O galego que falamos

A nossa língua perde palavras, sons... e falantes. Num contexto de espanholizaçom acelerada, o galego tem no português umha boia de vida para frear a sua deturpaçom.



Pablo Santiago

Pablo Santiago

Fernando foi ao mercado e pediu coxa de polo, mas o moço que o atendeu respondeu estranhado: “O que?”. Algo semelhante lhe aconteceu a Laura quando disse no ginásio que lhe doía o joelho. O que têm em comum todas estas histórias nom é a sua relaçom com o corpo, senão a evidência dumha realidade: o galego perde o seu léxico e a sua gramática com cada geraçom que passa.

A ESPANHOLIZAÇOM DA LÍNGUA

‟Nom há nenhum ámbito do idioma que escape a essa mudança: no léxico, na morfologia, na fonética, na sintaxe… E vai sempre no sentido da convergência com o castelhano, porque é a língua com a que convive, e qualquer língua minorada que conviva com a oficial do Estado vai ter esse processo de convergência”, explica Eduardo Maragoto, filólogo e presidente da Associaçom Galega da Língua (AGAL). “A maioria das vezes as pessoas nom som conscientes dessa mudança, dessa convergência com o castelhano. E agora, com as novas comunicações, acelera-se esse processo”.

Goretti Sanmartín é doutora em filologia galego-portuguesa e membro correspondente da Real Academia Galega (RAG). Engade que o maior perigo é a perda gramatical: “Se nom sei que ‘abuelo’ é ‘avô’, posso aprendê-lo e incluir essa nova palavra no meu vocabulário, mas se nom sei utilizar a gramática e nom tenho referentes que ma ensinem, isto é mais complicado. O mesmo passa com a fonética”.

O galego perde falantes e está pouco presente nos novos meios de comunicaçom e internet. Os dados do Instituto Galego de Estatística (IGE) som esclarecedores: um de cada quatro rapazes sabem falar pouco ou nada galego. A escassez de canles em internet e a perda de programas como o Xabarín Club acentuam a perda do interesse pola língua. Ana Moreiras é professora de tecnologia num liceu de Boiro. “A rapazada nom emprega galego em instagram, em Tik-Tok… e dalgumha maneira associam que isso é o normal”.

“O galego parte dumha grande semelhança morfológica ou na sintaxe com o castelhano, entom há muitas palavras ou expressões que têm pouca segurança para se manter no galego”, explica Maragoto. “Umha língua para se manter viva precisa ser imprescindíbvel para comunicar-se com alguém, e essa ‘imprescindibilidade’ o galego perdeu-na. Nom é precisso conhecer a palavra ‘esquecer’, todo o mundo vai entender ‘olvidar’. Se essas palavras se perdem do uso popular, nom se vam poder recuperar depois. A palavra ‘acordar’ era emblemática galega, mas umha vez que se deixou de usar também caiu o seu uso formal e literário, e já é difícil de entender por parte dos galegos”.

“Umha língua para se manter viva precisa ser imprescindível para comunicar-se com alguém, e essa ‘imprescindibilidade’ o galego perdeu-na. Nom é preciso conhecer a palavra esquecer, todo o mundo vai entender olvidar”

Segundo Sanmartín, “para umha língua que está em contacto com outra com a que entra em conflito, é necessário blindar-se e conseguir recuperar a sua parte mais tradicional e autóctone. Recuperar essa fonética, essa sintaxe. Se nom, há um processo de imbricaçom que pode dar lugar também à substituição linguística”.

A SEGURANÇA LINGUÍSTICA

Umha das chaves para tentar frear o processo histórico de substituiçom lingüística reside na falta de um modelo estável do galego que dea segurança ás falantes. “É evidente que necessitamos ter modelos claros, e que a gente poda recolhê-los. Um referente para a gente nova foi o Xabarín Club”, explica Sanmartín. “A rapazada era moi consciente da língua que escoitava e acabava reproducindo-a, por isso som importantes os referentes”, acrescenta. “A gente do que nom gosta é de que os demais lhes estejam corrigindo, porque cria insegurança. Conforme vas tendo mais inseguranças pois ao final acabas dizendo, ‘pois nom falo esta língua’. Passa o mesmo que quando fas umha oposiçom, se sabes que o estás a fazer bem, gozas, mas se sempre tens que estar a preguntar-te se o estás a fazer bem ou nom, gera o efeito contrário”.

Maragoto também aponta que essa insegurança é umha das causas que contribuem a que as pessoas optem por nom falarem galego. “Umha só criança falando castelhano num grupo de cinco, já é quem de modificar o uso lingüístico dos cinco, e ao revés nom. Influem muitas outras cousas: a idade, o carisma… mas a [falta de modelo] influencia, muito. Em castelhano nom podes dizer ‘me caí al chão’, no entanto é muito habitual dizer em galego ‘caím ao suelo’. Umha criança nota isso, e sente certa insegurança. Em castelhano e português nom, aí sempre está segura do que di e nem lhe vam discutir nada”.

“Umha só criança a falar castelhano nun grupo de cinco, já é quem de modificar o uso linguístico dos cinco, e ao revés nom. Influem muitas outras cousas: a idade, o carisma… mas a [falta de modelo] influencia, muito”

“É importante sentir que aqui há um modelo linguístico que representa umha cosmovisom”, diz Sanmartín. “Isto influe nas nossas maneiras de ser, de identidade, de como respondemos perguntas, de como contestamos, como actuamos, e isso acaba criando orgulho e dignidade, e também reconhecimento de que esta é umha língua própria, diferente, e de que ao final nom é um ‘castrapo’. E aí eu acho que sim que fomos avançando algo, mas nom todo o que devera, de que muita gente ao falar um galego estupendo desculpa-se: ‘Nom, nom. Desculpa que eu nom falo bem, quem fala bem é fulanito ou menganito’”.

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Para conseguir essa sensación de pertença e de estabilidade da língua é fundamental o papel das administrações. “É importante que as administrações públicas, o ensino ou os meios de comunicaçom transmitam umha boa qualidade lingüística, já que afiança muito a segurança”, engade Goretti Sanmartín, que considera que nesse sentido seria importante poder consumir meios e contidos portugueses: “Seria um elemento fundamental para garantir que houvesse muitíssima mais qualidade linguistica e segurança. Sem essa qualidade eu penso que o galego nom se salvaria. Sempre se diz que quem salvou o galego forom as pessoas que o falarom, desde o ponto de vista tradicional: labregas, labregos, marinheiros… Mas o idioma também se manteve, sem nenhumha dúvida, graças a escritoras e gente que o recuperou para a escrita, como língua de cultura, para que tivesse muitos registros, nom só o popular”.

Sanmartín também sinala certa folclorizaçom da língua desde as administrações galegas: “Há umha política linguística que o que nom quer é a continuidade do galego, ou que consente um uso do espanhol folclórico, ou castelhano agalegado, que tem determinadas expressões, mas que nom quer o uso normal do galego em todos os contextos”.

Maragoto sinala certa responsabilidade da normativa ortográfica actual nessa falta de modelo, porque “nom tem capacidade para manter um modelo de correçom diferente do castelhano, nom é capaz de dar ao galego umha margem de segurança. Por exemplo, na sintaxe nota-se muito essa mudança. Umha vez que a ortografia corta o contacto com a lusofonia e impede a comunicaçom entre galegos e portugueses é quase impossível manter certas estruturas, como o infinitivo flexionado”, asegura.

“O facto de que a normativa oficial considere que o galego é umha língua independente do que nós consideramos variantes da mesma língua, é um passo mais nesse sentido”, acrescenta Maragoto. “Há certas diferenças em relaçom com o mundo lusófono e semelhanças com o castelhano que ficam estabilizadas na normativa, por essa decisom política. Por exemplo, Galiza-Galicia. No galego escrito havia um uso de ambos, e a forma que se escolhe para o uso é a castelhana. Nesse sentido, [a norma] funciona como estabilizador e afirmador da castelhanizaçom”.

O ACHEGAMENTO AO PORTUGUÊS, UM MODELO A SEGUIR?

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Zelia García

No que as especialistas parecem estar de acordo, desde a administraçom até as filólogas, é que umha das soluções passa polo achegamento ao português, do que o galego e a Galiza se foi afastando nas últimas décadas.

“É fundamental que podamos ler em português, por exemplo. Todo o melhor do galego tradicional está no português”, afirma Goretti Sanmartín. “Este achegamento reforça e blinda o galego, fazendo que seja mais autêntico. Recupera o nosso galego tradicional”. E no mesmo sentido lembra que “ler a nossa literatura ou escutar as pessoas maiores é determinante para a recuperaçom da língua”.

A AGAL, entidade que preside Maragoto, vem reivindicando umha convivência normativa para o galego em que convivam a norma oficial actual com a norma galego-portuguesa ou “internacional”. “Alguns filólogos que se oponhem ao reintegracionismo, dim que nom é necessário o português como modelo, mas depois têm muitos erros derivados do desconhecimento do português, como maus usos do infinitivo flexionado, do imperfeito do subjuntivo… Som estruturas muito emblemáticas do galego mas que deixarom de ter uso popular frequente; a renúncia ao modelo português provoca a impossibilidade de recuperar essas estruturas”.

Um exemplo é o caso do infinitivo flexionado, para o que ajudaria eliminar as actuais “fronteiras” ortográficas: “Nom basta com estudar umha estrutura gramatical para activá-la, é precisso ouvi-la com frequência e em vários contextos, porque já nom temos suficiente input como para activá-la. O mais eficaz é relacionar-se com as variantes da língua portuguesa e diluir o máximo possível as fronteiras ortográficas”.

Maragoto insiste ademais na importância do reintegracionismo para construir esse marco de segurança que mantenha umha certa qualidade, algo que já demostrou o movimento reintegracionista de base: “Só há que comparar os textos reintegracionistas hoje em dia na Galiza com os produzidos no resto do mundo que escreve galego, e comparar essas estruturas: ao longo de 40 anos, o contacto com o português já manteve o galego que essas pessoas usam em certas margens de segurança e barreiras com respeito ao castelhano. Nom é porque o estudassem, ninguém estudou galego reintegrado. É só polo contato, ademais da vontade individual. Mas é un exemplo do que poderia acontecer se essa decisom —assumir o reintegracionismo— se tomasse a un nível muito mais amplo”.

O achegamento à lusofonia é un caminho já começado e assumido por todas as partes, mesmo pola Xunta, com a aprovaçom da Lei Paz-Andrade em 2014. O Secretário Geral de Política Linguística, Valentín García, explicava na semana das Letras que a dupla normativa reivindicada polo movimento reintegracionista era umha das “vias a explorar” para achegar-se à lusofonia, ao tempo que reconhecia que é umha opçom “possível”, como acontece com a língua norueguesa.

O PODER DOS IDIOMAS

Umha das chaves ante a realidade da perda de qualidade do galego vem dado pola convivência entre línguas. “As línguas têm o seu poder, que se mede com o domínio internacional que têm. Por exemplo, o português tem muito poder, mas nada que ver com o castelhano, e este é incomparável com o poder do inglês”, diz Maragoto.

Sobre isto Andrés Rico, estadounidense de pais salvadorenhos que mora em São Francisco, ve como a cultura e a língua latinas, se vem avassaladas polo inglês, neste caso a língua de poder. “Por muitos anos às imigrantes pressionou-se-lhes para que assimilassem a cultura anglo-saxoa. Muitas pessoas no caminho perderam assim os seus costumes, o seu idioma e a sua identidade para perseguir o conceito de ‘sonho americano’” acrescenta Rico. “E assim, dá-se o fenómeno de que muitas pessoas, por sofrerem discriminaçom ou por medo a sofrê-la, começam a negar, esconder e esquecer a sua cultura e o seu idioma”.

Junto este poder, aparece o utilitarismo das línguas, que faz que a gente queira falar e aprender aquelas que parece que têm ‘mais futuro’. Maragoto diz que esquecer esta realidade seria ser “muito ingénuos, ou utópicos. Isto tem muitíssima importância. Por exemplo: quando alguém diz ‘eu falo galego porque é a minha língua, nom porque seja útil’. Isso nom é verdade, as pessoas nom usamos as línguas se nom som úteis. Quando estudas umha língua tens em conta a sua utilidade, e com o inglês podes ler cinquenta mil trabalhos e visitar muitas partes do mundo”.

Maragoto põe o exemplo de outras línguas, como o norueguês ou o holandês: “Som línguas de Estados que apesar de sê-lo, têm dificuldades de sobreviver frente ao inglês. Os Estados som umha maquinaria impressionante para preservar umha língua, mas quando apesar disso, sentem a pressom abafante do inglês… Imagina”.

“A língua é um meio de comunicaçom mas também é umha cosmovisom, um jeito de relacionar-nos com o nosso entorno e com o universo. Por isso há que mudar esse modelo utilitarista e ser capaces de ver as línguas de outra maneira”

“É um utilitarismo perverso —engade Sanmartín— porque é mais bem um uso político e económico. Incluso parece que se dis nom lhe dediques tanto ao inglês e mais ao portugués ou ao galego parece que estás dizendo umha barbaridade. Depois, também está o problema de nom ser conscientes de que quando desaparece umha língua, desaparece também umha maneira de ver o mundo. Isto é um problema porque se perde a identidade e o conhecimento que vam da mão da língua, sobre plantas, animais, formas de vida, de pensar… A língua é o meio de comunicaçom mas também é umha cosmovisom um jeito de relacionar-nos com o nosso entorno e com o universo. Por isso há que cambiar esse modelo utilitarista e ser capaces de ver as línguas de outra maneira”.

Sobre o galego, Ana Moreiras remata dizendo que “se nom se faz umha discriminaçom positiva, é muito difícil recuperá-lo. É injusto dizer vamos pôr as duas cousas iguais e que cresçam. Isso nunca vai medrar igual porque nom som iguais”. Por isso há que “tentar equilibrá-lo e fazê-lo com umha certa intençom”.

[Este artigo foi publicado originariamente no Salto Galiza]

Elena Martín e Pablo Santiago

Elena Martín e Pablo Santiago

Elena Martín nasceu em Ogrove. Estudou comunicaçom audiovisual e colabora em vários meio como o Novas da Galiza e O Salto. Na atualidade escreve, grava, traduz e vai indo de forma autónoma.
Pablo Santiago é de Pontedeume. Estudou audiovisuais, trabalhou na TVG e muitos sítios mais. Agora anda polo Salto, Agareso, Lentes Diverxentes, Nós TV e outras lérias...
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    bem interessante