Por José Ramom Pichel Campos
Lembro quando de pequeno nos telejornais diziam que na União Soviética existiam essas filas de prédios e casas todas iguais, no que pagavam alugueres ao proprietário, que era o Estado. A igualdade socialista da que desde cá a gente não gostava. Ser proprietário de cousas e objetos era realmente o que parecia nos diferenciava dos países de órbita comunista e termos cada um casas individuais diferentes próprias, conseguidas polo esforço de hipotecas intermináveis era mostra de orgulho.
Desde logo, a grande diferença era que no outro lado do muro de Berlim era evidente a falta de liberdade e aqui não era assim tão evidente, até que chegam as crises económicas e realmente se vê quem é quem manda, que por suposto não são os governos. Mais do que governar gerenciam o decidido polos que mandam, esses chamados mercados em termos gerais, que ninguém sabe quem são, que comem, ou a que hora levam os seus filhos à escola. Os que levamos toda a vida vivendo em países de órbita capitalista, com fases mais do Estado do Bem-estar e fases mais do Estado neoliberal, estamos muito afeitos a compreender o que significa ter objetos e ser proprietário de cousas. Amigos citadinos com filhos na escola contam-me que o primeiro que aprendem o seus filhos na escola, para além de começar a falar em espanhol e abandonar o galego, é a aprender a frase “Esto es mío.” A escola e a propriedade, a defesa frente o outro e os outros. E usamos também os maiores os possessivos para a nossa música ou os nossos filmes.
Mas o streaming está a dar a volta a estes possessivos Esta tecnologia que quer dizer “fluxo” é uma tecnologia que permite enviar informação multimédia normalmente vídeo e áudio de forma muito rápida sempre e quando tenhamos uma banda suficiente para receber toda esta informação no nosso computador. Em streaming já está muita gente a escutar música em tempo real sem ter de partilhá-la com sistemas p2p. Com esta tecnologia estamos a ser menos proprietários dos objetos e fazendo micro pagamentos temos acesso a música à que provavelmente não teríamos espaço na casa para tê-la armazenada. Possuir não é a filosofia, mas pagar por reproduzi-la. Parece que o que o capitalismo inventa (pagar por qualquer cousa que nunca será teu mas duma empresa) e pesie às semelhanças com a experiência socialista de (pagar por algo que nunca será teu mas do Estado) é sempre inovador e bom. O fluxo do rio do grande capital sempre avança, ao melhor porque a gente não lemos suficiente história.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
