A estética do grande altar está concebida pela Escola de Pérgamo. No aspecto arquitetônico e escultórico apresenta uma qualidade plástica inédita na arte grega; o seu conceito escultural da arquitetura projeta o senso rítmico que produz o rico e colorido contraste entre o pódio inferior e a colunata superior, pondo de manifesto a magnífica elegância da coluna jônica. Nos frisos as composições, a força expressiva traduz os relatos dos deuses e os aspectos primigénios da Natureza. Neles estão unidas as sensibilidades de escultores da própria cidade de Pérgamo, Atenas e Rodas, o que lhe confere uma presença impecável. Os autores são mestres no que diz respeito do domínio da técnica, mas também verdadeiros artistas que sabem captar o gesto adequado.

Todo o dinamismo que flui pelo friso é uma manifestação dos movimentos convulsos do firmamento e baixo a abóbada celeste. O poder do deus Zeus estende-se a ser dono da neve e do vento, como está anotado nos versos da Ilíada XII (século VIII a.C) de Homero. E como garante da ordem do Cosmos, os seus movimentos significam a alteração do mesmo e da própria Terra. Algo que Ésquilo (496 a.C-406 a.C) exprime no fragmento 70 das Helíades. O seu alto-relevo transmite, numa qualidade poética de mente, coração e mãos humanas, a energia imensa do bater entre fenômenos naturais. Esta perspectiva estende-se a todos os deuses, nos que em plena luta os seus movimentos irradiam a rapidez das forças da Natureza em plena transformação. Tal visão respira o mesmo ar do que os escritos da obra Phaenómena (275 a.C) de Arato de Solos, nos que flutua o lirismo do movimento dos astros e da caraterização dos fenómenos meteorológicos, identificados com cada divindade.
Um dos elementos do friso é o perfeito acabado do aspecto que define a cada figura. Na escultura clássica apenas existe registo de maior caracterização dos deuses e das personificaçoes da Natureza, para além dos seus atributos e atitudes. No friso do altar o próprio tema -a fúria dos elementos desencadeados, o bater do mar sacudido pelos deuses e o tumulto duma catástrofe cósmica- traduz-se num minucioso estudo a respeito de cada figura. Ao longo do friso aparece uma extraordinária abundância de animais reais -cães, cavalos, serpes e leões-, joias, pedras preciosas, peles de leão com as suas melenas de pelo denso e volumoso, quadrigas e bigas, fachões prendidas com lume, áspides (escudos redondos), lanças, espadas de metal e a Águia e os brilhantes lôstregos do deus Zeus.

Mas a maior caraterização está dedicada aos deuses e os Gigantes. Neste aspecto as texturas aludem aos ambientes correspondentes a cada um deles. No caso das divindades marinhas pode apreçar-se na deusa Anfitrite, a Rainha do Mar e mulher do deus Poseidão, a expressividade dos pregues do vestido ao enfrentar-se a um dos Gigantes. Mas também pelo sacudir característico da brisa marinha e o efeito dos fortes ventos das costas. O vento húmido do mar molda a fina teia esculpida sobre o corpo feminino. O seu filho, o deus Tritão, aqui representado como um ictiocentauro. Por esta razão as suas aletas transparentes estão aderidas a cintura, pois as membranas estão em contacto com o ar ainda impregnadas de agua do mar.
O friso das deidades marinhas igualmente põe de manifesto outra das qualidades escultóricas e arquitetónicas do altar. As figuras são esculpidas case independentes do muro, o que produz profundidade de fundo, múltiplos ângulos de visão e uma avançada liberdade da postura física enlaçando com o estilo do escultor Lísipo. Por esta razão a posição de pés, mãos e braços vai muito para além, trespassando os limites do marco arquitetónico. Os alto-relevos são volume no espaço. E esta nova perspectiva leva-se ao desenho da escada. A sucessão do friso continua de forma ilimitada, introduzindo aos mortais que ascendem os degraus na presença dos deuses durante a Gigantomaquia. Concretamente no lado esquerdo do friso achamos a geração mais antiga dos deuses. A correspondente a primeira e segunda geração divina segundo os escritos de Hesíodo na Teogonia.

Neste espaço acha-se o deus Nereu e a deusa Dórida, ambos pertencentes a segunda geração. No deus Nereu pode observar-se o rosto dum homem bondoso e reto, o que corresponde com a sua função como benévolo protetor com os marinheiros, admirado por guiar o pensamento verdadeiro, benigno e aprazível. A deusa Dórida é a divindade que encarna a generosidade do Mar, sendo a vez mulher do deus Nereu. O deus está ao lado dela, quem colhe pelos cabelos a um gigante ao tempo que o imobiliza pondo o seu pé na retota cauda. Ele tenta libertar-se tomando a mão da deusa e alcançando a sua perna, sem se conseguir ir. Junto deles acha-se o deus Oceano, Titã da primeira geração, filho da deusa Geia e do deus Úrano. Esposo da deusa Tetis, na Ilíada (XVIII) de Homero personifica o grande rio que percorre o disco plano que é a Terra. A sua formidável presença é significativa, pois o seu gesto anuncia as sucessivas figuras que se mexem pelos degraus da grande escada. Assim os artistas abrem as portas do Olimpo ao convocar aos deuses no altar.
Observando a esfera dos deuses da luz, vê-se o gigante Clítio que repta de cara à deusa Hécate. O gigante ergue-se para lançar-lhe uma grande pedra. As suas pernas são dous ofídios que ameaçam a deusa; uma delas observa Hécate com as fauces abertas, vendo de atacá-la. A outra serpe tem colhido o borde do escudo da deusa, tirando dele e a ponto de esmagar-lho com os dentes. A divindade baixa o escudo de forma estratégica; de esta forma é que pode conservar a energia e à sua vez, levantar o braço para dirigir um fachão prendido diretamente na cabeça do gigante Clítio. Filha dos titãs Astéria e Perses, o âmbito de influencia da deusa Hécate é universal. Os seus enormes poderes estão presentes no mar, a terra e os céus, acudindo em ajuda de quem a chamar. Tende a auxiliar nas batalhas. Ao ser prima dos deuses Ártémis e Apolo, está vinculada ao âmbito dos deuses luminosos; aliás o seu nome corresponde o nome hekatos do deus Apolo.

Os atributos e carácter da deusa Hécate são muito semelhantes aos da deusa Ártemis, pelo qual existe uma simbiose entre ambas que levaria a uma posterior identificação das duas. Tal associação leva-se ao conceito do friso, pois a deusa Ártemis acha-se a seguir, a ponto de saltar, tendo frente a ela o Gigante Oto. Na sua composição predominam sucessivas linhas de contraste. As figuras do gigante Clítio e a deusa Hécate formam um V. Contrariamente o gigante Oto e a deusa Ártemis formam duas diagonais próximas no vértice superior, que ao descerem é que se separam. De tal maneira cria-se uma série de diagonais paralelas e invertidas que são / / . Tal sentido da composição permite criar consonâncias continuas entre os diferentes conjuntos de figuras. E esta fluidez, que ocupa todo o percurso do friso, produz um efeito rítmico esplêndido.
A beleza deste efeito acrescenta dinamismo, contrastes e pontos de confusão, mas a sua essência reside no impalpável do instantâneo. Na deusa Hécate pode observar-se o movimento concentrado no giro dos braços e das pernas mexendo-se com grande rapidez. Uma qualidade que igualmente envolve uma obra coetânea como é a estátua da Niké de Samotracia (190 a.C), de Pithókritos de Rodas. O artista mostra o preciso momento no que a deusa Niké pousa os pés sobre a proa dum navio. Está a descer do céu, com as salpicaduras do mar caindo sobre a sua cumprida túnica. O seu humedecido vestido transparenta o corpo, caindo pesado pelas pernas mas em constante câmbio pela agitação do vento. A plasmação pormenorizada da gaze translúcida em relação ao corpo e a vivacidade da figura pode observar-se, de forma similar, no friso pergaméico das deusas.

Na representação da deusa Hécate os continuadores da escola fidíaca introduzem na arquitetura do drapeado partenoico novos efeitos de transparências. De roupas molhadas que se aderem revelando as formas do corpo em movimento. Estas texturas contribuem a aumentar o ritmo visual. Mas esta cadência também é alimentada pela soma de figuras menores dispostas entre gigantes e deuses. Detrás do gigante Clítio achamos uma das suas serpes malignas, a qual está excelentemente trabalhada, pois é possível ver a escura profundidade do interior das fauces. Também ficam em destaque a serpe que tenta quebrar o escudo da deusa, e o cão da deusa Ártemis que funde os seus dentes no rabo do gigante, tentando sujeitá-la com a sua zarpa. A grande serpe que quer ferir a deusa Hécate numa perna é um dos répteis do gigante que roda entre o gigante Oto e a deusa Ártemis. O Cão é que o mantém preso ao travá-lo no pescoço. (O sofrimento faz pequeno o espírito). O gigante tenta livrar-se dele metendo o seus dedos nos olhos do cão, ainda que não consegue o seu objetivo. Mas a grande expressividade do seu rostro e a sua linguagem corporal, refletem uma das caraterísticas mais impressionantes destas figuras: o seu fundo psicológico.
As vinte estrelas da constelação d’O Cão, descrita na Mitologia do firmamento (segunda metade do século III a.C) de Eratóstenes de Cirene, brilham junto a divindade da Lua. Caraterizada com a sua túnica sem mangas e com o corte da sua túnica a altura dos joelhos, a deusa Ártemis percorre o friso dos deuses da luz. Filha da titânide Leto e o deus Zeus, pertence a quarta geração dos deuses. A sua consagração à caça e aos bosques faz com que habitualmente seja acompanhada pelos seus cães, como aparece citado nos Hinos III, a Ártemis do poeta Calímaco (310 a.C-240 a.C). E visível frente a ela aparece o gigante Oto. É um dos Alóadas, filhos da Princesa Ifimedia e o deus Poseidão. Faz parte da família dos gigantes, partilhando aspectos com eles, como as grandes dimensões e a força que os carateriza. Mas diferentemente dos gigantes da Gigantomaquia, o seu aspecto físico é totalmente antropomorfo. O oximoron da situação na luta vê-se completado pelo que acontece entre eles: ao pousar os olhos na deusa, ele apaixona-se dela ao instante.

O gigante Oto porta com ele o áspice, o grande escudo redondo côncavo. Está trabalhado no seu interior com linhas circulares e palmetas, enquanto que a empunhadura tem um rosto gravado. Não leva túnica nem armadura nem sapatos, mostrando um corpo maciço e sóbrio. Só leva um cinto no torso do que penduraria a funda da sua espada e o seu capacete, que a diferença dos capacetes espartanos ou áticos, não leva o rosto coberto. A deusa é uma contraposição do gigante, compondo ambos dous Y invertidos. Ártemis possui o que a poeta Safo de Mitilene (floruit cara o 600 a.C) chama “a beleza adorável das deusas”. Leva o cabelo ondulado e abundante, recolhido em fita; está retirado para atrás, destacando o volumoso penteado lateral do qual caem alguns caracóis. É um penteado em harmonia com o seu ovalado rosto olímpico mas que também lhe permite ver com claridade. Nesse aspecto a caracterização ajusta-se nem só a sua divindade, mas também ao tumulto da batalha.
O seu vestido é uma túnica curta duma única peça de gaze plissada; o seu desenho está definido pela vitalidade e as suas linhas ondulantes. Está ajustada com um pano drapeado que revela as linhas do peito e a cintura. A caída da túnica nas amplas cadeiras até os joelhos experimenta com a assimetria, plissados e volume, empregando nítidas linhas diagonais e panos flutuantes para dar-lhe sensação de movimento. O vestido glorifica as formas femininas, pois os complexos drapeados são moldados sobre o corpo, realçando subtilmente a estatura e a propriedade da deusa. O vestido resultante é duma grande leviandade numa miríade de transparências.
Os seus sapatos, umas sandálias de fitas entrelaçadas atadas a altura do músculo gastrocnémio, têm uns delicados pormenores decorativos. A sua silhueta é clara, com as despidas pernas em movimento. Tem uma presença na que se percebe a natural flexão dos músculos, o dinamismo dos pés ao caminhar, a ação dos braços para se defender, a liberdade do corpo para saltar. Mas igualmente é notável pela sua corporeidade. Tem a capacidade de atravessar o intangível do friso, como se fosse possível tocá-la. A deusa, com os seus olhos suaves e amendoados, olha tranquila. Uma expressão similar aos outros deuses. E o gigante Oto não alça a espada disposto a atacá-la, nem a cobrir-se com o áspice. Ao se aproximar a ela baixa a arma e afasta o escudo, pois vê perante ele “esse ser maravilhoso”, ou dito com a graça do grego clássico, thaumastón ti chrêma.

O poema de Safo de Mitilene é a expressão perfeita das emoções que desprendem estas duas figuras em plena Gigantomaquia:
Parece-me que é igual aos deuses
o homem aquele que enfrente a ti senta
e ao teu lado absorto escuta enquanto
docemente falas
e de forma encantadora sorris.
Mas a mestria dos artistas faz com que não se chegue de forma óbvia a um final, bom ou terrível, mas que manifestam a formosura desse momento deixando todo em suspensão…
Imagens Iria-Friné Rivera Vázquez
1º. Braço lateral esquerdo do grande Altar de Pérgamo. 180 a.C-160 a.C. Arquiteto nao conhecido. Artista: Escola de Pérgamo. Nele emerge a deusa Anfitrite e o seu filho, o deus Tritao, no lado frontal. A continuação as divindades marinhas inundam os degraus da grande escadaria, de tal maneira que as figuras nunca se abandonam mas guardam uma regularidade, sem fazer gestos desordenados. Berlim, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.
2º. De entre o cardume emerge o deus Tritao, enfrentándo-se a dous Gigantes. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. O triângulo escaleno da composição junto com o carácter físico e natural de cada figura faz deste fragmento uma peça excecional. Berlim, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.
3º. O deus Nereu, a deusa Dórida, um dos Gigantes, o titânide Oceano e um grupo de Gigantes. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. O grande estilo desta escola expressa com um movimento uma ideia, permitindo representar de maneira cristalina a sorte dos Gigantes e o conhecimento da cólera dos deuses. Berlim, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.
4º. O gigante Clítio, a deusa Hécate, o Alóada Oto e a deusa Ártemis. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. Neste friso aparecem animais, deuses e heróis representativos de astros, constelações e fenómenos astronómicos no decurso do Firmamento, muito estudados na era do Helenismo. Berlim, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum. Aqui podem-se consultar imagens de astro-fotografia dos fenómenos celestes que inspiram as figuras do Altar:
https://www.flickr.com/groups/astronomy/pool/
https://www.flickr.com/photos/tags/astrophotography/
5º. Niké de Samotracia. 190 a.C. Pithókritos de Rodas. Deusa de fantasia num mundo de fantasia, filha da deusa Estígia o titã da sabedoria Palas, personifica a Victoria. Nela está impresso o carimbo triunfal entre a fugida dos pregos da túnica. Musée du Louvre, París.
6º. Detalhe tomado desde a parte inferior do friso, próxima as figuras dos deuses da luz. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. Nesta imagem pode ver-se o baixo do sapato da deusa Hécate ao girar, o cao consagrado a deusa Ártemis e uma das pernas do gigante Clítio, transformada em serpe, cravando os seus dentes pungentes no áspice da deusa Hécate. Berlim, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.
7º. O Alóada Oto, a deusa Ártemis, a sua mae Leto e um gigante com asas. 180 a.C-160 a.C. Artista: Escola de Pérgamo. Imediata ao carinho que flutua arredor no gigante Oto, vê-se a deusa Leto com determinação rematando um dos gigantes. Ainda em silencio, o seu rosto mostra a consciência do golpe mortal sem ter eleição e o que segue na queda as profundidades infernais. Berlim, Staatliche Museen zu Berlin – Preußischer Kulturbesitz, Antikensammlung, Pergamonmuseum.
