Ragtime

Partilhar

Por Ernesto Vasques Souza


Deus nos dia con que rirmos e non sejan fillos charros.

Provérbios, Hernan Nuñez.

 

DIDASCÁLIA: [Salão nobre, paredes com velhos óleos e altas janelas entre frisos escancarados que já foram démodé no seu tempo post-neoclássico. Madeiras escurecidas e maciças apontando gravidade, corredor de tapete, veludo gasto e vermelhão rosado entre bancadas altas e até mesa doutoral de cornucópias lavradas sobre escano moderno.

As personagens vestem como no Kabuki, vão exageradas nas cores e muito maquilhadas, no fundo são monicreques e valem para qualquer época, ano ou grande ato, são tipos eternos no solar galaico. Público que aplaude e anda a besbelhar e personagens principais são como os parlamentos os mesmos sempre, só que, por causa da altíssima endogamia e acumulação de cargos em instituições, vão rotando e variando as possições na cena.

É preciso piano de fundo, mas como meter um piano neste texto ficava complicado deixo-lhes esta música ambiente: sentem nas suas cadeiras e contemplem o ritmo da curta, que é de pícaros ainda que não tenha cena de caos e perseguição final.]

 

Caminhou com a hesitação medida dos velhos caloteiros, como quem sabe que percorrer com humildade o tapete de veludo termina em louvanças, abraços, palavras belas, uma linda festa e mais parabéns. Passou cumprimentando com o olhar e sorriu entre flashes, cúmplice, família e amizades do grémio, velhos colegas, políticos novos e pessoalidades do mundo das letras, sabendo-se ele próprio “persoeiro” e peça na engrenagem.

Este pequeno sucesso era o passo definitivo na sua já longa carreira na ascensão nos altos andares. De cativo já apontava, seu pai sabia caciquear na vila e ele não seria menos na Compostela estudantil dos anos bons; e de moço, que bem soubera onde se achegar e levar a pasta do catedrático. E bem claro que de homem feito, com as suas responsabilidades fora capaz da facada, quanto de se desfazer de estorvos e importunidades, como do alouminho favoroso que já se cobraria logo.

Cheirava o poder e as suas mudanças, soubera nadar e ir furando com o seu esforço e conhecimento na endogamia universitária a que sempre protegia um poder que queria justificações imediatas. E todos sabiam que chegaria ainda mais longe. Uma vida em ascensão na cultura galega. Um porco de pé, definitivamente consagrado.

A gravata ficava-lhe porém um pouco apertada naquela camisa que lhe ficava estranhamente grande, o fato um bocadinho também frouxo no corpo desajustado, e no rosto, aquela magreza era pouco natural, a cor da pele bocadinho cinzenta. Mas aí estava, lendo nessas folhas e centro do mundo.

O discurso foi – a gente sabe – brilhante, académico de tradição e a resposta eruditamente vaporosa, como também corresponde. Depois ainda houve uma improvisação da Presidência, redonda na oratória, amplosa no dizer lírico e ademão, magnífica com aquela voz assustadora de ecos épicos remotíssimos.

Aos aplausos seguiram umas breves palavras do Responsável da Educação, que mais que com a voz falava com os olhos e com acenos que ecoavam as afirmações mudas com a cabeça do Delegado da Cultura. Terminou o mesmíssimo chefe do governo autonómico, que se manifestando mais uma vez ágil e demonstrativo na sua campanha permanente para vender-se-nos como gestor infalível explicou mais outra vez a intrínseca galeguidade dos Galegos e o exemplo exemplar dos nossos exemplares devanceiros de quem os presentes eram dignos sucessores e continuadores, para concluir com aquilo de contem com todo o apoio do governo ainda nestes tempos de crise (e que se traduz em que se calhar cairiam alguns dinheiros).

Neste justo momento todos sorriram felizes. Houve aplausos e brindes, mais aplausos, bicos e depois mãos apertas e muitas conversas e mais risos baixos. Pois entre iguais era tudo simpatia populacheira, que deixavam a fingida gravidade dos doutos doutores para alheios, moços de servir, subalternos e aqueles pretendentes brilhantes e sempre perigosos.

Foram alguns e depois outros saindo da sala de jantar improvisada em função das suas agendas imaginárias, da míngua dos petiscos ou do aborrecimento; ficando sós os anfitriões e os mais achegados em conversas de cotovelos pegados, que as economias afogavam e talvez houvesse alguns orçamentinhos que repartir, correram mais risos entre informações maldizentes de diversa utilidade e mesmo feiraram-se postos e prebendas que repartir para algum filho parvo.

Máis de Ernesto V. Souza