Os Circos do Inferno

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Por Ernesto Vázquez Souza

Run Boy Run! This world is not made for you

Run Boy Run! They’re trying to catch you

Run Boy Run! Running is a victory

Run Boy Run! Beauty lays behind the hills

WoodKid

 

 

Nove eram nove os circos do inferno, e seguindo a lógica estruturada das plataformas de videojogo de zumbis semelha que sair deles é bem complicado.

Uma parte do ativismo linguístico ainda está laiando no seu inferno de frustração e desespero, devorando-se a si próprio em vez de atacar os caciques que tudo o esmagam e os musgosos trolls, trasnos ou goblins que se parapeitam administrativos e aduaneiros em inoportunos fortes desde os que disparam enlentecedores cubos de papelagem e prosa; enquanto outra parte decidiu movimentar-se de nível e anda tratando de se normalizar no segundo, que é onde se acham os normalizadores: os lunáticos e os fanáticos, onde a brutalidade é norma consensuada e Caim o seu profeta. Também neste há ogros acadêmicos, caciques e trasnos verdecentes, como o nível é mais difícil, andam mais emboscados.

A partir desta plataforma, a paisagem é cada vez mais escura, e, em função dos pontos, o Minotauro tende a aparecer, enlouquecido e corredor com a sua estela vermelha cortante e tóxica baba amarela, de qualquer recanto e socato. Há também cada vez mais desses fortes debatentes e repetitivos que são muito cansinos de assaltar, especialmente quando defendidos por trolls, para continuar caminho e mouros pássaros da desesperança que tiram muita vida quando nos impactam.

Sair desta volta é cousa boa, estratégica, mas lá fica boa parte do conjunto ainda e não apenas porque no circo a seguir e no que estamos, o do discurso pragmático sem recursos, o da internacionalização sem estado e o das miragens e salões de espelho da lusofonia, é difícil; há múltiplas armadilhas, ogros tamanhos, bandas de orcs muito agressivas, trolls e mais troleiros e passagens que nos levam de volta uma e outra vez aos níveis anteriores. Cá os caciques esmagadores e os musgosos desmancha-prazeres têm ainda uma forma evoluída e não menos perigosa: os meigos e os altos meigos estadistas (que são mais pequenos e dissimulados, porém mais perigosos com esses corações de duro aço e voz tão sedutora).

Bem que desde este momento temos auxiliares ocasionais e começamos a dispor de ferramentas muito úteis para saltar mais longe e correr mais rápido. Pode-se também trocar elementos ou receber valiosa ajuda de outros jogadores que on-line uniram-se a partida, mas não são doados de identificar na sua alienação e pelo avatar que os mascara. Chegados a este nível alguns já descobrimos, aos poucos, que este é apenas um cerco mais, e é mester continuarmos.

Mas o que há após o quarto dos muros e onde se agacha a passagem é cousa desconhecida. O muro é alto como uma longa noite de pedra. Trás dele o balbordo descomunal e apontam-se fortificadas, mouras e assustadoras torres, bastiões e fortalezas, cheias de bandeiras, nenhuma nossa. Arredor do muro, às carreiras, as luzes poucas, os espelhos, o tempo escasso e os zumbis, goblins, trasnos, trolls, caciques, orcs, minotauros, pássaros, fortes, ogros, meigos, fanáticos, cães, loucos e outros jogadores, no seu combater incessante não deixam enxergar o conjunto.

Só dá para esquivar e correr estilo pac-man entanto se procura qualquer sustento, ferramentas e auxiliares e se vai carregando em bónus, vida ou pontos a língua. E está também o problema paralisante para tantos de não sabermos se é que neste inferno subimos ou é que descemos.

 

Máis de Ernesto V. Souza