O grande altar de Pérgamo: sombras de mármore

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Y-enton os dous persoaxes foron alumeados pol-a luz da lua nacente n-o hemisferio da noite prestando ó xigante y-o dios magno deslumbramento dos seus raios que tiñan unha espresión evocadora de tempos antigos e inenarrabres, soio vista n-o ensoño dos que os teñan mirado pretéritamente.

Primitivo R. Sanjurjo. Íthaca. Primaveira do 1921. De Xúpiter y-os xigantes. Capítulo XXXVIII das cenas da Gigantomaquia. P. 10. Revista Nós: Boletim mensal da cultura galega. Número 7 – 25 de Outubro de 1921.

Na árvore das quatro gerações de deuses e gigantes floresce um nascente sentimento de emoção. Mais livres e humanas, cada figura incorpora ao mármore, o ai que a rodeia. E na extensão mais longa do friso do altar, no lado este, a luta do deus Zeus e a deusa Atena com o gigante Porfírio e o gigante Alcioneu ressalta pelo retrato da sua força ingénita. O V que ambos deuses conformam resulta um ponto de alta visibilidade no que diz respeita à entrada e saída do vasto espaço no que se ergue o altar. Na sua composição influi, como está referido no primeiro artigo, a disposição das esculturas da deusa Atena e o deus Poseidão na pugna pelo governo da Ática no frontão do Templo do Partenão. Mas no friso da luta brotam, à vez, dous conjuntos entre si diferentes e unidos.

1º. Os gigantes, o deus Zeus e o gigante Porfírio. A deusa Atena, a deusa Nice, o gigante Alcioneu e a deusa Geia.
1º. Os gigantes, o deus Zeus e o gigante Porfírio. A deusa Atena, a deusa Nice, o gigante Alcioneu e a deusa Geia.

Ao lado esquerdo, o deus Zeus está a ponto de lançar o seu lôstrego aos gigantes que o rodeiam. Filho da deusa Reia e o deus Cronos, no seu poder dispõe dos lôstregos forjados pelos ciclopes Arges, Brontes e Estéropes. A lado dele estão mal-feridos dous gigantes que erguem o rosto para vê-lo. Em realidade o iminente lôstrego do deus vai dirigido de cara ao gigante Porfírio, um dos líderes dos Gigantes. Éle ainda se tem de pé, e dirige o seu braço vestido com uma grande pele de leão ao deus para afastá-lo. As quatro figuras fazem uma complexa composição em V, assim como um triângulo no qual o vértice mais alto é a cabeça do deus. A linguagem visual está definida pela energia que desprendem as distintas posturas corporais; o gigante da esquerda é representado de perfil contemplando o deus; o seguinte gigante gira em escorço erguendo o rosto ao rosto da divindade, o gigante Porfírio acha-se de costas olhando diretamente ao deus Zeus e, finalmente, o próprio deus aparece de maneira frontal, dando um passo que rompe no friso os limites espaciais.

Na composição, o deus aparece representado como uma figura importante. Mas ao lado da composição, outro elemento opõe as figuras entre elas: o modelado da anatomia. A presença e ausência de prendas permite observar o naturalismo físico com o que estão trabalhados. Falamos duma conceção do corpo em linha com as obras do escultor Lísipo (circa 370 a.C-318 a.C), nas quais é possível apreçar a vitalidade, a solidez do corpo e o aspecto dos músculos en diferentes estados.

A influencia deste artista é de grande relevância no conceito escultórico do altar de Pérgamo, nem só pelo novo modelado das figuras e as inovadoras possibilidades de perspetiva que permitem. A sua influência aparece na evocação duma obra sua como o Heracles Farnese (325 a.C) no friso do Rei Télefo na representação do semideus Héracles. É um corpo que encarna um ideal de beleza masculino que eleva a medida plenitude da força muscular que representam homens como o Doríforo (450-440 a.C) do escultor Policleto. Na luta da Gigantomaquia os corpos despidos dos gigantes emitem vigor em cada contração dos músculos e nas formas ósseas. Mas a vez contrastam com o torso do deus Zeus. O deus está vestido com uma túnica que lhe envolve os quadris e que cai pelas pernas. As acentuadas linhas da teia ao caminhar põem em destaque a tridimensionalidade do torso. Todo o corpo por meio deste ênfase desprende um impulso e uma decisão que o distingue claramente das outras três figuras.

2º. O deus Zeus, rodeado dos gigantes.
2º. O deus Zeus, rodeado dos gigantes.

Junto a eles vê-se a deusa Atena, descendente da titánide Têmis e o deus Zeus. É a mais reverenciada das deusas do Reino de Pérgamo. Na imagem vê-se como é coroada pela deusa Nice, a divindade da Vitoria, quem voa para colocar com cerimonia o sacro diadema do Triunfo na cabeça da deusa. No enfrentamento de ambos, a filha do Tonante, vendo que o gigante após ser atacado recebia nova força da sua mãe, a deusa Geia, ao pousar e pôr-se em contato com a terra, decide colhê-lo pelo cabelo para imobilizá-lo.

A deusa caminha com ligeireza e rapidez, elevando com o seu braço o gigante Alcioneu com o fim de que não toque a superfície terrestre. Ele é o outro líder dos gigantes. Seguindo as ordens da sua senhora, a serpe consagrada morde ferozmente o seu peito, sem que possa receber auxilio. O gigante, ao igual que todos os gigantes presentes a exceção de Oto, é fruto da deusa Geia e do sangue do deus Úrano que tinha caído ao ser cortados os seus genitais pelo filho de ambos, o deus Crónos. A deidade primigénia, a deusa Geia, ao escutar o som da agonia do seu filho abre as placas da Terra e alça os braços tentando auxiliar ao gigante e, ao mesmo tempo, clamar a deusa Atena para que cesse a luta e interrompa a morte do seu filho.

3º. O semideus Héracles atende a Télefo.
3º. O semideus Héracles atende a Télefo.

Esta visão é uma das composições mais sofisticadas do friso. A deusa Atena e o gigante Alcioneu formam um V no qual os eixos indicam movimentos contrários. A deusa ao caminhar traslada a força visual a parte direita, o gigante ao voar para libertar-se de cara o lado esquerdo. A deusa Nice ascende no ar da direita à esquerda, a deusa Geia contrariamente mexe-se de esquerda a direita seguindo os passos da deusa Atena. As figuras da deusa Geia e o gigante Alcioneu estão sendo separadas, as das deusas Atena e Nice vem-se no momento de entrar em contato. As quatro figuras fazem parte de uma contraposição de diagonais: o gigante Alcioneu e a deusa Nice estabelecem uma dupla diagonal dirigida à esquerda e as deusas Atena e Geia uma dupla diagonal dirigida à direita. Desta maneira o caráter frontal e os gestos de cada figura inscrevem a deusa Atena no centro dum grande círculo que marca o ritmo redondeado da composição. Estamos a falar dum conceito estético completamente oposto ao pensado para o deus Zeus, tendo assim uma imaxem distintiva em todo o friso.

A obra mostra a través da composição o efeito da inércia e a gravidade do corpo suspendido do gigante , o voo da deusa Nice e o passo ágil das deusas Atena e Geia. Mas a sua cuidada qualidade plástica deve-se em grande medida ao emprego da técnica do trépano. É uma técnica que permite trabalhar a pedra de tal maneira que a figura apresenta incisões, cortes e ocos marcados mas que também permite criar uma infinita e cambiante gama de gradações luminescentes, na que a obscuridade nunca chega definir-se totalmente. A textura da pele e os tecidos pode ser perolada, líquida, sedosa, empoada, luminosa e irisada. O trépano, igualmente, permite uma maior pormenorização do trabalho, conseguindo esculpir o relevo dos músculos, as escamas duras e flexíveis do réptil ou o aspecto entupido e ténue das penas que cobrem a intrincada estrutura esquelética das asas do gigante Alcioneu.

4º. O gigante Alcioneu e a deusa Atena.
4º. O gigante Alcioneu e a deusa Atena.

Esta técnica também se emprega no cinzelado do cabelo. É um cabelo em constante movimento que exprime a urgência do momento, mas é um cabelo precioso, cheio de vida. As suas formas curvas possuem uma flexibilidade e uma dutilidade naturais. O cabelo não está trabalhado num recolhido, mas livre e ao movimento de cada figura. Mas nao estamos a falar dum cabelo desenhado de maneira irregular ou secundaria, mas sim que devido a sua perfeição plástica no volume e densidade, é um dos elementos que individualizam a estas duas figuras. O trépano permite moldar o cabelo com um estilo dramático que une a ambos. Esta qualidade, que não aparece em outras figuras, introduz um mundo de beleza sensitiva. Mas a resplandecência do emprego desta técnica vê-se na obscuridade dos magníficos olhos do gigante e a deusa Geia.

5º. O gigante Alcioneu.
5º. O gigante Alcioneu.

O rosto de ambos, tanto como muitos dos gigantes, está esculpido ao estilo do artista Escopas de Paros (380 a.C-330 a.C). O prestígio deste escultor está sustentado em obras mestras como a Ménade dançando (século IV a.C) e o retrato de Meléagro (340 a.C). São esculturas nas que é possível apreçar a famosa “olhada de Escopas”; consistente no cinzelado duns grandes olhos com um relevo redondeado. As órbitas são afundadas enquanto fica em destaque a pálpebra no mais alto do olho. As sobrancelhas caem retas de forma descendente, rematando em arco quase ao final do olho. As enrugas que percorrem a fronte mostram uma expressividade que refletem duma maneira muito autêntica a personalidade contrapondo-se à homogeneidade das normas clássicas. Outro elemento físico criado por este artista é a expressividade da boca. Os lábios são pequenos e finos com uma fissura esculpida entre eles, de tal maneira que o rosto se mexe em resposta a um facto imediato. Os rostos do escultor Escopas são duma morfologia quadrada, com corpos de constituição atlética. As posturas cruzadas e os cortes profundos arredor do corpo deslizam umas solenes sombras por trás deles. A atmosfera que envolve as figuras ao estilo de Escopas é séria, duma intensidade concentrada, comunicativa, que se estende a través de rostos que transitam pelos pensamentos e corpos pelos que transcorrem os mesmos.

6º. Rosto do gigante Alcioneu.
6º. Rosto do gigante Alcioneu.

O rosto do gigante Alcioneu é atravessado pela inicial incerteza sobre quê é o que causa a sua dor, a qual não pode identificar. Mas esta surpresa acontece por revolver-se para tentar libertar-se do insuportável sofrimento que lhe causa a presença dessa mão que pega na sua cabeça e turra do seu cabelo. Nele une-se nem só a aguda dor do coiro cabeludo ao ser arrastado, mas sim a ferida no peito e o facto de todo o peso do seu corpo asado pende unicamente da sua cabeça. Nenhuma das forças que o acompanharam vai no seu socorro. A deusa Atena sustém no seu braço esquerdo o áspice, enquanto que com a outra mão leva o gigante. Um dos braços dele é aprisionado pelo ofídio, sem poder atacá-lo. E com o seu outro braço se empenha em tirar a mão da deusa. O oco ao seu arredor só acentua a consciência de estar ao descoberto, só tendo-se a si próprio, perante um ser que já decidiu sobre a sua existência e o seu final. Nos seus olhos está a sombra que torna estéril todo o que alcança, paralisando todos os membros do corpo e com a que o espírito vive num fio no que transita desde a desesperança até a angustia, a fatalidade e a chamada.

7º. A deusa Geia clamando pela deusa Atena pelo seu fillo.
7º. A deusa Geia clamando pela deusa Atena pelo seu filho.

Reagindo perante esta situação irrompe Geia, a primeira deidade. A deusa Geia é a divindade coexistente com o Caos. É a Terra, sendo mãe e esposa do deus Úrano, O Céu. Ela é origem da Cosmogonia e gérmen da primeira geração dos deuses. No friso do altar nem só aparece como tal, mas também representada com a cornucópia -o Corno da cabra Amalteia, desbordante de frutos-. Também é importante o seu cabelo, cumprido e exuberante. São atributos e aspectos próprios da deusa Deméter, a Terra Mãe. Por esta razão, aquí, a deusa Geia é ao mesmo tempo figura cosmogônica e a que provê a fecundidade da Terra e de nutrição aos seres vivos. Na sua autoridade como mãe e deusa, ao sair a superfície presencia como uma parte essencial de si própria está sendo destruída. Nela é patente o sobressalto, a perplexidade e a desorientação. E na perda total da esperança ante a crueldade e a indiferença a dor, chama a deusa erguendo os braços e o rosto golpeando o ar. Nos seus olhos, nos que se acrescenta o impulso, a exasperação, a reprovação e a desolação, afunde-se o sombrio horror que a leva a apresentar-se nesta situação despiedada.

Este cântico de desgarro transmite a essência da enormidade interior. Isto é o que late em todo o altar. A sua disposição aparenta um bufo-real estendendo as suas asas, com a sua grande escadaria aberta entre os dous braços laterais transmitindo uma atitude imperiosa. Nele observa-se uma obra ambiciosa que abraça o nobre e a obscuridade, filtrando nela figuras transfiguradas na perda, o bom, o horror, a adoração, a pesada pena, o amor e o rechaço. O Absoluto, um ditado irrevogável, definitivo e sacro cobre o edifício, enquanto as esculturas na sua consonância vão para além do tempo e a realidade, para trespassar a um plano superior e transcendental em passado, presente e futuro. A conciliação, nele, do formidável e o temível culmina numa obra deslumbrante, que já tinha produzido admiração no momento de ser erigido e que segue de maneira constante a projetar fascinação..

Natureza, astros e deuses na Música:

Na arte musical os fenómenos naturais, tal como os astros e as divindades que os representam, são uma fonte de inspiração. Uma das obras mais salientáveis é As quatro estações (1721) de António Vivaldi, da qual uma das grandes interpretações desta composição é o concerto em vivo de 1987, com Anne-Sophie Mutter como violino principal e a Berlin Phirlamonic Orchestra, dirigida por Herbet Von Karajan. O mesmo caráter aparece n’As nuvens, primeiro movimento dos Noturnos (1897-1899) de Claude Debussy. (Uma muito boa interpretação é a da London Symphony Orchestra dirigida por Rafael Frühbeck de Burgos). Mas a obra mais célebre é Os planetas, de Gustav Holst. Uma das melhores versões desta obra é a dirigida por John Eliot Gardiner, com a Philhamonia Orchestra e gravada pela Deutsche Grammophon. Outra versão excelente é a dirigida por André Previn, com a Royal Philarmonic Orchestra, que é a incluída a continuação

  • Os Planetas. Op. 32. 1914-1916.

https://www.youtube.com/watch?v=AHVsszW7Nds

 

Imagens .

1º. Os gigantes, o deus Zeus e o gigante Porfírio. A deusa Atena, a deusa Nice, o gigante Alcioneu e a deusa Geia. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. A Gigantomaquia tem lugar no Éter, onde também se acha a morada dos deuses. A sua representação no friso transporta ao espectador a outra dimensão. Berlím, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.

2º. O deus Zeus, rodeados dos gigantes. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. O deus Zeus avança enquanto joga os seus lôstregos aos gigantes, quem hao de descerem à espelunca de trevas. Berlím, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.

3º. O semideus Héracles atende a Télefo. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. Entre as árvores e as rochas vê-se o semideus, com a sua pele do Leão de Nemeia pendurada duma pola, cuidando ao bebé enquanto se alimenta da úbere duma cabra. Neste fragmento, inçado de ledice e intimidade, recolhe-se a influencia do obras escultóricas como o Héracles de Lísipo. Isto acrescenta uma dimensão ao estilo de Pérgamo, elaborado, simples e dinâmico. Berlím, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.

4º. O gigante Alcioneu e a deusa Atena. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. De maneira implacável a deusa Atena voa com força, levando consigo o gigante Alcioneu. A deusa está vestida de acordo com a sua lenda, com a Medusa e a Égide luxuosamente incorporada a sua túnica. Berlím, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.

5º. O gigante Alcioneu. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. O gigante age com decisão face à vontade da deusa. O seu corpo transmite uma sensualidade e uma energia constante. Berlím, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.

6º. Rosto do gigante Alcioneu. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. O infortúnio que percorre os seus ângulos, a expressão escopiana ao ficar sem sentido caindo no vácuo e o enigma é a razão deste rosto, considerado a cimeira da carismática arte helenística. Berlím, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.

7º. A deusa Geia clamando pela deusa Atena pelo seu fillo. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. A venerável deusa aqui está retratada quando se vê interrompido o seu favor aos gigantes. A deusa Atena ignora a sua expectativa no desejo sincero pelo seu filho, nem sequer pela satisfação de ser vindicada. No seu rosto vê-se que todo o vivido, pensado e sentido se esvaece ao contemplar a injustiça. O cabelo está esculpido de maneira meticulosa e ativa, destacando a figura feminina. Berlin, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.