O castelhano como vernáculo português



Durante toda a história do idioma, os escritores portugueses recorreram a materiais léxicos castelhanos com ‘naturalidade’, como se de lídimo português se tratasse e com a cândida adesão do leitor português, habitualmente ignorante da língua vizinha. Essa transferência de materiais é particularmente frequente em autores tidos, com justiça, como vernáculos, o caso de Fialho, de Aquilino, de Saramago. Ao contrário do galego, que desenvolveu o reflexo conhecido por ‘diferencialismo’, só muito raramente o português procurou distância frente ao castelhano. Desenhou‐se, mesmo, uma ‘iberização’ do idioma, tarefa plenamente harmonizável com o patriotismo. Este vasto conjunto de desempenhos e atitudes revela‐se do maior interesse para a apreciação ‘cultural’ da história da língua portuguesa.

Fernando Venâncio, da Universidade de Amsterdam

Fernando Venâncio, da Universidade de Amsterdam

Um leitor português de Aquilino Ribeiro está habituado a encontrar, na escrita dele, um bom número de vocábulos até aí seus desconhecidos. É um facto: o ficcionista Aquilino (1885-1963) cultivava um léxico altamente infrequente, escassamente dicionarizado e, por isso, instigador dessa experiência de estranhamento. O leitor aceita gratamente o jogo, convencido de estar, deste modo, num contacto privilegiado com o português ‘autêntico’, de primeira apanha, garantidamente vernáculo. Essa autenticidade é, na generalidade dos casos, factual. Trata-se, quase sempre, de materiais resgatados a antigos estados de língua, com circulação agora reduzida a mínimas áreas serranas. Bastantes desses recursos lexicais nunca conheceram o dicionário, e também isso concorre para a adesão afectiva do leitor, como paga de uma injustiça.

A realidade é, porém, um pouco mais complexa. De mistura com esses vocábulos, outros há que, de portugueses, somente têm a aparência. Sendo, eles também, de restritíssimo uso na cena portuguesa, provam-se, na verdade, de pura cepa castelhana. Em alguns casos, a atestação aquiliniana é, até, a primeira jamais achada em texto português, e às vezes mesmo a única.

Assim, vemos Aquilino servir-se de velhos, mas historicamente infrequentes, castelhanismos portugueses como os substantivos alabança, anchura, empacho, necedade, entono, pedrisco, pousadeiro, terciopelo, volantim ou os adjectivos alambrado, arrojadiço, cendrado, mal-andante. Não menos curioso é encontrarem-se nele vocábulos castelhanizantes que nunca haviam figurado em escrita portuguesa, de que são exemplo os substantivos acomodo, cachondice, empalme ou os adjectivos apremiante, bolandeiro (de volandero), cachondo, encandilado, mesoneiro, testarudo e veleidoso.

Não existem motivos para supor aqui fenómenos ‘fronteiriços’. O Portugal descrito na obra de Aquilino é decerto interior, mas bem distante da raia espanhola.

Repare-se também que, além desses, encontramos vocábulos descaradamente castelhanos, encarregados de acentuar a ‘cor local’ dos cenários espanhóis do autor, como antifaz, carretera, hembra, muchedumbre ou podridero. Diferentemente destes, os mais acima citados surgem ‒ e aqui está o cerne da questão ‒ como se de materiais singelamente portugueses se tratasse. Esta noção de ‘singeleza’ é fundamental. Ela é uma constante ao longo de toda a história do português. Foi como procedimento óbvio, nada problemático, que, no decorrer de séculos, os utentes portugueses importaram largas centenas de vocábulos castelhanos. E foi de modo igualmente óbvio, natural, que o leitor português deu com eles, os acolheu e, por sua vez, os transmitiu.

No entanto, a singeleza não é tudo ainda, aqui. Nessa fácil, maciça e secular apropriação lexical, teve importante papel uma menos óbvia, mas decisiva, valoração desses materiais: a de uma autenticidade ‘portuguesa’. O caso de Aquilino é, aí, sobremaneira eloquente, conhecendo-se o seu renome, insistente e merecido, de autor vernaculista, paladino da ‘terra’ e das ‘gentes’.

Não estamos, ainda assim, perante um caso único em tempos mais recentes. Nessa ambivalência entre vernáculo e castelhano, achamos um também inesperado paralelo na escrita de Fialho de Almeida. Este ‘castigado prosador’ estreou em âmbito português chefatura, manicómio, mirada (‘olhar’), mistela, rebaixa, ou ainda aficionado, desopilante, envolvente, mongil, sangrante, silvante, mais os gritantemente castelhanos arreglo e saleroso. Fialho (1857-1911), que acompanhava com interesse a produção literária espanhola do seu tempo, foi bem explícito nas suas afeições: «A língua espanhola tem para mim um prestígio e uma música que não me canso de ouvir e de gostar», confessa ele num artigo recolhido em Aves migradoras, de 1914.

O máximo da clareza ficara, contudo, a dever-se a António Feliciano de Castilho, o grande doutrinador oitocentista do idioma, que em 1862 se exprimia assim: «Na leitura do castelhano, se hoje em dia a frequentássemos como cumpria, bem fácil e bem agradavelmente pudéramos nós retemperar ainda hoje o bom falar vernáculo». No mínimo, o que aqui se afirma é que o castelhano conservou recursos historicamente comuns, merecedores de serem hoje recuperados pelo português. Mas pode permitir-se uma leitura mais lata, segundo a qual o castelhano é fonte potencial de enriquecimento da língua portuguesa, não devendo nenhum português consciencioso deixar escapar tão benéfico ensejo.

Tenha esta segunda leitura estado, ou não, no espírito de Castilho, o facto é que os portugueses, ao longo dos séculos, se comportaram exactamente como nela se preconiza, ao ponto de, em alguns dos maiores cultores de um português aprimorado, ser natural esse namoro com o castelhano. O resultado, decerto não perseguido, mas atingido, foi este: os castelhanismos acabaram acolhidos, e até sentidos, como autêntico vernáculo português.

 

NOTA

O texto reproduzido acima é apenas um fragmento do artigo publicado em Limite. Revista de Estudios Portugueses y de la Lusofonía, nº 8, 2014, Universidade de Extremadura, Cáceres, págs. 127‐146. Pode ler o texto na íntegra e em formato PDF premendo aqui.

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