Por José Ramom Pichel Campos
Há quem diz que quem não tem uma zona oculta na sua vida ou mente ou é realmente não é interessante. É boa a piada para além de certa, toda essa parte que nunca amostramos a ninguém, que pode ser ínfima ou nalguns dos casos enorme, como um mundo. Essa parte é como o negativo duma foto, aquela que só na escuridão, com luzes vermelhas e com um processo de paciência é capaz de sair, e nem sempre tem de ser questões complexas, mas aquela intimidade que não queremos compartilhar com ninguém.
Mas agora com tudo isto da tecnologia os programas avançados de fotografia, essa parte, a íntima, torna mesmo mais digerível para o resto dos humanos que acedem a ela. Aplicações como o Gimp em software livre ou o Photoshop refigerom o mundo, e já nada é o que realmente é.
Tudo é alvo de cliques, camadas, grises, apagadores reais. Lembramos perfeitamente aquela imagem de Dom Manuel no que parecia vinte anos mais novo do que realmente era. A tecnologia é um lugar para reflectir. Por exemplo ferramentas como as anteriores fariam possível que uma das mais míticas paradas protestantes em Irlanda do Norte, a realizada pola Orange Order, a que todos sabemos que atravessa os bairros Católicos, tornassem por exemplo numas paragens que no canto de ter faixas de cor laranja fossem verdes e por tanto poderiam simbolizar a cor de unidade de Irlanda. A partir desse momento uma parada de protesto converter-se-ia numa festa de irlandeses percorrendo bairros sem matiz nenhum, a reconciliação em Irlanda graças à tecnologia que mente, estaria mais perto.
E é que às vezes a tecnologia quando falam de prejudicial para a saúde, depende para a saúde de quem. As mentiras piedosas, como mudar de cor, podem tornar perigos em alegrias, agressividade em dança.
No mês de Fevereiro pessoas vinculadas a GaBi, AVT e sectores do Partido Popular viram a Compostela fazer também uma parada laranja, azul ou rosa na que nos explicarão a todos que o espanhol está perseguido na Galiza, justo no lugar mais conscientizado com salvar o nosso idioma. Que simpáticos.
Quando tenham cá a marcha, gostaria de ser capaz de ter um computador gigante, com uma aplicação fotográfica que quando visualize as caras de todos estes coitados perseguidos por falar espanhol na Galiza, só realice a função mágica de saber que agacham detrás desse seu nome bilingue tão aparentemente inofensivo. Porque com este jogo do espanhol perseguido ao que nos querem levar, todos sabemos que ou mentem ou não são nada interessantes.
(*) Artigo publicado na coluna Medo aos aviões, do jornal Galicia Hoxe.
