MEDO AOS AVIÕES

Open source democracy



Há uns anos procurava alguém que estivera pensando na relação entre o software de código aberto (Open Source) e a democracia, e encontrei o livro de Douglas Ruskoff chamado Open Source democracy: How online communication is changing offline politics (Democracia de código aberto: Como a comunicação online está mudando a política offline). O título é um bom resumo de como a política online começa a substituir a offline.

Casualidades, um ano antes, tinha perguntado numa mesa redonda no que falavam diferentes representantes de partidos políticos galegos uma questão relacionada: “Pensades que a gente nova, acostumada a decidir e comunicar horizontalmente nas redes sociais, é capaz de compreender que se precisam intermediários/as verticais na política para tomar decisões que lhes afetam diariamente?”

A resposta derivou na importância de relacionar partidos políticos com as redes sociais e a necessidade desse diálogo fluido entre governantes e governados. E evidentemente é necessária esta relação, mas talvez já não chegue com isto.

Se calhar para as pessoas com hábitos de cultura digital já não é possível conceber uma geografia relacional baseada em relações desiguais, mas em relações baseadas nas lideranças efémeras.

Estamos a presenciar como vai desaparecendo uma sociedade baseada na ligação catódica (ainda hegemónica) frente uma sociedade baseada nas informações espasmódicas (que começam a disputar a hegemonia).

A primeira, baseada em receber a realidade já digerida através de televisões, rádios e jornais, sem arestas, um açúcar em forma de cubo para uma digestão rápida. A segunda, uma sociedade que gera certezas e incertezas ao mesmo ritmo de um espasmo, numa carreira de velocidade pola atenção das massas.

A primeira, um planeta de consumidores de opiniões. A segunda, uma galáxia de consumidores e produtores de opiniões. A primeira, um planeta de crentes com medo a perder espaços e tempos. A segunda, uma galáxia com medo a perder velocidades.

A primeira talvez acredite que a democracia online acaba nas votações de Eurovisão. A segunda talvez acredite que a democracia offline é uma visão velha para Europa.

Provavelmente, a solução será polo meio: uma democracia digital direta de código aberto, que pense que a codecisão online/offline é uma arma carregada de futuro. Como a poesia.

 

José Ramom Pichel

José Ramom Pichel

José Ramom Pichel Campos nasceu em Santiago de Compostela (1972), mas cresceu em Vigo. Durante anos foi o rosto visível de imaxin|software, empresa de tecnologia linguística focada sobretudo na tradução automática com projetos como Opentrad. Pichel é co-autor, com Valentim Fagim, de 'O galego é uma oportunidade / El gallego es una oportunidad'. Atualmente o seu interesse é ocupado polo audiovisual, com um projeto de documentário em andamento, 'Porta para o exterior', codirigido com Sabela Fernández.
José Ramom Pichel

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  • Ernesto V. Souza

    Online tornou hábito na vida… que seria dos que andamos longe sem internet? participar permite estar, ser parte…

  • http://www.madeiradeuz.org madeiradeuz

    Que bom seria ler mais vezes o José Ramom Pichel no PGL!!