Se numa noite de inverno, um viageiro…

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Por Ernesto Vasques Souza

O nada mesmo, entre Ávila e Segóvia, após de passar, rochas, curvas e dura neve, os montes de Gredos e deixar bem longe as muralhas iluminadas e a saraivada. Estrada, de chuva e névoa. Retas, longas de Castela, desapiedado o solpor tão ocre entre as escuras nuvens, a gente é louca e passa zunindo. Paro para um café, é tarde, noite já de domingo e vou canso de guiar.

A vila é pequena e escura. Caminhos e casas de tijolo e telha, janelas protegidas com grades de ferro forjado, lama, água que se empoça nas ruas, algum lampião. Quartel da Guarda Civil, colégio, casas baixas. Uma torre de igreja que destaca, na praça à direita da “carretera nacional” que a atravessa. Detenho o carro diante do bar, travo, respiro, retiro a chave da ignição, luzes fora, desligo a música, volto a respirar.

O barzinho é tranquilo e quente, lareira no rural: velhos em grupo em conversa animada e secreta de vinho vermelho; moços e nem tanto dizendo verdades gargalheiras e contando piadas engenhosas, garrafinhas de cerveja e cola com rum. Não há mulheres. Saúdo, achego-me ao balcão e digo não alto: cortado — repito mais enfático ao moço que me mira como a viageiro extraviado: café, cortado, por favor.

Observo arredor os homens apurando o domingo, roupas misturadas de feriado, desporto, verde-caça-castanho e de tarefa; metidos nas suas cousas e conversas. O moço faz zaping autómato no televisor quase sem voz. Vejo no telemóvel qualquer cousa para fazer tempo.

Uma maldição retumba súbita como um tiro. Gente alporiçada, um homem levanta-se agitando os braços sobre a cabeça. E, o dono, suponho eu, do bar, detrás do balcão quase derrama o café que me traz enquanto da sua boca jorram selvagens impropérios. A gente quenta-se, insulta apontando para o recanto onde brilha o televisor, um velho bate com mão aberta e imensa, na mesa da partida que retumba. No eco irritado do silêncio, os vidros dos copos marcam pausa.

É Artur Mas que xorde a sorrir como se fosse o demo no ecrã; depois, é o rosto ladino de Felipe González que aparece: porém só Mas é que hipnotiza a gente e monopoliza os sonoros adjetivos.

Pergunto: é quanto? Deixo o euro, emborco de um grolo o café, digo um adeus em que ninguém repara, e saio pela porta de vidro esmerilado e madeira. Adentro ainda se ouvem juramentos.

Abro o carro, arranco, ligo as luzes, miro pelo espelho e desestaciono. Volto a escutar George Winston, piano melancólico, dou uma atenta olhada, sinalizo a manobra e volvo à estrada, Inverno.

Máis de Ernesto V. Souza