Por José Ramom Pichel Campos
Homo ludens, aquele termo de Huizinga para descrever que as pessoas somos um animal que ao contrário do resto que só jogam quando crianças, durante toda a vida estamos jogando, e até diria eu que quando deixamos de brincar a vida é aborrecimento, repetição compulsiva, computação vital.
Assim, a nossa memória está cheia de jogos desde cativos que lembramos às vezes com velocidade, às vezes com brétemas, até por cheiros a humidade.
Tivemos jogos de outono, jogos de inverno, jogos de primavera e jogos de verão e sempre ou quase sempre brincando em comunidade, fazendo desportos coletivos até mais regulamentados, mas nem por isso menos interessantes.
Dentro dos jogos que eu lembro de pequeninho estão jogar a polis e cacos, guerras de cavalos onde imaginávamos habitar torneios medievais da seta preta, o jogo do guá ou o do curricho os dous com bolas, ou também tunear o trompo com pontas mais agudas para escachar o do contrário, jogar à barra onde um andava trás doutros e se eram finalmente tocados uniam-se a um barra que medrava e medrava até que só uma pessoa ficava e era a ganhadora.
Mas sobretudo o que mais lembro é aquelas coleções de cromos desde futebol até de animais prehistóricos, uma divisão do mundo. Havia quem gostávamos de conseguir o triceratops ou o tiranosaurus rex e outros que gostavam de jogadores de futebol com nomes como Santillana ou Migueli. O Celta estava em Segunda divisão. Para colecionar cromos um levava um taco que amostrava ao outro, quem por sua vez dizia aquilo de “Sipi” se já tinha o cromo, ou “Nopi” se não tinha.
Mas isso é voltar o passado, como quando os computadores eram terminais parvos sem disco rígido, só com écran, teclado e rato. Ou como leva feito Google com as suas aplicações ofimáticas através do Google documents, onde podemos criar documentos de texto, folhas de cálculo que na realidade não estão no nosso computador senão armazenadas nos servidores da multinacional.
Com o sistema operativo Chrome estaremos trabalhando aqui e agora, mas aqui é nos Estados Unidos e o agora segue sendo agora. Teremos a ideia de trabalhar localmente quando trabalharemos nos seus servidores. Sem estar em contra da computação distribuída, nem da rede, nem da tecnologia, nem da inovação, nem sequer de voltar a arquiteturas passadas, dá medo pensar em que as cousas estão muito longe de nós. Parece que mais uma vez as grandes empresas querem jogar com o homo ludens, mas não sabem que este tipo de Chrome(s) já os temos “sipi”.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
