O cão de Alcibíades

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Por Ernesto Vasques Souza

 


 

Plutarco, grego de nação e romano de costumes deixou entre as páginas das suas famosas Vidas Paralelas, retrato de Alcibíades, belo de corpo, rápido de engenho e dissipado de hábitos.

De ilustre família, protegido de Péricles, abastado e enredador de natureza tenoiresca, destacou pelo seu anedotário, amores, sede de glória e obsessão pela notoriedade na vida pública da pólis. Amante e muito querido do Sócrates, apenas a este respeitava e temia como mestre e companheiro de armas. Figura como personagem entre os diálogos de Platão.

Comandante impulsivo, mais afortunado que frio estratega, profanador de espaços e pessoas; sempre à moda, gozou quando novo, de uma ascendência social ímpar entre os atenienses. Sedutor, despótico com todos e exagerado nos gestos era dono de uma oratória admirável de engraçado ceceio.

Era muito doado a sementar a confusão e mais ainda às maquinações e conspirações que ao reto desempenho da política e a administração. Deixou exemplo nefasto de político corruto, arbitrário, inconsciente e de entender a administração como espaço para uso e benefício particular da sua casa.

Diz Plutarco que Alcibíades comprara quando já declinava no fascínio da gente, um cão de tamanho e de beleza admiráveis, que adquirira por setenta minas. De uma vez cortou-lhe a cauda, que era magnífica. Quando os seus familiares o censuravam e diziam que todos o criticavam por causa do cão mutilo, soltou uma gargalhada e disse-lhes algo como:

– É isso mesmo que eu pretendo; quero que os Atenienses falem deste assunto para evitarem dizer pior a respeito da minha atuação pública.

E falando em cães e retalhadas, dou em pensar em Rajoy, Wert e Gallardon: nas absurdidades das reformas legislativas polémicas, nos anunciados recortes parlamentares, educativos e de direitos sociais, e em como sempre nos escandalizam com polémicas absurdas, medos atávicos, rostos ridículos, anátemas religiosos, princesas de revista rosa ou fetos deformes e todas essas farsas encenadas para que não entremos a pensar nas causas das cousas, na corrupção intrínseca e na obsolescência programada do sistema.

Máis de Ernesto V. Souza