ABRAIANTE

Nom à guerra (ortográfica)

Segundo a Lei de Berto, «a medida que umha discussom online em galego sobre qualquer tema avança, a probabilidade de que se mencione o reintegracionismo/isolacionismo achega-se a 1»



«In times of war, we need warriors. But this isn’t a war. You might try to say it is, but it’s not a war. We aren’t trying to kill an enemy. We’re trying to persuade other humans. And at times like that, we don’t need warriors, what we need are diplomats.» Phil Plait

Antes de começar, quero que dediquedes uns segundos a pensar nas seguintes questões: Quantas de vós escrevíades em galego segundo as normas da RAG antes de virardes reintegracionistas? E qual foi o motivo que vos levou a passardes à ortografia internacional? Já o tendes? Bem, pois começo com o artigo.

Na Internet galega existe um fenómeno chamado Lei de Berto, que diz que «a medida que umha discussom online em galego sobre qualquer tema avança, a probabilidade de que se mencione o reintegracionismo/isolacionismo achega-se a 1». Pode ver-se diariamente, por exemplo, nos comentários de qualquer jornal digital galego. E nom é nada mau em si mesmo —discutir pode ser produtivo—, o problema é a maneira em que é levada essa discussom. Porque muitas vezes as piores inimigas do reintegracionismo somos nós.

As pessoas que integramos o movimento reintegracionista somos umha minoria dentro da gente que usa e promove o galego, que à vez é umha minoria dentro da sociedade galega. E, por se fosse pouco, temos má reputaçom —as reintegratas querem anexar a Galiza a Portugal, acabar com a língua galega e que todo o mundo fale como Quim Barreiros—. Entom, nom podemos permitir-nos ir fazendo o imbecil nem entrar em pelejas absurdas que nom levam a nengures.

Já o sei, é mui frustrante falar com alguém que menospreza o modo em que escreves, que te acusa de cousas inverossímeis e que nom usa argumentos racionais. Mas de que serve termos a razom ou ganharmos umha discussom quando isso nos afasta do nosso objetivo? Se atravessas a rua com o semáforo em verde e vem um camiom fungando, terás toda a razom e ganharás a discussom sobre quem tivo a culpa, mas acabarás nas urgências com um politraumatismo.

O nosso objetivo como reintegracionistas, nestes momentos, é que a gente reflexione sobre a identidade do galego e a maneira de escrevê-lo. A gente escreve na ortografia da RAG porque é a que aprendeu, porque é a omnipresente, porque nom conhece outra realidade. Na escola dixérom-lhe que falamos umha língua de 3 milhões de falantes, enclausurada nas fronteiras da Comunidade Autónoma de Galicia. É o nosso trabalho fazer ver que nossa fala é na realidade um dos sabores dumha língua que se fala em todo o mundo, e que existe outra maneira de escrevê-la que nos achega a toda essa comunidade de falantes. E depois, a gente poderá concordar connosco ou nom, e isso nom nos pode anojar. Nom é a nossa meta que todas as pessoas opinem como nós, senom que todas possuam os argumentos para poder ter umha opiniom própria.

Entom, a próxima vez que fores entrar numha discussom ou escrever um comentário, primeiro pensa: É necessário? Vai ajudar a chegar ao nosso objetivo? Ou só me vai fazer sentir superior e importante? E se finalmente decides fazê-lo, pensa em como eras antes de te tornares reintegracionista, pensa em que foi o que che fijo mudar de ortografia, e tenta falar do mesmo jeito que gostarias que che tivessem falado daquela. Nom necessitamos soldados, necessitamos diplomatas.

 

 

Jon Amil

Jon Amil

Jon Amil (Vigo, 1988) é um célebre escritor galego. As suas obras som geralmente distribuídas em formato post-it de maneira manuscrita, com desigual acolhida. Assim, relatos como "Deixo-che aqui os 10€ que che devia" fôrom bem recebidos, enquanto outros como "Mamã, saim com os meus amigos. Chegarei tarde. Nom esperes desperta", resultárom amplamente criticados. Atualmente deu o salto às novas tecnologias e as suas últimas obras, como "Merda! Gastou-se o butano e tivem que me duchar com água fria!", podem ser consultadas através do Twitter.
Jon Amil

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  • Ernesto V. Souza

    Pois, caro… beijos e aplausos!!

  • Jlvalinha Jlvalinha

    Deches no alvo, amigo!

  • PMG

    Bem falado, o primeiro objectivo é podermos falar em galego. Seria óptimo podermos escrever também, oficialmente, na norma portuguesa, é claro, mas ainda nao chegamos a isso.

  • madeiradeuz

    Boas reflexões, Jon! Saúde.

  • Joám Lopes Facal

    Que bom

  • ranhadoiro

    Eu conheço uns quantos reintegrantes que chegaram a reintegrantes graças aos debates internéticos nos comentários de notícias, e não sei se neste momento não será já a via de chegada da maioria dos reintegrantes.
    Além disso e salvo excepções, que as há, a maioria deles quando fala dessas questões fai-no muito educadamente, e ainda que lhe dizerem de tudo, não esquece as boas formas.
    Isso para mim fala bem do papel muito positivo e abrangente do reintegracionismo. Penso que nos sobra demais sentido de culpa, e não há nada de que se avergonhar, nem nada que leve a desrespeitar a ninguém…. Todo reintegrante foi antes um ilgairo, e esse caminho vai-o percorrer muita gente

  • Susana Arins

    sempre acreditamos nisso: faz o humor, não a guerra! [adorei a citação inicial -ademais do artigo, é claro-]

  • o_pArAsiTo

    Concordo e penso que está ben plantejado, pero opino que non é guerra, senón simplesmente agresion unilateral de quen non fala galego empregando o armamento proporciondoa polo ministerio da governación a traves dos seus órganos: A RAG e outros. Algunha vez mirástedes que os que din “galego non é portugués” falan galego? Digo-o a serio, inda que estean falando galego nese intre concreto, a sua vida e as cousas que eles consideran serias fanas en castelhano.

  • Louredo

    O que hai é moito troll

  • Nicolau

    Grande artigo!
    É mais: a passagem ao reintegracionismo DEVE ser traumática. Nos 80, quando já tínhamos um Galego unificado para ministrar na escola; quando o professor che apresentava, após observar a tua querência pola língua, o flamante dicionário de galego “normativizado” que nom vou dizer o nome; quando já alá ficaram os tempos de escrever “verán” ou “vran”, “árbore” ou “arbre” (tanto dava: as duas valiam) e só tínhamos umha maneira de o fazer; ou aquelas “segundas formas do artigo” tam bonitas que refletem fielmente a nossa maneira de falar… quando já tínhamos todo isto, digo, a que caralho vinham os lusistas “agora” a desfazer, a esnaquiçar, a confundir!!!
    Quando terminas de descarregar todos esses impropérios contra os lusistas e contra Portugal, trocando-te no mais fervente anti-lusita; quando terminas essa fase de negaçom absoluta e despejas a mente, é aí que começas a perguntar-te a sério: por que é que o reintegracionismo existe? E na procura dessas respostas, e já com toda a informaçom na mão, é onde talvez se produza a mudança.

  • http://www.isabelrei.com Isabel Rei Samartim

    É bem certo que comentar na rede é tão doado que às vezes fazemo-lo sem pensar bem o que vamos dizer. É bem certo que há muito troll. É bem certo que ao escrevermos, confundimos fala com escrita. É bem certo muita cousa, mas não é menos certo o que lembram noutros comentários, que o debate sobre a ortografia abre os olhos a grande parte das atuais reintegracionistas, que ajuda à difusão daquilo que quiseram deixar no silêncio, e que nos faz muita falta assumirmos já a escrita internacional, tanto no nível político quanto no pessoal, tanto coletiva como individualmente. Debater é necessário mais que nunca e não se deve confundir com pelejar inutilmente. O debate e o estudo são hoje peças fundamentais do avanço social. Se o temos na rede, melhor que se o não temos. Cuidado porque eludir o debate ortográfico poderá parecer uma armadilha para continuarmos imóveis nas opções individuais quando no mundo arredor tudo está a movimentar-se coletivamente a altas velocidades. E não esqueçamos que ainda resta muito por fazer.

  • Jose Goris

    Se não chega a ser pelos debates na net eu hoje provavelmente continuaria instalano a ortografia RAGa/ILGa, vivam os debates.

  • Délio Pereira Lopes

    A identidade de um povo está vinculada à maneira de exercer com liberdade o seu falar e como registrar a sua existência, questionar a maneira de se expressar de uma comunidade, é o mesmo que cortar os pulsos dos falantes duma língua, expondo-os à morte lenta e angustiante, no decorrer do processo histórico.

  • Alfredo Ferreiro

    Parabéns pola proposta, gostei muito. O principal é mantermos a dignidade e mostrarmos uma atitude generosa, paciente e positiva; no entanto é preciso ter cautela com certo grupúsculo de indivíduos encaretados que visa diretamente nos agredir verbalmente e vincular por regra o lusismo a um nacionalismo de extrema-direita português, como que pretendendo fazer mossa dentro mesmo do movimento reintegracionista. Há pouco tivemos que frear comentários deste teor na palavracomum.com, por primeira vez desde janeiro de 2014.