Por José Ramom Pichel Campos
O uso de anglicismos é, às vezes, um meio para disfarçar as próprias incapacidades, mas o público em geral percebe que o baptizo anglicano é sempre para cousas sérias, os projetos valem a pena, o trabalho tem uma qualidade máxima, os trabalhadores têm as melhores condições e os diretivos de carro blindado, passeam o bandulho por mesas redondas, palestras, quer dizer, jantares de pé with a big nose.
Na construção de software, por exemplo, que se fazia de jeito artesanal pola maior parte das empresas, começou a ser implementado de jeito industrial, como previa a engenharia do software. E claro, em plena bebedeira de imaginação, melhor chamar-lhe por um nome inglês do que nas línguas próprias, pouco sério indeed. Assim, melhor nomear as empresas como “software factory”, empresas que desenvolvem software de jeito industrial, com os mesmos parâmetros, normas de qualidade, métricas de produção. Nas software factory, como nas outras, a matéria prima que entra é o cérebro dos clientes que pedem projetos para realizar sem saber exatamente o que querem, mas a ideia inicial do que querem. É como se um dono duma cafetaria entrasse pola porta e pedisse um recipiente para conter líquidos. Os engenheiros e as engenheiras demorariam tempo em saber qual é esse recipiente, e qual é o melhor recipiente que podem fazer no tempo que o cliente lhes indica. Após já saber o que os clientes querem, tudo muito organizado e medido, começam a trabalhar os analistas nesses requisitos iniciais, logo vão os desenhadores que desenham os sistemas de informação, as bases de dados, ou a diagramação. Posteriormente, o trabalho da programação que converte esses planos teóricos em software e, finalmente, os testadores comprovam que tudo funcione corretamente.
Assim funciona uma factoria de software. Converte ideias, linguagens, percepções iniciais, pontos de fuga num produto programado e testado, com toda a garantia da factoria, com toda a garantia da factoria de software, a unificação do mundo do cliente e dos engenheiros.
No entanto, há outras software factory no nosso mundo, que nunca lhes chamaríamos assim: deveríamos. Factorias ideológicas que funcionam sem sereias convertendo meninhos galego-falantes em espanhol-falantes e nunca ao contrário. Factorias que com ou sem decretos, sem que sobre elas se experimentem alternativas como percursos linguísticos multilingues como o modelo basco, levam-nos à perda provavelmente do mais valioso duma sociedade, o seu jeito de rir do mundo, o seu idioma.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
