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Pregom do Queijo de Arçua 2010

PGL – Há pouco mais de umha semana decorreu na localidade de Arçua a XXXV ediçom da sobejamente conhecida Festa do Queijo. Como pregoeiro estivo o escritor Séchu Sende, quem pronunciou um pregom de grande actualidade ainda hoje polas suas referências à língua.

Foi, como anunciava já a primeira estrofe, um pregom proferido com «emoçom funda», mas também «sentido do humor», ainda que para os representantes do Partido Popular arçuano foi algo «vergonhento».

Coincidindo com a publicitaçom do novo Decreto do galego no ensino, do Portal Galego da Língua contactamos o autor de Made in Galiza para compartilhar com as nossas leitoras e leitores a ironia e saber fazer do escritor.

Pregom da XXXV Festa do Queijo de Arçua

(por Séchu Sende)

É para mim umha honra
compartir convosco este pregom,
com emoçom funda
e um pouco de sentido do humor.

Parabéns a toda a gente
que com muito trabalho
conseguiu que a Festa cumprisse
35 anos.

Ole a frescura
o queijo de Arçua,
é cousa boa
o queijo da Ulhoa

É parte da cultura
que vivim desde neno:
a prova do queijo
na ponta do cuitelo
e o sorriso da mulher
a falar galego

Este queijo é bom amigo
do pam e do vinho.
É um queijo companheiro
do mel, as nozes e o marmelo

E ademais é um queijo elegante,
um queijo pret-a-porter
com o seu pano cinguido
que nom tem o de gruyere

É mui bom o requeijo
da paróquia de Brandeso.
Do queijo nom te aborres
se vas a Burres.
O queijo sabe a crema
na paróquia de Lema
e em Maroxo
o queijo é mui cremoso

Que rico em Melha
o queijo com o mel das abelhas.
E com marmelo de maçá
na paróquia de Branzá,
e com mel com filhoas
em Figueiroa,
e com anchovas e pam
em Dombodám

Que nom sobre
o queijo em Pantinhobre!
Comim queijo com maçá
na paróquia de Brançá.
Em Tronceda e Castanheda
o queijo o corpo aleda,
e em Rendal
nengum queijo sabe mal.

Casam os queijos com os vinhos
na paróquia de Vinhós
De bom queijo e melhor dente,
a gente de Boente.
Prados de queijos mil
os de Viladavil.

Chegam a todos os confins
os queijos de Oins.
Em Vilantime,
prova o queijo e di-me.
Em Campos e Calvos
o queijo fai-nos bravos
Em Santa Maria
o queijo é cousa fina.
E em Sam Martinho,
queijos ao caminho

Nas terras do Ulha,
nas duas ribeiras,
fai-se um queijo de primeira.
O queijo é a melhor marca
de toda a comarca

De Arçua ao Pino,
de Antas a Mesia,
de Tabuada a Boi Morto,
de Boqueixom a Touro,
o queijo é de ouro.

Este nosso queijo
com denominaçom de origem
já se vende
em mais de vinte países.

E com cabaça caramelizada,
com foie-gras ou com sardinhas
chegou à alta cozinha.

Quem sabe muito de vacas
é o presidente da Junta,
em Nóia visitou umha granja
e recordá-lo ainda me assusta:

O gandeiro apresentou-lhe
às vacas Maruja e Paca
e Feijó perguntou:
Por quê som femininos
todos os nomes das vacas?

O gandeiro ante tal inteligência
explicou-lho com a boca aberta:
Porque todas as vacas som fêmeas

Se esta vaca fosse macho
seria boi
e chamaria-se Paco

Feijó pom-me medo.
Se estudasse primária
reprovaria Conhecimento do Meio.

Quando vaias mercar
quando vaias eligir[1]
pensa no trabalhinho
que vai da vaca ao tetrabrick

Há muito gasto, sabede-lo bem
o penso, o mantimento
da granja
e o gasóleo para o John Deere.

Baixam os ingressos,
baixam os salários
dos gandeiros,
nunca dos empresários

Aqui sabedes mui bem
quem rouba e mente:
a máfia que baixa e baixa
o preço do leite.

Isto nom tem cabeça nem pés
dizem que é leite galego
e vendem leite francês.

Orgulho e dignidade
enchem as estradas
quando a gente do leite
sai em tractorada

Merecem as nossas louvanças:
quando vertem polo cham
o leite das marcas brancas
os gandeiros defendem o seu pam,
defendem o pam dos seus filhos.

Passa no cine e nos livros
e passa na vida real
para mudar as cousas
há que se revoltar.

Parece que nom interessa falar
da crise do sector leiteiro,
o silêncio dalguns jornais
compra-se com dinheiro

Nom me creio nada eu
da sua objectividade,
muita prensa obedece
a quem paga a publicidade

Muito olho com os jornais
que dim defender causas justas
e vivem de subvençons
por ser a voz da Junta

E agora quero-vos falar
doutro tema de actualidade
com denominaçom de origem,
produto galego de qualidade

Tenhem mais em comum
do que parece
a crise da língua
e a crise do leite.

Eu petisco do queijo castelhano
e do que vem de Londres ou Paris,
mas sempre estará primeiro
o queijo do país.

Baixam o preço do leite
e queriam rebaixar o galego,
por certo,
no ensino a 33 por cento.

E agora vou falar do passado,
vou pôr-me um pouco sério,
Dixo há muitos anos Nebrija:
La lengua es compañera del imperio

E tivérom muita perícia
Isabel e Fernando
na sua “Doma y castración
del Reino de Galicia”

-Por donde empezamos el castigo?
-Producem mucho aceite…
cortemos sus olivos

Dérom-nos bem com a estaca
menos mal que nom lhes deu
por proibir-nos as vacas…

Nom estava nos seus planos
que continuássemos a falar galego
despois de 500 anos.

Mas a gente do campo
contra toda adversidade
falou a nossa língua
com fidelidade

O idioma nom só é umha herdança
que recebemos dos antergos,
é tamém um empréstimo
que lhes devemos aos netos.

A língua une
e se nom a falas
tu mesm@ te excluis,
tu mesmo te separas

Há quem leva toda a vida aqui
e dim he dicho, había hecho,
com tempos compostos,
em castelám de Madrid.

Há quem vive em Vigo
no bairro do Berbés
e quer falar
como se vivesse em Lavapiés.

E ainda há gentes por aqui
que lhe dim El Carvalhino ao Carvalhinho,
como nos tempos de Paquinho,
e a Melide, chamam-lhe Milli,

Aos que dim que o galego é inútil
digamos-lhes Si, ho, si,
se nom falas a língua da sociedade onde vives
inútil és ti.

Se nom lhes falas galego
às nenas e nenos
dás-lhes a entender
que o nosso vale menos.

Estava o outro dia no súper
com a minha filha Estrela
e dixem-lhe à fruteira:
– Vou levar um quilo de tangerinas
Ela dixo mui cantarina
-Ai que bonita é a nena,
Hola, y como te llamas, cuchi, cuchi
Eu nom me puidem reprimir:
– Senhora, fale-lhe galego
que a nena nom é de Madrid

Mas o pior de todo isto
é que é o próprio governo
quem difunde os prejuízos,
arre demo!

O conselheiro de cultura
dixo que a nossa língua limita,
e mais de 200 escritores dixérom-lhe
Demita!

Os idiomas nom limitam
limitam as pessoas
que pensam que valem mais
umhas línguas que outras.

Dim que querem o equilíbrio
e rim como se fosse umha broma
mas no Parlamento aprovam leis
que debilitam o idioma.

Isto vai de mal em pior
a Junta deu eliminado
a prova de galego
nas oposiçons a professor.

E num hospital da Corunha
o médico dixo-lhe à paciente
Si no me hablas en castellano
no te entiendo.

Se nom é imprescindível
que os médicos saibam a língua de aqui
que apliquem essa norma
tamém em Madrid.

Nom pedimos nada estrafalário:
médico, juíza ou polícia,
tem a obriga de saber galego
quem seja funcionário.

A quem vindes de fora
vou-vos dizer umha cousa
está ao alcance da mao
a nossa língua é vossa.

Se queres conhecer
a nossa forma de ser,
de rir, cantar e pensar
a nossa língua hás de falar.

Isso é assi
na China e mais aqui,
porque afortunadamente
as culturas fam-nos diferentes

Já o dizia Manuel António:
a gente nova deve eligir[2]:
ir costa abaixo pola história
ou erguer-se cara ao porvir.

Farám-vos sentir estranhos
porque falades galego
e receberedes pressons
para falar castelhano

sobre todo se és rapaza…
ainda há muito tópico,
muito machismo
muita ignorância.

Estás mas guapa si hablas castellano
dixo-lhe um tipo em Santiago
a umha rapaza de Merza
e ela: Ti és parvo ou comes merda.

É umha aventura emocionante
ser galego-falante

Conheço umha moça
que fai umha cousa mui rara
fala sempre em galego
agás em Berska e em Zara

E hoje quero dizer-vos
que @ mais importante
de tod@s @s responsáveis políticos
é cada um de nós.

Somos os responsáveis,
eu, tu, ela, todas e todos,
do presente e do futuro
da língua do nosso povo.

por isso cumpre participar
na escola, na rua, no trabalho,
na festa, na associaçom
e no movimento social.

No caminho do idioma
se tivesse que escolher
prefiro menos poemas
e mais galego nos cinemas.

Está mui bem a poesia
mas a língua precisa mais
das novas tecnologias.

E tam bom como umha novela
com toda a seguridade
é escrever em galego
a nossa publicidade.

E tam útil como um ensaio
pode ser atopar
o talom de compra
do supermercado

Tamém se fai cultura
se fazemos em galego
as nossas facturas

Levemos a língua à Internet,
ao twenty, ao facebook
aos emails e aos blogs.

Fagamos em galego
pintadas com spray,
poesia,
banda desenhada, audiovisual,
pop, punk ou rap.

A força provém da uniom
e para pular polo nosso
a palavra-chave é
colaboraçom.

Aqui vai a despedida
aqui vai a derradeira,
viva o queijo da Ulhoa
e que vaia bem na feira

Arde-lhe o eixo!
Viva a Festa do Queijo!
A festa continua

Viva o Queijo de Arçua!

 


 

Nota

[1] [2] Ainda que nestes contextos na norma culta do galego devemos usar a palavra «escolher», optou-se deliberadamente por «eligir» por questons de rima.

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