osgas



978972202667Andei, como já comentara, a ler o Gerald Durrell; e num dos capítulos de “A minha família e outra alimária” (permitam a tradução livre) há uma épica confrontação entre um carismático gecko e uma descomunal louva-a-deus.

Após uns preliminares, focados na descrição individual do caráter, habilidades e caraterísticas dos contendentes, acontece uma intensa batalha, que poderíamos perfeitamente situar na melhor tradição dos cronistas medievais, ou talvez e mais apropriadamente nas descrições dos romances populares de espada e bruxaria que circulavam contemporâneos dos feitos narrados.

Gerónimo é uma grande osga que vive numa fenda entre a pedra, logo abaixo da janela do Gerry, no tempo em que moram na Villa Branca. Caça insetos no quarto, protege o seu território doutros competidores e fica desafiante e indiferente no peitoril da janela perante o leito do narrador. Uma noite, após o pertinente desafio do grande inseto, entra em violenta luta com Cicely, a enorme louva-a-deus que o narrador capturara pouco antes para observar, e que fugira da sua caixa, deambulando livremente pelo quarto. O Gerónimo termina vitorioso a luta na almofada, embora não sem ferimentos de importância e com a perca estratégica da sua cauda.

Depois de procurar nas wikis e dicionários um bocadinho sobre geckos, píntegas, osgas, lagartixas e louva-a-deus e não ficar satisfeito, consultei com o amigo João Aveledo, bichólogo, poeta galego e colaborador habitual no Novas da Galiza, PGL e outros espaços comuns, para que me iluminasse a respeito.

Depois de procurar nas wikis e dicionários um bocadinho sobre geckos, píntegas, osgas, lagartixas e louva-a-deus e não ficar satisfeito, consultei com o amigo João Aveledo, bichólogo, poeta galego e colaborador habitual no Novas da Galiza, PGL e outros espaços comuns, para que me iluminasse a respeito.

 

E uma vez as dúvidas satisfeitas, não sei por que, os conetores da mente levaram-me a re-ler “O Vendedor de Passados” de José Eduardo Agualusa; acho que foi na procura duma cena aí apontada, neste caso com um escorpião. Não desvendo o final porque faz parte do jogo narrativo e simbolismos do livro. Mas recomendo também fugaz e vou-me à memória, à história e à construção da identidade. À peripécia de inventar os passados próprios, pessoais e de passagem o das nações.

Tem lógica a transferência: Durrell inventa não pouco a sua infância em exagero cómico, construindo em correlato de observação à bicharia, família e gente arredor (sem muita distinção), uma narrativa de aprendizagem legitimadora, suporte das suas próprias ideias sobre a formação e de antecedentes a respeito da sua dilatada carreira.

No caso de Agualusa, o humor e o absurdo combinam com a crítica nacional e social, a narrativa de uma peça onde transborda mais uma vez o tradicional realismo fantástico africano e o onírico em relação. Simbolismo, crenças populares, tradições, fantasias, invenções com um pé na África colonizada e com outro no Portugal colonizador (e que mesmo podíamos rastejar no folclore da Galiza, sem ir mais longe na obrigada peregrinação a Santo André de Teixido).

No caso de Agualusa, o humor e o absurdo combinam com a crítica nacional e social, a narrativa de uma peça onde transborda mais uma vez o tradicional realismo fantástico africano e o onírico em relação. Simbolismo, crenças populares, tradições, fantasias, invenções com um pé na África colonizada e com outro no Portugal colonizador (e que mesmo podíamos rastejar no folclore da Galiza, sem ir mais longe na obrigada peregrinação a Santo André de Teixido).

 

Eulálio, a osga de Agualusa, é um dos narradores da história, descreve como narradora câmara o que acontece e fazem os humanos nos seus domínios territoriais, na casa principalmente e no jardim, combinando com sonhos e narrativas de uma vida humana anterior. Os episódios e memórias das personagens, em princípio isolados, vão confecionando um realista e duro quadro da realidade, da longa e dramática história da Angola após colonial submersa numa complexa Guerra Civil. Uma história comum de violentadores e violentados, de sobreviventes, no meio dos bandos da Guerra fria, durante a longa consolidação dos poderes do novo estado, da chacina coletiva e da legitimação particular de passados.

Interessa-me essa reflexão que vai pingando nos diálogos, cenas e narrativas, envolvendo o malditismo, as margens da legalidade, o cinismo e utilitarismo sobrevivente das personagens. Assistimos em direto, em pequena escala, à construção das identidades e das histórias pessoais, estabelecendo um paralelo de legitimação irónica com a construção das histórias nacionais e com a legitimação das trajetórias e das principais personagens.

Afinal o conto é velho, e por cima das violências físicas, sociais e no corpo de dissidentes e sempre sobre as mulheres fica a ideia da construção do passado, da invenção das tradições e das nações estado (tal como disseram Eric Hobsbawn e Terence Ranger). Só talvez surpreende, ou faz detetar a sátira, a proximidade no tempo.

Quem pode negar que o Romance artúrico ou Fernão Lopes, os modelos de gregos e romanos, legitimaram dinastias, ações turbulentas, parricídios, homicídios de estado e mudanças de casas e heráldicas. Quem lembra já os relatos refeitos, inúmeros brasões e genealogias dos tempos antigos e dos velhos tempos modernos que se decoraram com a mesma engenharia, meticulosidade, fantasia e naturalidade dos que como o albino Félix Ventura, são grandes artistas na arte de falsificar. Esse pessoal que termina por ocupar os gabinetes das academias, museus; as redações dos jornais e os departamentos das universidades, ou que trabalha nas sombras, para eles e as personagens que depois aparecem na TV, na nomenclatura das ruas, no estatuário e nos livros de história pátria.

Ernesto V. Souza
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