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Uma olhada nas Correntes

Teresa Carro – Há dois dias que estou a participar nas Correntes d‘Escritas que estão a decorrer na Póvoa de Varzim. Mas apenas estou a assistir, ainda não virei escritora! Para quem não conhecer, as Correntes são um enconto de escritoras e escritores nas línguas ibéricas que este ano está no seu dézimo aniversário, antes de mais: Parabéns!

E parabéns não só por causa de fazer anos simplesmente, se não por como esses anos são feitos. As Correntes conseguem juntar durantes uns dias ao ano o melhor a literatura feita em português e em espanhol, em qualquer variante as de ambas as línguas. Isto é especialmente importante porque conta com presenças vindas da África e da América, que não são tão frequentes entre nós, desgraçadamente.

E dizia, junta esta gente toda num clima de convívio e bom ambiente que imagino é o segredo do sucesso, pela minha experiência e por aquilo que ouvi, quem vem uma vez às Correntes quer voltar sempre. Não imaginem uma “feira” de escritores a teorizar sobre conceitos estranhos à volta do ser literário, nem por isso. Aqui estão em questão os aspectos mais vulgares e mais requintados do escrever e do ler. E digo vulgares para falar em como é faz uma escritora à frente duma folha em branco, quais as sensações, quais os hábitos, onde é que escreve, em definitiva para penetrarmos da mão dela na sua intimidade. E digo requintados para referir-me a fundos pensamentos filosóficos sobre do sentido as palavras.

Portanto imaginem, pelo contrário, um lugar onde o escritor e a escritora estão muito perto do leitor e da leitora, onde se observa uma cumplicidade especial entre o cenário e a plateia, um lugar onde, para a minha surpresa, o espaço do público sempre fica pequeno. Desconheço a explicação lógica de por que na Póvoa de Varzim as pessoas acodem a uma palestra de literatura como se a um concerto do músico que está na moda se tratasse. É verdade, as Correntes passam-se no Auditório Municipal, portanto um lugar bastante espaçoso podem imaginar, e há sempre pessoas sentadas nas escadas, como é que se explica? Não sei.

Posso supor que os anos dão a razão à organização das Correntes que aposta pela proximidade das pessoas e pelo tom descontraído, toda a gente se sente à vontade cá, não há qualquer cheiro a elite literária, muito pelo contrário. Um acerto deve ser também levar os grandes nomes às escolas próximas, para que as escritoras e os escritores conversem com a rapaziada, para aproximar as crianças da leitura e da conversa, e esta experiência tem dado muito bons resultados.

 

Nos dois dias que já passaram das Correntes houve tempo para a escrita, a fotografia, o cinema, os recitados, os copos…Logo cheguei à Póvoa queria assistir a uma mesa que levava por título “ Os desafios da escrita” em que participava um escritor pelo qual tenho uma admiração especial, Corsino Fortes, mas quando quis entrar na sala já não havia lugar para uma agulha…isto causou-me tristeza mas também uma prounda alegria, afinal as Correntes continuavam a arrastar público. Mas sim tive ocasião nesse dia de participar na abertura duma exposição de fotografia que pretende mostrar-nos os rostos de quem escreve, os rostos da pessoas que não conhecemos e que tantas vezes não fazem rir, chorar ou nos dão uma ajudinha. Mais tarde fomos levados a uma viagem pela Angola através das músicas e das testemunhas que aparecem no documentário “É Dreda Ser Angolano”, muito recomendável. E ainda restou tempo para a leitura de poesia antes de nos deixar levar pelo mundo dos sonhos, mas agora, dos nossos próprios sonhos.

A quinta-feira começou forte logo de manhã, assistimos a uma mesa em que se reflectia sobre o “desafio da folha em branco”, e como não posso dizer tudo o que ouvi, vou ficar com umas palavras de Germano Almeida que diz “cada caboverdiano tem um projecto particular para construir Cabo Verde, e eu como caboverdiano tenho o meu”, estas palavras foram muito familiares e próximas para mim. E também fico com a reflexão de Helder Macedo que apontou para a necessidade de deixar folhas em branco, a importância dos silêncios e papel que lhe resta à leitora.

Antes do almoço ainda tivemos oportunidade de ouvir Maria Teresa Horta, quem se afirmou efectivamente como feminista, mas esclareceu “eu não nasci feminista, mas a situação que me rodeia fez-me feminista”, não posso concordar mais com ela.

Como sobremesa ao almoço conversou-se à volta desta frase “Estou farto de palavras”, foi uma mesa cheia de emoções pelas experiências pessoais que os escritores colocaram para todos a propósito de palavras. E eu vou ficar na memória com a intervenção mais curta mas por isso não menos intensa, do escritor mexicano Antonio Sarabia quem sim se mostrou realmente farto de palavras, mas concretamente de algumas palavras: bloqueio (do povo palestiniano e do povo cubano), terrorismo e terrorista ( usadas para múltiples manifestações segundo quem as pronuncie), resgate ( pois supõe-se um sequestro), independência e soberania ( intui-se um povo oprimido), e sobretudo a palavra democracia que cada pessoa utiliza quando lhe convir com a finalidade que lhe convir, e ainda as palavras libertação e liberdade em nome das quais se têm feito as maiores barbáries.

Com o corpo ainda a estremecer por causa das palavras ouvidas na sala, assistimos a mais um lançamento de livros ( é muito engraçada a expressão lançamento de livros, sempre que assito tenho vontade de me colocar num lugar seguro para os livros não me atingirem), foi a vez da editora portuguesa Quetzal que trazia principalmente traduções para o português de autores de fala hispana, ai eu tive a dúvida: e eu, compro em espanhol ou em português? Aqui é que as galegas e os galegos nos deparamos com a nossa situação privilegiada, temos ao nosso dispor as portas abertas de dois mundos fantásticos e maravilhosos, só temos é que aprender a tirar proveito desta posição.

Para finalizar a tarde ouvimos as reflexões à volta duma mesa com um título nada fácil, “o olhar escreve ou melhor a caneta vê”, todos os participantes reclamaram à organização a escolha do tal título, mas era só uma questão de protesto, pois a mesa resultou do mais proveitosa, seria também que lá estavam autores que eu adoro… Luís Fernando Veríssimo fez uma revisão rápida pela história recente do Brasil para demostrar como a situação política pode determinar a escrita dum autor e como por vezes é obrigado a inventar outros meios de comunicação que não a escrita para expressar aquilo que vê.

Paulina Chiziane novamente nos deslocou para o Moçambique mais próprio e novamente nos quis demostrar que ela como escritora moçambicana pertence a uma realidade bem longe das escritoras europeias, apontou para a realidade das mulheres moçambicanas em que a taxa de analfabetismo se coloca em 75%, portanto a cultura continua a transmitir-se principalmente de forma oral, e na oralidade não só são importantes as palavras como as músicas, os cheiros e os movimentos.

A propósito de Paulina Chiziane, Almeida Faria disse sentir-se por vezes mais perto dela do que da realidade europeia, devido ao facto de ele ter nascido no Alentejo, que segundo ele, é o norte da África. Finalmente ouvi Alice Vieira, de quem tantos contos já li ( eu gosto muito de contos para crianças), e quem apresentou a escrita como uma questão de sobrevivência, como forma de contar as coisas que nos passam pela cabeça e não temos ninguém a quem contá-las ou com quem desabafar.

A presença de Álvaro Uribe levantou muita expectação, pois havia quem estava à espera do presidente da Colômbia, embora não se explicasse muito bem a presença dele neste encontro, mas a realidade é que este Álvaro Uribe é, afortunadamente, o escritor mexicano, autor dum romance muito recomendável A Oficina do Tempo, e quem colocou como peça fundamental na literatura a figura do leitor ou da leitora e como peça prescindível o escritor ou a escritora, de facto quando um escritor morre a sua obra continua, e quando uma leitora pega num livro está a escrevê-lo novamente, pois a olhada de cada pessoa perante um escrito é única e singular.

Isto é brevemente o que está acontecer na Póvoa deVarzim, amanhã é o dia em que irão aparecer em cena os galegos, embora algum já esteja por cá e outros já sejam como de cá, vamos lá ver o que isso vai dar. Tenho a certeza de que há pessoas que têm água na boca a pensar nas Correntes, pois é verdadeiramente um encontro que recomendo a toda a gente que goste de ler, e nem só, que goste de sol e de praia. Para hoje ainda resta poesia.

Póvoa de Varzim, 12 de Fevereiro de 2009

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