Por Pablo Gamalho Otero
Não vou analisar aqui em pormenor a situação precária do galego dentro do novo decreto (ainda em fase de rascunho) do plurilinguismo no ensino não universitário. Basta dizer que não há uma mudança qualitativa ao respeito da situação anterior. Passamos dum mínimo de 50% de cadeiras em galego a um mínimo de 33%. O que se está a discutir, desde há vinte anos, é se a matemática deve ou não ser ministrada em galego. Não se discute o modelo. Continuamos portanto a ter um modelo de imersão parcial da língua minorizada. De facto, este modelo leva instaurado desde o primeiro decreto da era Fraga e a sociedade (o galeguismo incluído) vê-o como algo natural, algo inserido para sempre, ‘por la gracia de Dios‘, no nosso sistema de valores. Os nossos decretadores interiorizaram este modelo de tal jeito que já não querem ver como fracassou (ou está a fracassar) noutros países: Quebeque, País Basco… Mas bom, isto será o tema doutro artigo. Em realidade, queria falar doutra cousa.
O novo decreto sim contém algo significativamente ‘novo’: os conselhos escolares podem permitir que um terço das cadeiras se ministrem em línguas estrangeiras. É óbvio que os decretadores estão a pensar no Inglês, mas o texto do decreto só utiliza o termo ‘língua(s) estrangeira(s)’. O reintegracionismo tem aqui uma oportunidade que não deveria deixar escapar. Qualquer professor de primária e secundária, que não leccione Matemática ou Conhecimento do Médio, tem a possibilidade de submeter ao Conselho a proposta de ministrar a sua cadeira em Português. Para convencer os seus companheiros pode argumentar que a sua decisão favorece a quota do galego dentro do centro. Ao deixar de dar as suas classes em galego permitiria que uma outra cadeira leccionada em castelhano passe a ser em galego sem que o centro quebre o equilíbrio entre as duas línguas.
É mais, um professor galeguista, embora não reintegracionista, que foi obrigado a dar as suas aulas em castelhano por razões de equilíbrio no centro, tem a possibilidade de reciclar-se no Português em vez de rebelar-se contra as normas. Existem outras muitas razões para optar polo Português. De facto, a imersão numa língua ‘estrangeira’ como o Português é a única opção realista na Galiza. A imersão em Inglês é um ‘brindis al sol‘. Onde se vão encontrar docentes que impartam as suas cadeiras em Inglês sem nem sequer os professores de língua inglesa utilizam métodos de imersão nas suas aulas? A imersão em Português, no entanto, não só é possível para o caso de professores reintegracionistas, mas também para aqueles que dediquem um mês a ler o livro do nosso Valentim Fagim, Do Ñ para o NH, e a consultar o Manual Galego de Língua e estilo. Após umas poucas semanas, poderão amanhar-se nas aulas. Também poderão utilizar, para actualizar os seus apontamentos, o transliterador por2gal do Alberto Garcia, a versão port2gal da USC ou o tradutor OpenTrad de Imaxin.
Na minha opinião, o reintegracionimo pode expandir-se e abrir-se à sociedade aproveitando os buracos das normas, em vez de suicidar-se na luta corpo a corpo contra um exército muito mais numeroso.
