Por Ernesto Vázquez Souza
Dices que nada se crea?
No te importe, con el barro
de la tierra, haz una copa
para que beba tu hermano.
Antonio Machado
Há um tempo achei uma gravura calcográfica, marca do impressor Nicolas Boum, num livro de 1616. Nela um homem barbado fugia de uma cidade em chamas. Numa legenda punha:
“Omnia mea mecum porto” /Todo o meu porto comigo/.
Arredor do homem outros fugiam. Mas longe de plano, como distantes e atafegados pela carga de sacos e objetos, em escorços esquisitos. O homem agachava apenas sob a túnica um livro.

Achei fascinadora a gravura, e procurei os significados, pois algo quereria dizer. E tanto. A verdade é que as marcas de impressor como as suas vidas e peripécias (especialmente nesses anos) são bem simbólicas e interessantes.
A cena representa o quadro histórico lendário da queda e evacuação da vila grega de Priene, entanto um exército inimigo entrava já pela cidade, que recolheram entre outros, Satyrus ou Cícero nos seus Paradoxos*.
Neste passo célebre historiado, Bias de Priene, que passou por ser o mais astuto de entre os Sete sábios da Grécia, respostou destarte aos seus convizinhos estranhados pela ausência de qualquer equipagem em homem tão abastado.
O sábio, sonado como advogado e homem muito prático apresentou-se ligeiro, apenas a cuidar do único imprescindível e insubstituível. Capaz de valorar rápida e judiciosamente o fundamental e portanto capaz, entanto há vida, de encetar uma e outra vez.
Esta estória e sentência do sábio ou filósofo pode-se topar em várias versões, tanto no mundo greco-latino, como no folclore da Índia ou mesmo mais ao Oriente. Levemente diferente porquanto se coloca num naufrágio, ou após um cataclismo, mas sempre a conclusão é a mesma todos choram as suas perdas, salvo o homem sábio, que nada perdera pois tudo levava consigo.
Provavelmente os galegos, especialmente os da diáspora, saibamos muito bem ler esta história e singularmente quando nestes momentos a nau naufraga, ou ainda há réplicas do tremor a vibrar mais uma vez e a cidade arde, tomada mais uma vez pela barbárie. Não é momento de se parar a analisar as causas da desfeita, nem apenas de tratar de salvar tantas cousas que nos atam e retardam a partida.
É momento de sorrirmos, um bocadinho ironistas, e dizer: prontos. Sabendo que o de mais valor que temos reside intacto, num espaço que apenas a morte pode destruir. É momento de andar tão longe como nos levem os nossos passos e esforços, pois apenas de nós, experiência, memória, palavras e mãos, precisamos para construir.
* “Nec non saepe laudabo sapientem illum, Biantem, ut opinor, qui numeratur in septem; cuius quom patriam Prienam cepisset hostis ceterique ita fugerent, ut multa de suis rebus asportarent, cum esset admonitus a quodam, ut idem ipse faceret, ‘Ego vero’, inquit, ‘facio; nam omnia bona mea mecum porto.’ (Cicero: Paradoxa 1, 1, 8 )
