O.R. – Com apenas um ano de vida, a Agarimar é um dos projetos do associacionismo galego com mais procura, quiçá porque como indica Paulo Tobio, pai e membro da associação, “acertamos com o projeto respondendo a uma necessidade social que estava sem cobrir”.
Obradoiros e jogos para as crianças e debate e formação para mães e pais são só parte das variadas atividades que leva a cabo a Agarimar por todo o País, promovendo uma educação que supere os valores do franquismo. E, sobretudo, uma educação com a responsabilidade de quem sabe que “os nenos e as nenas são o futuro do nosso povo”.
NGZ: Como nasce a ideia de criar a Agarimar e qual é a acolhimento que recebeu o projeto?
Paulo Tobio: A Agarimar nasceu em junho do ano passado para responder à necessidade de mães e pais galegos de uma organização que promova uma criança alternativa. Primeiro entramos em contato com os diferentes grupos de lactação locais, que são muitos, e começamos a trabalhar. O acolhimento foi mui bom, medramos muitíssimo em número em apenas um ano, o que confirma que responde a uma procura social que estava sem preencher.
Entre a gente que começamos com o projeto havia pessoas de diferentes comarcas, e isso foi algo de que beneficiou, porque as atividades estão bem repartidas por todo o País. É certo que há comarcas mais desenvolvidas como Vigo, mas isso responde ao maior número de sócias e ao aluguer do local. No que respeita ao funcionamento, a nossa dinâmica é comarcal, sempre através dos grupos de lactação.
NGZ: Nos dias 3 e 4 de julho realizastes os Encontros de mães e pais em Monte Roso, qual foi o resultado?
PT: Ficamos mui contentes. Fazemos um cada período estacional, e cada vez somos mais gente. Há atividades, palestras, debates… Mas o objetivo principal é a convivência, falar, partilhar experiências. Relacionarmo-nos e que as nossas filhas e filhos o façam também, brincando com outras crianças que falam a sua mesma língua.
NGZ: Um dos aspetos em que mais insistides nas vossas atividades é precisamente o aleitamento materno, qual é perceção social deste tema na atualidade?
PT: Está-se volvendo à lactação, superando o retrocesso social que existiu na geraçom educada polo franquismo, que introduziu o biberão e o leite artificial. Em geral, estamos a recuperar os valores da criança prévios à época franquista, não só neste aspeto, valores mais sãos e respeitosos com a mãe e o neno ou nena. Fecha-se uma página no tratamento da infância. A do aleitamento materno é uma questão cada vez mais demandada, com muitas associações em toda a Galiza como deLeite, em Vigo, em que também estou. Reunimo-nos cada quinze dias, mas nas semanas intermédias atendemos a mães que têm dúvidas sobre este tema, e não há semana nenhuma sem trabalho!
NGZ: O Estado espanhol é um dos pontos onde mais cesarianas se praticam e o parto está mais medicalizado, tema em que também trabalhades. Existem alternativas acessíveis na atualidade ou ainda é uma utopia?
PT: Há alternativas nas quais o parto é mais natural, com menor intervenção médica. Antes alguns hospitais do País como o de Ourense estavam declarados Amigos das Crianças pola UNESCO, respeitando algo mais estes temas. O do Salnês era um bom exemplo, mas estão colocar-se numerosos entraves que dificultam o serviço. Reduz-se pessoal e proíbe-se que gente que não seja dessa comarca vá ter lá a sua criança. Parir em casa é a outra alternativa para quem quer um parto mais humanizado; muitas mulheres da Agarimar já o experimentaram com resultados mui bons. O problema é o dinheiro, porque cada vez há menos parteiras, mas se interessa acabam-se encontrando oportunidades. Nem sequer é preciso que esteja sempre a parteira, às vezes avondam as doulas.
NGZ: Outro dos temas que discutistes em mais de uma ocasião nos debates da Agarimar é o da educação alternativa. Como avaliades a aceitação social desta questão a dia de hoje, sendo quiçá uma das mais controvertidas?
PT: Assumir socialmente a educação livre custa mais por agora. Há famílias que se juntam e abrem espaços para que as crianças medrem com uns valores alternativos aos que oferece o sistema educativo tradicional. Preferem chamar-se acompanhantes e não mestres, derrubando o conceito de autoridade. Na Corunha o fenómeno está estendido, a gente conhece casos sempre. Em Vigo, por desgraça, não é assim; apenas existe um em Bembrive. O certo é que a educação livre está cada vez mais demandada, é questão de tempo que se estenda mais. Passa como com tudo: as novas correntes têm primeiro êxito na Europa, depois em zonas mais industrializadas como na Catalunha, e por último chegam aqui.
NGZ: Quais são na vossa opinião as perspectivas de futuro com respeito ao tratamento e conceção da infância?
PT: Penso que temos motivos para sermos optimistas. Isto vai a mais, trata-se de uma demanda social que evolui com o tempo. Associações como a nossa servem para acelerar esses processos de penetração de novas ideias educativas a todos os níveis, baseando-nos nos valores pré-franquistas.
(*) Entrevista publicada originalmente no n.º 92 do Novas da Galiza.
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