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“Nunca será suficiente lembrar o que significou Abril nas duas margens do mesmo rio”, Carlos Pazos-Justo e Roberto Samartim falam para o PGL a respeito do livro 50 anos de Abril na Galiza

Os professores e investigadores Carlos Pazos-Justo e Roberto Samartim são os responsáveis da última novidade da Através editora: 50 anos de Abril na Galiza, uma coletânea que conta com a participação de doze autoras e autores de Portugal e da Galiza para abordar Abril de 1974 de diferentes perspetivas. O presente volume contempla também a reprodução de diversos materiais (fotografias, documentos…) que pretendem mostrar alguns dos vários cruzamentos que a Revolução dos Cravos propiciou no quadro geral das relações galego-portuguesas e que ilustram os capítulos do livro.

Os 50 anos do 25 de abril é, provavelmente, uma das principais efemérides do ano. Que implicações tem na Galiza o aniversário da Revolução dos Cravos? 

RS: Na cultura da esquerda galega (nomeadamente da nacionalista), e do reintegracionismo, o 25 de abril é, com efeito, uma data marcante. A revolução de abril foi recebida em 1974 como o nascimento de um outro mundo possível, aí tão perto, e um espaço de segurança para o antifranquismo. Muitos dos contactos políticos feitos nessa altura continuam a vigorar ainda hoje e o peso simbólico desta (vamos dizer) “última revolução romântica” ainda se sente em vários momentos e lugares na Galiza, quer para lembrar cada ano a efeméride, quer para fechar algum bar na zona velha de Compostela ao som do Grândola… Este 50.º aniversário destaca especialmente, acho, tanto pola ênfase que fornece o meio século já andado, como porque também é celebrado em espaços mais institucionalizados da Galiza (e não apenas universitários).

Como vos inspirou ou influiu o 25 de abril de um ano em que Carlos ainda nem era nascido e Roberto era apenas uma criança?

CPJ: Bom, no meu percurso pessoal esteve sempre presente de alguma forma. Criado numa família lusófila, as músicas do José Afonso formam parte da minha paisagem musical de infância e mais além. Os estudos de cultura portuguesa ajudaram a aprofundar o interesse na, como diz Roberto, “última revolução romântica”. Há já bastantes anos que estou envolvido no Festival Cultural Convergências Portugal Galiza, em Braga, que gira à volta das figuras de José Afonso e Rosalía de Castro. Acaba sempre, significativamente, com o Grândola… O 25 de Abril é para mim, permita-se-me formulá-lo assim, um desses raros acontecimentos pelos que não dá para desgostar de Portugal.

RS: Lembro algum comentário trocado com o meu vizinho sobre a morte de Franco naquele 20N, mas nada lembro nem de Portugal, nem da revolução na minha infância. No meu caso, de Abril não há nada herdado, tudo foi construído depois.

Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa”. Esta é uma parte da constituição portuguesa que está presente tanto na contracapa do livro como também no seu prefácio. Por que escolheram este texto para iniciar as abordagens do livro?

RS: A legitimidade democrática em Portugal é atribuída na sua constituição à revolução de Abril. A partir daí, dá para ver que a passagem da ditadura para a democracia representativa não se produziu da mesma maneira nos dous Estados ibéricos. Na República portuguesa a ruptura com o salazarismo supõe o fim dessa ditadura, da guerra e da colonização (e pretende até acabar com o atraso…). No Reino da Espanha a reforma do franquismo (a passagem “de la ley a la ley” que aparece como modélica na narrativa da transição) é feita desde a ditadura, não contra a ditadura. Isso pode ajudar a entender os silêncios e as continuidades com o regime anterior, e também as resistências e os ritmos das mudanças. Repare-se neste sentido, por exemplo, nos momentos em que são promulgadas as leis de memória histórica (2007, salvo erro) e democrática (ainda em 2022), assim como os níveis de aplicação atuais dessa legislação.

No livro há depoimentos e abordagens sobre o 25 de abril, na perspectiva de pessoas da Galiza e de Portugal. Qual é a coisa que mais chama a atenção, especialmente nos relatos vindos da Galiza?

RS: Fora as análises feitas na segunda parte do livro dos impactos da Revolução dos Cravos na realidade sociocultural galega da altura (Elias Torres) ou em campos específicos como a música (Felisa R. Prado), a política institucional (Fernando M. Arribas) ou o sindicalismo (Sónia Duarte), dos sete depoimentos que compõem a primeira parte, quatro dizem respeito às memórias de pessoas galegas que em 1974 tiverom um contacto significativo com o Portugal de Abril em campos tão diversos como a planificação linguística (Martinho Montero Santalha), os meios de comunicação (Margarida Ledo), o sindicalismo (Manuel Mera) ou a música (Vicente Araguas). Apesar dessa diversidade de espaços sociais e de como a situação política determina as ações em todos eles, em todos os casos é possível identificar, implícita ou explicitamente, aquela velha ideia do galeguismo que atribuía a Portugal a função de aliado privilegiado, reforço e suporte do programa próprio.

Foto de Lucia Cernadas

E nos de Portugal? É possível encontrar alguma semelhança entre eles?

RS: Nos cinco textos de autoria portuguesa há uma mostra relativamente completa do que o livro pretendia. Para além de uma completa cronologia da vida político-cultural portuguesa entre 1945 e 1982 (elaborada por Alexandra Paz) e da análise das afinidades sindicais no campo do ensino entre a Galiza e Portugal (no texto referido de Sónia Duarte), neles é possível ler a análise da relação de forças no processo revolucionário (Fernando Rosas), as memórias pessoais dos tempos de abril (Henrique Barreto Nunes) e a evocação da revolução de um dos seus protagonistas diretos (o capitão Durán Clemente). Nestes contributos evidencia-se o interesse e a simpatia pola Galiza e o seu percurso político-cultural.

Como foi o processo de encontrar participantes para o livro e porque os escolheram?

CPJ: Foi relativamente fácil, apesar do pouco tempo disponível com que contávamos. No âmbito do nosso espaço de investigação, a Rede Galabra, havia já alguns textos sobre o assunto; dois, de Elias Torres e M. Felisa Rodríguez Prado, integram o volume. Além destes, fizemos uma rápida pesquisa e contactamos os/as autores/as que entendemos poderiam enriquecer a proposta e, salvo erro, todas as respostas foram positivas. Todas, exceto uma que seria bem valiosa, mas que por motivos, a nosso ver, bem justificados não pôde ser. O resultado final pode ser lido como um diálogo galego-português à volta do 25 de abril, objetivo traçado do início. 

CPJ: O resultado final pode ser lido como um diálogo galego-português à volta do 25 de abril, objetivo traçado do início. 

O livro propõe uma abordagem sobre os efeitos do 25 de abril na Galiza, tanto na política como na cultura. Acreditam que o livro apresenta uma nova perspectiva sobre os ecos da revolução, ou que pelo menos tinha sido perdida com o passar dos anos? 

RS: O livro achega análises de processos sociais mas também, maioritariamente, a própria voz das pessoas envolvidas no relacionamento galego-português. Esse recurso às memórias pessoais, passado meio século de vida, penso que é valioso e supõe uma certa novidade, sim.

RS: O livro achega análises de processos sociais mas também, maioritariamente, a própria voz das pessoas envolvidas no relacionamento galego-português.

Em um dos capítulos, temos o depoimento de um capitão de abril de origens galegas. Como foi o processo de encontrar e convidar Manuel Durán Clemente?

CPJ: O nome do Capitão Duran Clemente surgiu na, digamos, fase de pesquisa. Um de nós tinha uma certa notícia da sua costela galega. Contactamos através das redes sociais e já no primeiro contacto tivemos uma resposta de aberta disponibilidade e até, diria, de algum entusiasmo. Espero que o Capitão Duran Clemente possa participar nalguma das apresentações previstas.

Em um dos capítulos, encontramos o texto de M. Felisa Rodríguez Prado sobre o campo musical da Galiza nos anos 70, bem como o espaço universitário daquela altura. Que importância teve o mundo da música na revolução? 

RS: A música está atendida nessa abordagem que indicas e, também, no depoimento de Vicente Araguas na primeira parte do livro. Sirva como mostra da centralidade da música na revolução que as ações começam entre as zero horas e a uma hora do 25 de abril com a leitura em Rádio Renascença da primeira estrofe do “Grândola vila morena” e a transmissão da canção do mesmo nome (como se pode ler no documento dessa transmissão que figura no volume por cortesia do Arquivo de Benedicto Garcia Villar). Na Galiza, por seu lado, era o tempo de “Voces Ceibes” e a “Nova Canción Galega”, músicos ligados a partidos de esquerda (sobretudo ao Partido Comunista) que tanto aprenderom e partilharom com parceiros portugueses como o próprio José Afonso ou Luís Cília. Era o tempo da música como campo de ação e mobilização privilegiado pola mocidade operária e universitária, que estava com pressa e com força, e queria participar na construção de um mundo novo (“que tenha tudo de novo e nada de mundo”, como diria muitos anos depois Mia Couto…).

Com as últimas eleições em Portugal, onde a extrema-direita cresceu e conseguiu mobilizar as massas, acreditam que o livro é publicado em um bom momento? Talvez para relembrar algo que aos poucos está a ser derrotado pelo tempo?

RS: Quero lembrar que em 2013 Passos Coelho foi interrompido na Assembleia da República polo público ali presente a cantar o Grândola. Este primeiro-ministro do PSD (o partido da parte direita do bloco central) calou, aguardou respeitoso e respondeu alguma cousa, como que “de todas as formas em que uma sessão possa ser interrompida, esta parece-me significativamente a de mais bom gosto”. Parece-me que esta cena pode exemplificar o grande acordo existente na altura em volta do que abril significa. É verdade que esse consenso pode estar em risco com a emergência de um partido como o Chega, que mobiliza palavras de ordem tão ao gosto salazarista como “Deus, pátria, família e trabalho” e que nas eleições deste ano chegou a 18% dos votos e conseguiu 50 dos 230 deputados e deputadas que compõem a Assembleia da República. Isto está alinhado com o assalto à democracia que é possível verificar no mundo todo. Assim as cousas, nunca será suficiente lembrar o que significou Abril nas duas margens do mesmo rio.

CPJ: Concordando, também me parece que em Portugal a data em foco e o que significou ganhou uma grande visibilidade nos últimos tempos. Por iniciativa governamental foi criada a Comissão Comemorativa 50 Anos 25 Abril, com atividade entre 2022 e 2026. A questão em Portugal, a meu ver, não é tanto lembrar senão o quê é para lembrar. Grupos outrora com menor incidência social e política têm cada vez mais visibilidade e com eles outras narrativas vão ganhando espaço; narrativas, por exemplo, que reivindicam o 25 de novembro de 1975 (isto é, o fim do Processo Revolucionário em Curso, do PREC), com discursos em boa medida antagónicos com o que para muitos significa o 25 de Abril. Ora, dito isto, basta dar uma vista de olhos aos programas de atividades acerca da efeméride nos concelhos de Portugal (e até de alguns da Galiza!) para ter uma ideia da força da tal “última revolução romântica”.

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