Sara Henriques (Porto, 1982) iniciou a sua carreira profissional e especialização em marionetas em 2003 enquanto atriz e marionetista residente no Teatro de Marionetas do Porto, companhia de referência nacional e internacional.
Em 2012 recuperou o repertório do Teatro Dom Roberto feito até 2010 por João Paulo Seara Cardoso. Em 2013 é membro fundador e dirige os campos artístico e produção da companhia Red Cloud Teatro de Marionetas, com que vai participar no festival “Titiribéria. Olhadas sobre os Cristovos” que se realiza em Teu entre 7 e 9 de dezembro com o espetáculo.
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Qual é a situação dos Robertos em Portugal?
Felizmente há mais bonecreiros agora do que há uns anos atrás. Quase se extinguiram nos anos 80. É um género que está novamente em crescimento. Mas o seu sentido mudou por várias razões, entre elas, o Dom Roberto está prestes a ser reconhecido Património Imaterial Português, resultado de todo o importante trabalho e esforço do Museu da Marioneta de Lisboa, na recolha de documentação, informação e testemunhos sobre o tema. Quase todos os bonecreiros atuam profissionalmente no âmbito do teatro de marionetas, dando a este género um carater menos marginal. Vejo este género como uma relíquia da cultura popular tradicional Portuguesa de marionetas que faz recordar os mais velhos e mostra-se às novas gerações com a mesma carga mágica que sempre pairou no cume da barraca do Teatro Dom Roberto.
Quase todos os festivais de marionetas em Portugal, independentemente da sua visão artística, incluem a apresentação do Dom Roberto!
O “Roberteiro” sempre foi considerado alguém à margem da sociedade, um observador capaz de agir através da sua arte, e é essa a minha visão das marionetas, sem a religiosidade do termo.
Qual foi a importância social deste espetáculo?
Este género chegou a Portugal pelas companhias itinerantes que se fizeram apresentar por toda a Europa. Terá sido em Itália, com o Concílio de Trento no século XV, quando as marionetas foram banidas das representações religiosas em igrejas que terão surgido companhias itinerantes alastrando-se por todo o continente europeu.
O género foi reconhecido por diferentes nomes de Norte a Sul de Portugal como : “Zé Broas”, “Robertos de Santo Aleixo”, “Robertos de Caixa Murrada”, “Títeres” ou “Robertos”.
O Teatro Dom Roberto reflete um tempo em que o espaço público servia de verdadeiro convívio e partilha social, onde memórias e identidades de um povo se encontravam transmintindo um olhar crítico sobre o mundo que o cercava e rindo sarcasticamente dos valores do seu tempo ridicularizando assim conceitos e preconceitos sobre a religião, a moral, os bons costumes, a autoridade e até a própria morte, sempre de forma bastante lúdica.
Quais são a suas principais características?
Espectáculo itinerante, montado e apresentado pelo marionetista conhecido por “palheta”, “roberteiro”, “bonecreiro” ou “titeriteiro” que apresentava o espetáculo em feiras, praias, mercados, praças e jardins. Apreciado por crianças, pela mágica manipulação, e pelo seu cariz muito pouco didáctico. Os adultos também se rendiam aos encantos do teatro Dom Roberto! Apreciando o espectáculo como crianças, e subentendendo todas as suas mensagens subliminares.
Essas marionetas de luva identificadas por “fantoches”, “bonecos” ou “robertos” eram manipulados de dentro de uma “barraca” ou se quiserem “guarita” onde o “roberteiro” escondido desempenhava a sua função cheio de rigor e ritmo. Em comparação com outros países , tradicionalmente, o Dom Roberto é apresentado com muito menos texto e todas as personagens têm a voz da palheta. O espetáculo vive do rigor e dinâmica da manipulação acompanhados por muitas onomatopeias e palavras com “rrrrrrrs” que facilitam a pernuncia com a palheta.
Têm várias caraterísticas fisionómicas comuns: são de uma madeira leve mas forte para aguentar as pauladas! Aliás, as mais utilizadas são pinho, oliveira, nogueira, figueira verde, e amieiro. Amieiro é a madeira utilizada para fazer as máscaras tradicionais do Entrudo de Lazarim “Os Caretos”, e, é precisamente a mesma que serviu para fazer os nossos Robertos (Red Cloud Teatro de Marionetas). A madeira, talhada com olhos esbugalhados e sorriso sarcástico; o nariz vermelho e cara cor-de-rosa são as principais características dos Robertos em Portugal.
Tradicionalmente as cabeças eram esculpidas e pintadas pelo próprio bonecreiro, no nosso caso não se sucedeu assim. Rui Rodrigues escultor, artista plástico e também diretor da Red Cloud TM , desenhou, talhou e pintou os nossos “Robertos”.
Por experiência sei que “Os Robertos” continuam a não deixar o seu público indiferente, seja qual for a sua faixa etária.
Como vê, em geral, a situação dos títeres na sociedade portuguesa?
Na generalidade existem mais companhias de marionetas, contudo observo com muito interesse o teatro ou dança que exploram este género trazendo novos olhares, de quem não obedece às “regras” préconcebidas do trabalho com marionetas, pois aprecio a reflexão sobre a manipulação no seu sentido abrangente. O “Roberteiro” sempre foi considerado alguém à margem da sociedade, um observador capaz de agir através da sua arte, e é essa a minha visão das marionetas, sem a religiosidade do termo.
Felizmente dispomos de melhores meios de comunicação e trabalho o que nos permite continuar e acompanhar a exploração infinita de posibilidades com focos artísticos bem diferentes em cada trabalho.
Por outro lado Portugal é um país de pequena dimensão, na ponta da Europa, e consequentemente com menos industria teatral, o que faz com que muitos artistas e bonecreiros itinerantes cumpram a função de educadores sociais, sendo que fora dos polos centrais, na descentralização e democratização do produto artístico, acabamos por ter um papel preponderante na educação de um povo. Em que na maioria das vezes sozinhos implementamos hábitos culturais e sensibilizamos novas gerações para este género.
João Paulo Seara Cardoso transformou o personagem do Roberto no herói do povo que desafia e vence a própria morte.
Há renovaçom no género?
Sim, alguns roberteiros já construiram, adaptaram e recuperaram novas histórias como por exemplo Manuel Dias, José Gil e João Costa.
Quais são os principais desafios para manter esta tradição?
O Dom Roberto teve a sua grande expansão entre os anos 40 e 60, o próprio reportório continha chavões da sociedade daquela época, como por exemplo, a Tourada à Portuguesa e o Barbeiro, entre muitas outras histórias (algumas já foram recuperadas e outras que acredito nem temos ainda ouvido falar). Estas sessões não competiam com a evolução tecnológica, que hoje em dia nos obrigam a tomar as devidas precauções, como por exemplo o uso de amplificação, pois os espaços públicos são muito mais barulhentos.
Tornou-se matéria de pesquisa e a sua representação, normalmente, é contextualizada diante do público pelos próprios “roberteiros”.
O grande desafio seria, a meu ver, através do seu teor sarcástico com uma visão aguçada apostar numa crítica sobre do que nos rodeia atualmente, não perdendo o seu cariz popular, lúdico e aparentemente naífe. Os espetáculos tradicionais tinham um público de todas as idades. Continua a ser assim, ou os Robertos são também confinados ao público exclusivamente infantil? Por experiência sei que “Os Robertos” continuam a não deixar o seu público indiferente, seja qual for a sua faixa etária. É um espetáculo que pode ser apreciado sob vários pontos de vista.
Como marionetista com ampla experiência em distintas técnicas de manipulação, quais são as principais qualidades do teatro de marionetas de luva?
Fiquei muito contente por ter aprendido esta técnica, que é muito exigente e que depende muito do rigor de manipulação, pois o marionetista está completamente escondido atrás de uma barraca onde lhe é praticamente impossível encarar o público a não ser pela mestria das mãos. Por vezes o público não quer acreditar que o espetáculo é apresentado por uma só pessoa, dando-lhe um carácter mesterioso e mágico.
Que faz dessa técnica tão popular? Qual é a sua principal dificuldade?
O teatro Dom Roberto é um teatro lúdico, sarcástico e do povo. A excelencia das suas apresentações ocorre com a repetição das próprias apresentações, é rigoroso e claro vive muito dos jogos de “pauladas” entre os personagens, o que para mentes mais fundamentalistas poderá causar alguma estranheza.
João Paulo Seara Cardoso tomou do mestre António Dias o testemunho para continuar com o teatro de Dom Roberto, mas ao mesmo tempo foi um grande renovador do teatro de marionetas português.
Nos anos 80, o Teatro Dom Roberto, quase se extinguiu, mas felizmente graças a João Paulo Seara Cardoso, que, teve a oportunidade de acompanhar um dos últimos Mestres desse tempo António Dias, houve uma recuperação do Teatro Dom Roberto, já sob um olhar, que desde o início da sua atividade revelava mestria em tudo o que se relacionava com teatro de marionetas. João Paulo Seara Cardoso, também acompanhando o seu tempo, por essa época, transformou o personagem do Roberto no herói do povo que desafia e vence a própria morte. Inicialmente antecedia-se às suas apresentações a “Trupe Maravilha” , grupo que formou e pertenceu antes de ter fundado o Teatro de Marionetas do Porto.
Tanto eu com o Rui tivemos a feliz oportunidade de nos especializarmos em marionetas (em áreas diferentes, eu como atriz e o Rui como escultor/construtor) sob a direção de João Paulo Seara Cardoso, na sua Companhia. Durante dez anos participei em vinte e cinco novas produções teatrais, o que nos transmitiu muito do que desenvolvemos na atualidade com a Red Cloud TM. Obviamente tive um conhecimento próximo do que que se fazia no país dentro do género e sem qualquer dúvida reconheço que João Paulo Seara Cardoso foi um grande renovador do teatro de marionetas em Portugal, facto refletido no acervo do Museu das Marionetas do Porto.
Qual é a relação entre tradição e inovação, são incompatíveis?
Sim! Como se costuma dizer “A tradição é Modernização”! É completamente impossível desenvolver uma obra sem um olhar aguçado sobre um tema, seja ele tradicional ou não. Inevitávelmente quem se lança a criar vai deixar o seu cunho a marca do seu tempo, porque está nele. Ao reproducir uma obra tradicional, eu vou divulgá-la e apresentá-la de acordo com os meios disponiveis da atualidade, isto só por si já tem um impacto diferente no espectador e até na visão do próprio criador da obra. Nada é estanque, tudo está em movimiento. Sou fã da sabedoria tradicional das marionetas aplicada em soluções de productos artísticos contemporáneos, que nos surpreendem e transportam para diferentes patamares de percepção e sentido.
Seria possível mudar o repertório do teatro dos Robertos, incorporar novas histórias e personagens, sem desvirtuar a sua essência?
Acredito que sim, desde que se faça permanecer o seu teor sarcástico, visão aguçada, cariz popular, lúdico e aparentemente naífe.



