e os paços solarengos.

Porque afinal de contas, que diriam Vasco da Ponte, Gondomar, o de Molina, Gândara, Sarmiento, Feijó, Faraldo, Murguia, Pondal, Valle; Castelao, Cuevillas, Otero Pedrayo e o mesmíssimo Risco, isto não é a Gália, nem se divide em 4 (ou 5 com a voadora) províncias, mas sim é caso espantoso de supernacionalismo hespanhol originário e ainda duplo a que não presta nem explica uma narrativa de colônias nem de nacionalismos resistentes de país conquistado por potência imperial europeia.

Calha-nos mais, com permissão primaveral do meu senhor Álvaro Cunqueiro e iluminações de Luis Seoane em estilo vanguardista da época clássica, os elegantes Tanka sobre amendoeiras e passarinhas dominadoras do tempo, os poderosos mosteiros de vária regra e milícia adestrada, as cerâmicas, ouros e bronzes com geometrias Yayoi nas mâmoas, as bandas desenhadas que pegam nas nossas t-sort retranqueiras, a literatura pornográfica e sarcástica, os filmes com grandes derrotas épicas dos samurais tão cavaleiros, os vídeo jogos e mesmo a alta tecnologia combinados com a gastronomia cuidada, os licores e vinhos dos que abrolha a cantiga e a história no estilo Vicetto sobre os míticos condes, reis, dinastias, linhagens e mais para cronologias os períodos na história lavrados na pedra, nos templos e na paisagem dos territórios desde que o mundo é mundo e a gente, gente.

E presta-nos mais que o Ocidentalismo acadêmico, o Oriente inteiro, com as suas filosofias relativistas, fábulas exóticas e tradições de altíssimo contexto: não por acaso, mas apenas para ir dando jeito ao labirinto do nosso particular Nihonjinron, com aquela cousa da soberania estética contra tanto cânone e contra tanto cão.

Curiosidades

Kofun: http://en.wikipedia.org/wiki/Kofun

Nihonjinron: http://en.wikipedia.org/wiki/Nihonjinron

Tanka: http://en.wikipedia.org/wiki/Waka_%28poetry%29#Tanka

Waka (Tanka) http://pt.wikipedia.org/wiki/Waka_%28poesia%29

Yamato: http://en.wikipedia.org/wiki/Yamato

Yamato (Período): http://en.wikipedia.org/wiki/Yamato_period

Yamato minzoku: http://en.wikipedia.org/wiki/Yamato_people

<P><B>Waka pelos Kofun e as saudosas
casas do antigo Yamato</B></P>

<P>Por <B>Ernesto Vasques Souza</B></P>

<P>Gallia
est omnis divisa in partes tres, quarum unam incolunt Belgae, aliam
Aquitani, tertiam qui ipsorum lingua Celtae, nostra Galli
appellantur. Hi omnes lingua, institutis, legibus inter se differunt.
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<P>C.
IVLI CAESARIS, <I>Commentariorvm
de Bello Gallico</I>
Liber Primvs, I.</P>

<P>Como destacava Edward W. Said no seu
luminoso <I>Orientalismo</I>: que as cousas pareçam evidentes não
quer dizer que sejam realmente tal: que o peso da tradição, dos
discursos elaborados, da opinião pública feita de encargo pelos
contemporâneos referentes, da moda global, das ideias em destaque
pelos média, dos sucessos do momento mais os dramas cotidianos do
presente próximo são filtros poderosos que normalmente passam
despercebidos; porém são cousas todas que referenciam as leituras e
interpretações sobre o que se nomeia de passado remoto, tradição
e história, mas que no fundo é base justificativa e combustível da
autoridade, o poder e o capital.</P>

<P>A nação como qualquer outro
concepto com valor econômico em circulação não é uma realidade
fixa, inerte nos seus túmulos reais, monumentos republicanos,
instituições civis e estatuário comemorativo do século anterior.
O “Nós” não é o mesmo sempre (não pode ser, que o mundo gira
a ritmo) como o “Vós” e “Eles” que implica, também não.
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<P>E se corre – e como corre – o rio do
tempo, a vida humana, é que são outros “Nós” os que nos
antecedem e sucedem na pesca da memória que alimenta o presente
nele. Apenas e em função de como desejamos que venham existir
depois de Nós é que apanhamos, para legar, do que nos precedeu.
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<P>Continuamos com Said e Vico: a
geografia, o território, os assentamentos humanos com os seus marcos
e marcas, por muito antigos que pareçam são convenções fixadas e
conservadas para o uso presente; são invenções interesseiras ou
práticas dos humanos que mudam e remudam com a mudança do mundo, do
tempo e a respeito das vontades acordes dos que podem fixar essas
cousas no seu momento.
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<P>O curioso é que nem existia a Gália
antes de César nem farrapo de cornamusa estava dividida em três
partes até que interessou os Romanos a sua conquista. Que direito de
conqueridor é o de impor a narração da realidade. E contar e
descontar para voltar a contar a jeito (como bem nos explicou aquele
grande narrador alexandrino do Eric Hobsbawm) é parte da soberba com
que os humanos pretendemos dominar o mundo e justificarmo-nos para
presente os feitos dos que queremos por antergos e brasões.</P>
<P>Provavelmente será difícil
encontrar no mundo um parelho da história do Antigo Yamato no sempre
exótico Japão: esse primeiro reino de remotíssima memória,
túmulos neolíticos continuados, artes cuidadas, velhos castelos de
pedra nos outeiros, clãs, feudos e destrutivos feudais, velha poesia
cortesã, semente imperial mas não império, lendas, linhagens
míticas, habitantes repovoadores e belicosos, Imperadores de fábula
e até rainhas xamanescas e lupárias.
</P>

<P>O Yamato, a província que primeiro
desenha em imitação e oposição aos impérios continentais um
reino, literatura, história, reis e dá origem a mais numerosa e
poderosa (na administração) etnia. A província que por metonímia
tem significado épico do “antigo”, do “originário”, do
“essencial” e cujos habitantes e imperadores antigos deram pulo,
símbolos, literatura, alicerces de língua comum, estrutura e
população base ao resto da grande ilha. O complexo espaço feudal
de remotíssimas casas possuidoras dos cultivos de arroz, que
terminou ensimesmado e afogado pelas lutas dos seus pequenos grandes
senhores entanto o Império e o arroz se estendia em territórios
mais amplos e gerava o estado e a narrativa do mundo, da língua e da
geografia arredor das suas dinastias originais, fora dele.</P>

<P>Enfim, e para que nos entendamos,
para se não repetir à paisana falando do tempo atmosférico, ou
refletir no celtismo libertador contra os clichês do desenho
académico, esta é uma prosa elegíaca com envio, sobre as mâmoas,
sobre aqueles verdes castros e castelos derrocados a lume sobre eles,
sobre a aristocrática cantiga antiga, sobre o povo que se espalhou
dacavalo da guerra, da perseguição e da fame para o Sul, o Leste e
além mares, pelas casas do antigo reino e as guerras samurai dos
clãs de Bolanho, Lobeira, Trava, Neira, Castro, Figueroa, Andrade,
Soutomayor, Ulhoa, Moscoso, Ossório, Saavedra,  que terminaram por
extinguirem a sua força em guerras internas e rapinas milenares,
pelos reis velhos nas suas covas e pelos novos que souberam se
independizar de todos eles e mesmo dos túmulos, os templos, as
torres e os paços solarengos.
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<P>Porque afinal de contas, que diriam
Vasco da Ponte, Gondomar, o de Molina, Gândara, Sarmiento, Feijó,
Faraldo, Murguia, Pondal, Valle; Castelao, Cuevillas, Otero Pedrayo e
o mesmíssimo Risco, isto não é a Gália, nem se divide em 4 (ou 5
com a voadora) províncias, mas sim é caso espantoso de
supernacionalismo hespanhol originário e ainda duplo a que não
presta nem explica uma narrativa de colônias nem de nacionalismos
resistentes de país conquistado por potência imperial europeia.</P>

<P>Calha-nos mais, com permissão
primaveral do meu senhor Álvaro Cunqueiro e iluminações de Luis
Seoane em estilo vanguardista da época clássica, os elegantes Tanka
sobre amendoeiras e passarinhas dominadoras do tempo, os poderosos
mosteiros de vária regra e milícia adestrada, as cerâmicas, ouros
e bronzes com geometrias Yayoi nas mâmoas, as bandas desenhadas que
pegam nas nossas t-sort retranqueiras, a literatura pornográfica e
sarcástica, os filmes com grandes derrotas épicas dos samurais tão
cavaleiros, os vídeo jogos e mesmo a alta tecnologia combinados com
a gastronomia cuidada, os licores e vinhos dos que abrolha a cantiga
e a história no estilo Vicetto sobre os míticos condes, reis,
dinastias, linhagens e mais para cronologias os períodos na história
lavrados na pedra, nos templos e na paisagem dos territórios desde
que o mundo é mundo e a gente, gente.
</P>

<P>E presta-nos mais que o
Ocidentalismo acadêmico, o Oriente inteiro, com as suas filosofias
relativistas, fábulas exóticas e tradições de altíssimo
contexto: não por acaso, mas apenas para ir dando jeito ao labirinto
do nosso particular Nihonjinron, com aquela cousa da soberania
estética contra tanto cânone e contra tanto cão.</P>

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<P><B>Curiosidades</B></P>

<P STYLE=”margin-bottom: 0cm; line-height: 100%”>Kofun:
<A HREF=”http://en.wikipedia.org/wiki/Kofun”>http://en.wikipedia.org/wiki/Kofun</A>
</P>

<P STYLE=”margin-bottom: 0cm; line-height: 100%”>Nihonjinron:
<A HREF=”http://en.wikipedia.org/wiki/Nihonjinron”>http://en.wikipedia.org/wiki/Nihonjinron</A>
</P>

<P STYLE=”margin-bottom: 0cm; line-height: 100%”>Tanka:
<A HREF=”http://en.wikipedia.org/wiki/Waka_%28poetry%29″>http://en.wikipedia.org/wiki/Waka_%28poetry%29#Tanka</A>
</P>

<P STYLE=”margin-bottom: 0cm; line-height: 100%”>Waka (Tanka)
<A HREF=”http://pt.wikipedia.org/wiki/Waka_%28poesia%29″>http://pt.wikipedia.org/wiki/Waka_%28poesia%29</A>
</P>

<P STYLE=”margin-bottom: 0cm; line-height: 100%”>Yamato:
<A HREF=”http://en.wikipedia.org/wiki/Yamato”>http://en.wikipedia.org/wiki/Yamato</A>
</P>

<P STYLE=”margin-bottom: 0cm; line-height: 100%”>Yamato (Período):
<A HREF=”http://en.wikipedia.org/wiki/Yamato_period”>http://en.wikipedia.org/wiki/Yamato_period</A>
</P>

<P STYLE=”margin-bottom: 0cm; line-height: 100%”>Yamato minzoku:
<A HREF=”http://en.wikipedia.org/wiki/Yamato_people”>http://en.wikipedia.org/wiki/Yamato_people</A>
</P>
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Máis de Ernesto V. Souza