Susana Sanches Arins: “Se desde os anos 80 tivéssemos um padrom reintegrador estou segura que a sorte do galego seria outra”



Marga Fraga

Marga Fraga

Neste ano 2021 há 40 anos que o galego passou a ser considerado língua co-oficial na Galiza, passando a ter um estatus legal que permitiria sair dos espaços informais e íntimos a que fora relagada pola ditadura franquista. Para analisar este período, estamos a realizar ao longo de todo o ano, umha série de entrevistas a diferentes agentes sociais para darem-nos a sua avaliaçom a respeito do processo, e também abrir possíveis novas vias de intervençom de cara ao futuro.
Desta volta entrevistamos a professora e escritora, Susana Arins.

Qual foi a melhor iniciativa nestes quarenta anos para melhorar o status do galego?
É difícil ter perspetiva, pois quase som os anos que eu tenho (47) e vêm-me à cabeça medidas tomadas tendo eu consciência delas, nom anteriores.
Suponho que a incorporaçom da língua galega ao ensino é a principal, uma medida falida polo boicote que os últimos governos do PP fizeram sobre ela. Eu sou das primeiras crianças que estudaram galego na escola, mesmo antes que outras da minha idade, acho que porque dei com uma escola sensível ao tema que colocou antes de ser obrigado o estudo da língua. E sou das pessoas, que existimos, galeguizadas na escola. Quer dizer, se falo galego é por essa atuaçom.

Eu sou das primeiras crianças que estudaram galego na escola, mesmo antes que outras da minha idade, acho que porque dei com uma escola sensível ao tema que colocou antes de ser obrigado o estudo da língua. E sou das pessoas, que existimos, galeguizadas na escola. Quer dizer, se falo galego é por essa atuaçom.

Anos depois acho que a do Xabarín Club foi uma medida que chegou de onde tinha que chegar aonde era necessária (da televisom pública para a povoaçom que menos usa a língua). Demostrou a força modelar que têm os meios de comunicaçom e como uma intervençom institucional pode mudar hábitos muito pessoais.

Se pudesses recuar no tempo, que mudarias para que a situação na atualidade fosse melhor?
É claro que a questom do padrom. Acho que perdemos muita força e tempos e vontades ao afastarem (uns) o português das nossas vidas e ao ter (outres) que reivindicá-lo. Se desde os anos 80 tivéssemos um padrom reintegrador estou segura que a sorte do galego seria outra. Mesmo melhor.

Que haveria que mudar a partir de agora para tentar minimizar e reverter a perda de falantes?
1. Fazer das escolas espaços de imersom linguística na língua galega. Que esta seja a protagonista única da educaçom das futuras cidadãs.
2. Contar com um programa de galeguizaçom (legendagem, interpretaçom, produçom) de produtos culturais/espetáculos. Nom devera repetir-se o facto de a Disney estrear um filme em espanhol, euskera e catalão e que nom esteja em galego. Sei que isto se contradiz, em parte, com a minha ideia do reintegracionismo, pois podemos gozar desses produtos em português, mas nom o vejo incompatível.

Acho que perdemos muita força e tempos e vontades ao afastarem (uns) o português das nossas vidas e ao ter (outres) que reivindicá-lo. Se desde os anos 80 tivéssemos um padrom reintegrador estou segura que a sorte do galego seria outra. Mesmo melhor.

Que papel achas que pode ter ou tivo a criaçom literária em relaçom à normalizaçom linguística?

Paula Gómez del Valle

Paula Gómez del Valle

Poder ler na tua língua qualquer produto literário (de alta qualidade, clássicos, mainstream, de bolso) é um direito cultural básico. E para uma língua desprezada, ser protagonista naquilo que consideramos alta cultura é uma das maneiras de fazê-la digna para as suas utentes.
É claro que depois está quem detenta o poder nesses espaços, que modelo de cultura constrói e quais as prioridades editoras. Acontece o mesmo com a televisom. Acho que no seu momento a criaçom da TVG foi um fito normalizador, mas o modelo atual de televisom nom contribui a ela, pois nom está a intervir para desfazer preconceitos (nalguns afonda) nem programas para as faixas etárias que mais precisam o galego.

Achas que seria possível que a nossa língua tivesse duas normas oficiais, uma similar à atual e outra ligada com as suas variedades internacionais?
Acho que neste momento é uma das poucas saídas que nos restam. Em 40 anos nom fizeram a jeito. Há que provar outras estratégias. Achegar-nos ao português devera ser uma delas. Também entendo que mudar o padrom, à brava, nestes momentos, nom seria o mais favorecedor para uma língua depauperada a nível social. Portanto, eliminar os atrancos às utentes dos padrons reintegracionistas e admitir estes como oficiais também seria uma soluçom.


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