Por José Ramom Pichel Campos
Dizem que os grandes inventos são os que logo se vem com a perspectiva do tempo. Ou doutro jeito, qual é que é o maior invento, se é que se lhe pode chamar assim a qualquer objecto?, qual é que é o maior invento da história da humanidade? Para alguns foram os aviões, esses pássaros míticos que nos conectam em poucas horas com outros movimentos, mas nem tanto, para outros o maior invento foi se calhar a sesta, as questões oníricas, o descanso quotidiano do dia, o lugar para calmar as batalhas. Mas para muitos o maior invento da humanidade foram se calhar as máquinas de lavar, eliminando a escravatura de viver para lavar. As máquinas, sempre as máquinas.
Agora que a palavra na moda em computação é a de ser distribuída, colaborativa, ou intuitiva, com a aparição de redes sociais cibernéticas -parece que as redes sociais foram um invento de há poucos anos- mudaram o jeito de abordar como computar milhões de dados. Passamos de modelos com grandes supercomputadores a aproveitar a computação de milhões de pequenos computadores.
Assim, têm-se feito cálculos de quanto tempo usam as pessoas ao redor do mundo em jogar ao jogo do solitário e a quantidade de minutos por PC são incríveis. A partir daí, só faltou que a gente pensara em como aproveitar todo este tempo para realizar cômputos que servissem para o resto da humanidade. Um exemplo disto foi o projecto SETI para procurar vida inteligente fora da Terra, para o qual qualquer pessoa com um PC pode contribuir baixando o protector de écrã da NASA, que se encarregará de aproveitar o tempo de lazer para processar dados e enviá-los os servidores da agência espacial americana.
Isto também chegou à música, eis o Reactable, que é um instrumento colaborativo electrónico com um tabuleiro que se pode tocar, viva o tacto! Sobre ele muitos músicos ao mesmo tempo podem compartilhar, rotar objectos físicos como sintetizadores, filtros, moduladores de sons que geram espaços sonoros entre eles, todo num ambiente de ficção científica. A música que trabalha sempre nas fronteiras chamada Björk, fijo que este projecto da Universidade Pompeu i Fabra, fora um dos seus instrumentos preferidos no novo disco, a fronteira não existe, a colaboração é a fórmula.
Por isso agora que o mundo está cheio de propagandas de talheres de autoconhecimento e de bem-estar psicosocial, voltar a repensar e experimentar com a música gera uma terapia global. Que a computação crie novos instrumentos se calhar é o melhor invento, ou não.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
