ABRAIANTE

«Sim, sim»



No galego-português a palavra mais estendida para mostrar afirmaçom é sim. Contudo, os dicionários ainda registam umha variante arcaica si, sem nasal, que é a mais estendida na Galiza. No occitano figérom da sua partícula afirmativa, òc, o seu estandarte. Daí vem o nome da língua, occitano, e do território onde é falada, a Occitânia.

No francês existem duas maneira de dizer sim: oui, que é a forma usada na maioria de casos; e si, que é usada como resposta a frases negativas para evitar a ambiguidade. Algo semelhante acontece no sueco, que usa as palavras ja e jo, respetivamente. E aqui, ao sueco, era onde queria eu chegar.

Principalmente no norte da Suécia, ainda que também noutras partes do domínio linguístico, existe umha maneira peculiar de dizer sim. É um som inspiratório, feito com a boca pequena, como sorvendo por umha palhinha. Sim, sei que me explico perfeitamente e todas vós entendestes como é o som, mas de todas as maneiras deixo-vos este vídeo onde podedes vê-lo e escuitá-lo.

O fenómeno é chamado inandnings-jo (sim inspiratório), já que esse som é precisamente umha variante aspirada da palavra jo. Por isso, a forma mais correta de representá-lo na escrita é .jo, com o ponto diante para marcar a inspiraçom, ainda que coloquialmente as falantes de sueco escrevem schu, schwwp, schoup e outras variantes.

Nestes momentos seguro que estades fascinadas com um fenómeno tam curioso, mas é preciso ter um pouco de perspetiva. Pensai no vosso dia a dia, quando outra pessoa está a falar e queres dar-lhe a razom sem interrompê-la. Ou quando queredes dizer sim com a boca cheia. Que fazedes nesses casos? Pois a maioria de vós dizedes mm-hmm. Isto é, fazedes um som gutural, semelhante a a-há mas com a boca fechada, com a segunda sílaba mais aguda que a primeira. Ou se quigerdes enfatizar, esse mesmo mm-hmm pode ser mais bem um hi-hi, igualmente gutural e com a bocha fechada, como dizendo sim, sim.

Entom, que é mais fascinante, o mm-hmm que fazemos nós ou o .jo que fam as suecas? Pois vós pensai o que quigerdes, mas eu prefiro fazer ruidinhos com a boca fechadinha antes que andar a sorver o frio ar nórdico.

Jon Amil

Jon Amil

Jon Amil (Vigo, 1988) é um célebre escritor galego. As suas obras som geralmente distribuídas em formato post-it de maneira manuscrita, com desigual acolhida. Assim, relatos como "Deixo-che aqui os 10€ que che devia" fôrom bem recebidos, enquanto outros como "Mamã, saim com os meus amigos. Chegarei tarde. Nom esperes desperta", resultárom amplamente criticados. Atualmente deu o salto às novas tecnologias e as suas últimas obras, como "Merda! Gastou-se o butano e tivem que me duchar com água fria!", podem ser consultadas através do Twitter.
Jon Amil

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  • Ernesto V. Souza

    hmmm…. engenhoso e revirado….;)

  • Venâncio

    Muito interessante. Eu desconhecia inteiramente.

    Mas convém lembrar que o galego-português possui ainda outra maneira de dizer ‘sim’: é a repetição do verbo, a resposta-em-eco: «Queres? Quero», «Sabes? Sei».

    Isto está vivíssimo em Portugal e no Brasil, e suponho que também nos paleofalantes do galego (com desculpas para o inestético vocábulo). Mas receio que, na Galiza, se esteja a perder muito rápido. Será assim?

    • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

      Pois é. E ainda há outras características que o galaico-português herdou do galaico antigo e que ainda empregam de maneira residual os paleofalantes da Galiza e Norte de Portugal, mas que são ignoradas pelos gramáticos em ambos lados da raia/oceano.

      Porque se os nossos avôs respondem na afirmativa com o verbo, na negativa respondem com o objeto direto:

      – Trouxeste o livro?
      – Trouxem.

      Mas:

      – Trouxeste o livro?
      – O livro não o trouxem.

      Note-se que na Galiza, como em Gales, este responder com o objeto direto não tem connotações enfáticas como teria noutras línguas (o livro não o trouxem, mas trouxem o caderno), se não que é a resposta “natural”.

      • Venâncio

        Miro:

        Desconheço inteiramente, na fala de brasileiros e portugueses, a resposta ‘natural’, não-enfática com o objecto directo. (Desculpa a anotação biográfica: vivi entre os 10 e os 18 em Braga, rodeado de minhotos, durienses e trasmontanos, e com os ouvidos bem alerta do jovem alentejano-lisboeta… Aí aprendi, sim, dezenas de particularidades que depois descobri serem comuns com o galego). Concluo que esse tipo de resposta será, pois, como dizes, bastante residual.

        Habitual é, entre nós, a negativa com ‘eco’: «Queres? Não quero», «Sabes? Não sei».

        No Norte (e provavelmente também na Galiza), no caso de introduzir um pronome objecto directo, ouve-se ainda a forma «Não no quero», «Não no sei».

        • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

          Lei de Berto:

          «A medida que unha discusión online en galego sobre calquera tema avanza, a probabilidade de que se mencione o reintegracionismo/isolacionismo achégase a 1»

          http://www.abc.es/20100511/galicia-galicia/berto-20100511.html

          Porém, poucos sabem que existe um addendum a esta lei:

          «A medida que una discussão online em galego sobre língua avança, a probabilidade de que alguém diga “a miña abuela nunca tal dixo” ou “eu à miña abuela nunca tal lle escoitei” achega-se a 1»

          A fala das vilas e cidades está muito amouriscada, o galaico-português resiste nas aldeias e vilarejos e não apenas no Norte… Eu nas Beiras tenho escutado expressões que não são “bom português” e que me trouxeram lembranças da minha infância.

          Como por exemplo, durante uma partida de futebol infantil, um pai berrou “meteu-lhe um moco!” em troques do padrão “deu-lhe um soco” (ou uma pancada que não sei o que foi).

          • Venâncio

            Não percebo este surto de hipersensibilidade. Eu não neguei nada do que Miro Moman afirmou.

            Eu disse que desconhecia a construção em apreço. Concluí que ela deveria ser, como o dito sr. escreveu, “residual”. Ajuntei algumas informações que julguei de interesse. Fiz uma pergunta, indirecta, que aguardava resposta. Cliquei um “gosto” ao comentário.

            Vejo, porém, que sois (com algumas boas excepções) hipersensíveis ao que aqui escrevo. Vou-me pois retirar, não quero estragar o ambiente.

            O galego-português continuará a ser o meu trabalho diário, e a minha paixão.

            Obrigado, sempre, aos amigos. Temos outros meios de encontrar-nos.

          • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

            Fernando,

            Falando de hipersensibilidades… a minha resposta tencionava ser humorística. Lamento se não consegui 😉

            Abraço,

            Miro

          • Venâncio

            Miro,

            Aceito o abraço (de que fui notificado via email). Mas confesso dificuldade em perceber o ‘humor’ do segundo comentário.

            Considero o nosso idioma uma questão demasiado séria para insistir em que ele «resiste nas aldeias e vilarejos». Isso faz dele uma figurinha de presépio, muito aconchegante, e muito “ignorada pelos gramáticos”.

            Não, o nosso idioma é um conjunto de usos normativos, felizmente com traços fundamentais comuns a todos os seus falantes. A isso me referi nestas intervenções. Em tal contexto, fenómenos marginais, decerto fascinantes, continuam… marginais. Eles são às centenas, e alguns hão-de, forçosamente, reflectir antigas ligações, em antigos cenários, hoje confinados a meios rurais. Mas trata-se de epifenómenos. Aquilo que demonstra a identidade do nosso idioma são as suas sólidas estruturas.

            Foi uma valorização quase ‘mítica’ desses epifenómenos o que me pareceu um desafio ao que eu tinha afirmado. Daí a minha reacção.

            Um abraço.

        • Diego Bernal

          Faltou a forma brasileira popular

          Você quer sorvete?
          Quero não!

          😉

          • Venâncio

            Que teve origem na também muito corrente «Não quero não»…

          • Ernesto V. Souza

            Muito interessante, caros,

            Todas são variantes da mesma… com elementos eludidos, explícitos ou reiterados… em realidade os galegos somos mui mirados com estas cousas e a resposta varia em repertório em função dos elementos que contenha a pergunta e de quais se destaquem.

            Uma cousa que eu tenho observado nos falantes idosos é o imensamente cerimoniosos que são (eram?) e o atentos que estão com as hierarquias e portanto com os possíveis matizes. Os elementos que focaliza o emissor são os que focaliza o receptor na resposta…

          • Venâncio

            Existe, no brasileiro e no português europeu (e pergunto também se no galego), mais outra particularidade na resposta-em-eco. Trata-se de dar uma resposta afirmativa repetindo também, ainda e contidos na pergunta.

            ‒ Também foste?
            ‒ Também.

            ‒ Ainda tens?
            ‒ Ainda.

            ‒ Já pagaste?
            – Já.

          • Ernesto V. Souza

            Existe, a gente ainda diz… é um exemplo que reforça bem a minha teoria.

          • Venâncio

            Fico contente. Isto, e outras questões estruturais, é o que demonstra que o Galego-Português existe deveras, e que não é uma fase ‘superada’ 😉

          • ranhadoiro

            pois existe

          • Heitor Rodal

            Pois é. E – corrijam-me se me engano – é grande mágoa que essa extraordinária variedade de possibilidades gramaticais na hierarquização e matização das mensagens que é(ra) habitual na língua empregada tradicionalmente não seja transmitida nem fique convenientemente recolhida nas gramáticas galego-portuguesas.

            Suspeito que isso seja consequência de termos tomado modelos espanhóis ou franceses baseados na racionalização e categorização discreta das relações e dos próprios elementos que compõem uma língua.

          • Ernesto V. Souza

            Finalmente e quando tenhas tempo, vás ter de escrever essa gramática com uma arquitetura nova… imos chamá-lo projeto “la bauhaus” 😉

          • Heitor Rodal

            Ui Ernesto, quantas mãos e tempo para meter-se nessa branha! Tudo não, mas talvez riscar alguma cousa sobre isso.. 😉

          • ranhadoiro

            Há ainda um sim mais simpático brasileiro é:
            Pois não

          • ranhadoiro

            viria a ser como o resumo da galega: Pois como não vou querer