Séchu Sende: “Somos essencialmente animais poéticos”



A última novidade editorial da Através é O povo improvisador, um conjunto de relatos de Séchu Sende arredor da regueifa. Falamos com o autor sobre esta obra que chega sete anos depois da República das Palavras.

Levas tempo centrado na regueifa, junto ao Manolo Maseda, e suponho que cheio de experiências. Porque sentiste a necessidade de fazer O Povo improvisador?

O Projeto Regueifesta nasceu em 2015 entre o escola em que trabalhava Manolo  Maseda, em Baio, e o de Vila de Cruzes, onde trabalho eu. Levamos sete anos de odisseia, umha sucessom de aventuras cheias de ideias, emoçons e atividade, obstáculos e satisfaçons. Eu comecei a improvisar quando nasceu a minha primeira filha, para acompanhar a criança, e fum descobrindo o potencial com adolescentes. E aí mudou a minha vida. O povo improvisador é a minha forma de pôr por escrito parte destas vivências fundamentalmente relacionadas com a oralidade. É umha forma de tentar explicar por que a improvisaçom oral é um instrumento para mudar as pessoas, individual e coletivamente. Por exemplo: se a decadência do galego entre a gente nova é fundamentalmente oral, nom devemos dirigir para a oralidade as nossas forças mais criativas? Manolo e mais eu temos também gravaçons audiovisuais que algum dia se convertirám num filme, esperemos. Mas escrever um livro divulgador ou de aventuras foi a minha forma de participar, como escritor. Porque, claro, com isto da oralidade, às vezes esqueço que som escritor. 

Levamos sete anos de odisseia, umha sucessom de aventuras cheias de ideias, emoçons e atividade, obstáculos e satisfaçons. Eu comecei a improvisar quando nasceu a minha primeira filha, para acompanhar a criança, e fum descobrindo o potencial com adolescentes. E aí mudou a minha vida. O povo improvisador é a minha forma de pôr por escrito parte destas vivências fundamentalmente relacionadas com a oralidade.


Sem ser O povo improvisador um ensaio per se, fiquei assombrado já que não estamos afeitos a ler-te nessa conjuntura. Como foi esta nova experiência? Teremos um Séchu mais ensaísta no futuro?

Sempre há um momento reflexivo prévio à criaçom, seja poética ou narrativa, se falamos em termos de género, limites em que eu nom acredito muito. O Made in Galiza foi fruto dum processo intelectual, como o foi o lema Busco Amante Galego-Falante ou a Viagem ao Curdistám ou qualquer poema que escrevo para o TikTok. Mas no campo do repente galego, da poesia oral cantada,  eu queria fornecer um ponto de vista diferente, mais explicativo. Necessitava explicar como é possível que as crianças de 4 anos componham coplas improvisadas metricamente perfeitas, como a regueifa favorece a galeguizaçom na adolescência, como é possível que um texto que recolheu Marcial Valladares no século XIX forme parte dum dos grandes sucessos  musicais no XXI, como puido o bisneto de Breogám conquistar a Irlanda com um poema, porque a regueifa feminista é umha bomba de construçom maciça, como funciona a censura neste mundo, como a festa foi, e é, um elemento imprescindível na construçom nacional, como umha mulher barbuda pode ser um mito libertário para as crianças, como um neno cantor de pedra pode dar vida a umha aldeia, como funciona o sex-appeal da poesia na nossa espécie ou como descobrimos que Rosalia também improvisava… Os mais de 30 capítulos do livrinho som aventuras nesse sentido: somos um povo improvisador, sim, mas que supom improvisar? Como vivemos a poesia oral no século XXI? Neste livrinho tentei explicar e relatar algumhas das chaves que me guiam no meu trabalho como profe, mas também como pai, como companheiro, como ativista, como buscador… E ao mesmo tempo que estou a escrever isto tenho a sensaçom de que tenho muito mais que contar-vos, que no livro estám essas histórias que para mim fôrom interessantes e, porém, que fora do livro, ainda há muitíssimas mais histórias do Povo Improvisador que somos. Dalgum jeito, sei que este livro respira graças a muita gente, muitas pessoas que aparecem nas páginas e muitas outras que ficárom fora. Levava muitos anos sem publicar livro. Estivem mais centrado na minha vida familiar, ativista e profissional. Mas, por exemplo, ter a oportunidade de ver crescer a minhas filhas como repentistas nativas, ou acompanhar o meu alunado como regueifeiras, como poetas orais, era um mistério que precisava compreender. Sim, lim muitos livros, mergulhei-me em obras em inglês, italiano, espanhol, português, francês, de autoras de todo o planeta e de diferentes tempos… que me ajudarom a compreender que na poesia oral, na oralidade, está umha das chaves da evoluçom da nossa espécie e, aqui, na Galiza, é umha ferramenta para construirmo-nos como pessoas e como povo. Mas, fora dos livros, nessa vida na qual nos olhamos aos olhos e botamos um aturujo de vez em quando, especialmente em tempos de pandemia e deshumanizaçom, nós somos essencialmente animais poéticos. E falo da poesia em termos populares, comunicativos, sociais, com certeza, nom num sentido excludente, mas todo o contrário. A poesia foi expulsa da nossa vida por múltiplos interesses e misérias. Os poetas também temos que fazer autocrítica e isso daria para outro livro. Mas este livro é umha busca de explicaçons sobre como algo minoritário como a regueifa, algo em perigo de extinçom até fai mui poucos anos, tem um potencial criativo que cada vez mais gente conhece e aproveita. Nom lembro agora, desculpai, mas penso que foi Xian Naia quem dixo:  A revoluçom será regueifada. 

Como puido o bisneto de Breogám conquistar a Irlanda com um poema, porque a regueifa feminista é umha bomba de construçom maciça, como funciona a censura neste mundo, como a festa foi, e é, um elemento imprescindível na construçom nacional, como umha mulher barbuda pode ser um mito libertário para as crianças, como um neno cantor de pedra pode dar vida a umha aldeia, como funciona o sex-appeal da poesia na nossa espécie ou como descobrimos que Rosalia também improvisava…

Nós TV

Houve capítulos bem chocantes, por levar-nos a lugares desconhecidos, situações fora do comum, como pequenos contos independentes. Tal como em muitos discos de música, há em especial algum capítulo do que estejas mais orgulhoso?

Espero que entre as histórias deste livro haja histórias especiais para cada leitora, como sucedeu noutros livros. Cada história chega de forma diferente a cada quem. Sucedeu com o Made in Galiza, A República das Palavras ou com os meus poemas de Passa-montanhas, nas redes sociais. Continuo a escrever para gente diferente, para pessoas que eu nom som. Assim que algumhas dessas histórias que acontecem no mundo real e parecem ficçom, e algumha outra que está no limite entre a verdade e a mentira, as histórias do livro, som para mim histórias importantes. O livro tinha originalmente mais de 500 páginas. Do mesmo jeito que para a selecçom dos 40 relatos do Made in Galiza, por exemplo, escrevim perto de 200 contos ou rascunhos, este livro de 170 páginas é umha selecçom em que ficarom fora capítulos que para mim eram também especiais mas que aqui nom encaixavam. Se tiver que destacar um capítulo emocionante esse é o último, o bonnus track, O capador de Sesulfe, a transcriçom da entrevista em verso que figem a Manuel Garcia López, o Reinote, um improvisador oral de 91 anos que conhecim graças à Asociación Xermolos de Guitiriz, que me pediu que o entrevistasse. Foi umha tarde mágica, cheia de risos e brincadeiras. Quando estávamos preparando um segundo encontro entre as regueifeiras da Semente e mais ele chegou a quarentena. E despois o Reinote morreu. Essas vinte páginas som para mim mui, mui especiais porque o Capador de Sesulfe é um mito que representa umha geraçom de pessoas que falavam em verso que está a desaparecer. Afortunadamente, no livro aparece a nova geraçom de jovens que falam em verso, que tenhem por diante muito que construir e que conformarám novos mitos. 


Contas como foi a primeira vez que começaste a cantar habitualmente. Véu da mão da paternidade. Achas que a prática da música ou o canto (sem necessidade de ser profissional) nos conecta com algo especial? E a combinação com o improviso das letras?

Lembro perfeitamente: estava a mudar os cueiros da nena e comecei a mudar a letra dum tema de Manu Chao. Se nom lembro mal, Bocixa estava daquela gravando imagens de papás e mamás cantando às crianças e penso que um dia daqueles gravou-me cantando-lhe a Estrela quando lhe limpava o popó. Espero nom te-lo sonhado. Já nos dirá Boci. Mas sim, eu que nunca cantara, comecei a cantar como papá. Sempre admirei a gente que canta, fam pam para o coraçom com as palavras e a música. Alimentam-nos. Dam-nos a vida, diria minha mae. E eu quigem começar a dar-lhe as minhas palavras cantadas à nena porque nas cançons há vida, inteligência, humor, calor, amor… Eu nunca cantara no chuveiro, eh. De facto, eu som a demostraçom de que umha pessoa que nunca cantou pode transformar-se em reguefeiro, com trabalhinho e, sobretodo, com motivaçom. Eu queria demonstrar que, contra a opiniom tradicional, a improvisaçom nom é um “dom de deus”, algo “de pessoas escolhidas” ou “que se leva no sangue”. Todo o contrário, como profe descobrim, como muita gente antes, que qualquer pessoa pode aprender a cantar improvisando, qualquer criança de 3 anos, qualquer adolescente de 14, qualquer de nós. Porque improvisar cantando é um jogo, um brinquedo de palavras, umha festa nas cordas vogais que podemos fazer a soas ou acompanhadas. Cantar é mui especial. E se tés a experiência de cantar para outras pessoas, para um “público”, por exemplo, podes chegar a viver emoçons que nunca vivirás se nom vivires essa experiência. Pôr-se diante dum público e improvisar é algo mágico. Na sociedade atual é difícil de entender. Mas o processo emocional, afetivo, relacionado com a autoestima e com a seguridade pessoal que ativamos num processo assim é assombroso. Por outro lado, o que está a suceder com a regueifa a nível social é que no momento em que alguém improvisa com palavras essas palavras, quando consegue evitar os tópicos, som suas, som originais. E que melhor forma de mudar a nossa sociedade que com palavras de gente jovem, crianças, adolescentes, que improvisam com as suas ideias e emoçons, em galego, para o público, para os seus iguais, para o “povo”?
A regueifa é umha intervençom em direto, mesmo pode ter muito de guerrilha da comunicaçom porque é incontrolável, é um animal indomável, como explico num dos capítulos. Quando improvisamos estamos a buscar umha saída por um lugar por onde ninguém foi antes, a superar um obstáculo que temos diante, a abrir um caminho novo. Pessoal e coletivamente, improvisar em verso é assi. E, claro, todo isto dentro dum ambiente fundamental: a festa, o prazer, o encontro coletivo, a sororidade, o coletivismo… Como dizia o outro: A festa é o único caminho. E isto subscreve-o quem sabe que a luita é o outro único caminho…

Eu queria demonstrar que, contra a opiniom tradicional, a improvisaçom nom é um “dom de deus”, algo “de pessoas escolhidas” ou “que se leva no sangue”.


Que viagem gostarias que levassem consigo xs leitorxs de O Povo improvisador?

Saír da casa já é um perigo para algumha gente. Este ano, por vez primeira como profe, tivem um aluno e umha aluna que nom quigerom ir quatro dias de excursom ao País Basco porque tinham “medo”, porque era mui “longe da casa”. A sociedade atual, devido à pandemia e a outras cousas sobre as que falam as psicólogas sociais, fai-nos sentir medos que nom nos deixam viajar livremente. O Povo Improvisador foi escrito com a intençom de reunir forças para superar esses medos que nos deshumanizam. Tem o subtítulo de “Aventuras” porque em toda viagem há risco, peripécias inesperadas, perigos… mas quem nom gosta dumha boa aventura? Numha aventura temos que demonstrar quem somos, sabemos que vamos ter surpresas e, atençom, encontrar gente diferente a nós. E isso é mui necessário. Isso e saber que podemos equivocar-nos, aprender e continuar. 

Xiao Somoça
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