QUOD NIHIL SCITUR

Poblacht na hÉireann…



Para o Guilhelme Rego

A escuma dourada da cerveja moura, com a sua filigrana espera na mesa de madeira fingidamente gasta pelo tratamento imitando uso. Móveis e objetos falsos de decoração, livros de atrezzo, tudo ao jeito que a gente pensa um clube britânico, ou uma nação, deve ser. Contemplo a Guinness autêntica com o seu trevo e enquanto pousa, deixo-me rir ao sabor da conversa.

Dous galegos, a rirem, num barzinho. Em qualquer parte, num pseudo-pub irlandês em cidade castelhana. Penumbra e pouca gente no princípio do serão.

A conversa percorre o mundo e o submundo, colonialismos, imaginários de pátrias, elites e subversivos, mapas da terra, os marcos da língua, da cultura, da política, das famílias, da comida, da paisagem, a arquitetura e das plantas. Temas de cada conversa que aos poucos aumentam no tenteio das confidências: os fracassos, os desterros, a vida do emigrado, dos livros possíveis futuros e do passado viageiro. Tudo se mistura e baralha, ao ritmo cantigueiro da retranca.

easter-1916Em sendo quatro, ainda podíamos montar um outro centro galego. – Com cinco, já dava para uma cisão dissidente. Mais gargalhadas e algum outro dito sentencioso. O leitor sabe bem como são estas conversas profundamente submersas numa codificação cultural difícil de imitar.

Ao lado direito da mesa, iluminado, numa moldura também de madeira escurecida um fac-símile barato do famoso édito do Governo Provisório da República da Irlanda. Poblacht na heireann… sabe a glória dizê-lo e beber logo bem da pinta.

Fala-se da Irlanda, de celtismos, dos Mortos e poetas da Páscoa, dos Connolly, de Collins, do de Valera, de Wilde, de Joyce, de literatura, de velhos filmes e algo de Kiberd e do seu lúcido Invenção de Irlanda. Brinda-se por qualquer um papel que algum dia possa estar emoldurado, – um original dos abaixo-assinados da ILP Paz Andrade, podia ser – e logopor que não? por algo há que começar…  e deriva a conversa em mais gargalhadas, balizadas com marcos imaginários e mais Guinness.

Ernesto V. Souza

Ernesto V. Souza

(Crunha, 1970). Formado como filólogo, publicou algum trabalho sobre história, contexto político e cultural do livro galego das primeiras décadas do século XX. Em 2005 começou a colaborar com o PGL e a vincular-se ao reintegracionismo. É sócio da Associaçom Galega da Língua e membro da Academia Galega da Língua Portuguesa; entre 2016 e 2019 foi Diretor do Portal Galego da Língua.
Ernesto V. Souza

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  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    O da ILP/Lei é só o começo e a cousa teria de melhorar muito para imitar a Irlanda que anda. Quantas conversas como esta terão acontecido entre dous galegos pelo
    mundo adiante. Mas esta é um pouco particular porque chega instantaneamente. E haverá de tudo, menos esses “livros possíveis futuros” só imaginados…

    • Ernesto V. Souza

      Pois… não sabes o [email protected] que seriam, às nossas conversas!… A verdade que [email protected] há bastantes em Valladolid, mas gente da nossa corda…

      Antes estava o genial do Joam Paz, mas afortudamente para ele retornou… e, francamente, não lhe desejo a mais ninguém que venha nos fazer companhia a Valhadolid… nem a nenhuma outra parte longe da Galiza…

  • Ernesto V. Souza

    “remember, remember
    the sixth of dezember”

    XD… Muito acaido para a data… por algo há que começar…

  • http://miromoman.wordpress.com/ Miro Moman

    Exportar pubs é desde há tempo uma das indústrias mais boiantes da Irlanda.

    Pergunto-me se, quando penduram manifestos independentistas em Valhadolid, sabem o que estão a fazer 😉

    Também me pergunto o que opinariam os vallisoletanos se se detiverem a ler o manifesto irlandês sob a perspectiva do processo catalão. Em fim, perguntas e mais perguntas… e ironias…

    • Ernesto V. Souza

      e se nos escutaram… imagina… XD

  • ranhadoiro

    poblacht na h galizann: Povo da Galiza! …Acorda já…
    Acho que este 6 de dezembro imos começar espriguiçando–nos

    • Salvador Mourelo

      Esquece-te do “povo”, ninguém precisa de povo, apenas
      precisamos de gente. O “povo” é um conceito místico-religioso inapreensível. O “pobo” pertence à FPG e aos Ferrins e às redes escarlatinosas, é todo deles. Ou ao BNG, eles são o “pobo/povo”. Ou ao PP, o autêntico “Pueblo”, que não por acaso são o partido “popular”. Ou mesmo à República “Popular” da China, a mais “populosa” de todas as repúblicas. Nós somos apenas gente. Tu, eu, o Ernesto, o Miro, a Isabel, o Guilhelme (que não conheço pessoalmente, mas que também deve ser gente)… Sermos gente e construirmos cousas de gente, para gente, com gente, já é suficiente desafio. Para eles todo o povo/pobo/Pueblo. Nós apenas gente, gente de aqui e de acolá.
      É tão fácil dizer-se “povo” e tão difícil ser-se “gente”!

      • ranhadoiro

        gostei e muito da sua pontoalização

      • Galician

        Sem entrar a valorar o de “povo” (não tenho uma ideia definida com esse termo) a mim o que me parece uma ranciada decimonónica é o termo “pátria”: “dia da pátria” “patriota”…

        • Salvador Mourelo

          É curioso como os nacionalistas dos Estados constituídos costumam apresentar-se a si próprios como “não nacionalistas”, como simples “patriotas”. O “patriotismo” (o próprio) estaria carregado de qualidades positivas e virtudes públicas, ao passo que o “nacionalismo” (dos outros) seria uma força irracional e perigosa, um vírus ainda mais nocivo do que o Ébola que se iria infiltrando sub-repticiamente nos desacautelados cidadãos.
          Mas a “pátria” não é mais do que a terra do “pai”, o que remete a um imaginário nacional de uma grande família presidida pelo “pater familias”, uma sociedade “patriarcal”. Mesmo um termo aparentemente inocente como “fraternidade” envolve uma referência em último termo a indivíduos “irmanados” por um pai/pátria comum. É uma solidariedade não universal mas restrita apenas aos semelhantes, aos filhos do mesmo pai, aos “nossos”.
          Sim, com razão, o termo “pátria” é bem rançoso.

          • Ernesto V. Souza

            Bem dito meu, um prazer te ler… eu por isso, entre outras cousas, quanto a nações, pátrias e outros elementos de atrezzo e negócio… encontro-me perfeitamente situado numa perplexidade, irónica e bocadinho ceptica, mas muito criativa.

          • Galician

            Certamente o “nacionalismo” dos estados constituídos é o nacionalismo banal (cotidiano, de senso comúm) que define Michael Billig no seu ensaio do mesmo nome, quando mais desapercibido passe, mais efectivo é: http://es.wikipedia.org/wiki/Nacionalismo_banal

  • Guilhelme Rego Árias

    Muito obrigado Caro. Pois que seria de nós, sem as tertúlias,as gargalhadas a retranca e as pintas no Dublin Bay, neste páramo castelhano…..Ernesto, grande amigo e sábio do que muito aprendo. Obrigado também ao Miro……..