Nilma Nascimento: “É necessário diminuir as barreiras para o intercâmbio e compartilhamento de conhecimento”



O Espaço Brasil conversou com a Doutora em Linguística, Nilma Nascimento Dominique, a única brasileira a receber o Prêmio Martin Luther King, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT.

 “Amor, igualdade, serviço e altruísmo”, foram as palavras usadas pelo MIT para definir o Prêmio, em razão do seu trabalho de criação do Programa de Língua Portuguesa, em 2010.

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O torna ainda mais relevante esse prêmio e o reconhecimento pelo seu trabalho é que eles são frutos de uma trajetória marcada por dificuldades, assim como ocorre com grande parte dos estudantes brasileiros, que desde muito cedo, precisam conciliar os estudos com a necessidade de trabalhar.

O trabalho de promoção da Língua Portuguesa realizado pela Dra. Nilma Dominique é um convite às Instituições de Ensino e Governos de toda a Lusofonia para fazerem o mesmo.

A senhora foi estudante da escola pública no Brasil, por favor, nos conte como foi a o início de sua trajetória escolar (ensino fundamental-médio-graduação)
Acho que foi como a de muitos brasileiros de classe média-baixa da época. Além disso, eu venho de uma família extensa e estudar numa escola privada estava totalmente fora de cogitação. Meus pais se mudaram de Salvador para a região metropolitana de Camaçari no final dos anos 1970, onde meu pai trabalharia no novo polo petroquímico, o maior da Região Nordeste. A Camaçari de então era uma cidade pacata, que se preparava para absorver mão de obra para o polo. Eu tive a sorte de fazer o ensino fundamental em uma escola recém-inaugurada, que também tinha um número reduzido de alunos. O ensino médio foi mais complicado: foi quando eu comecei a pensar na vida de adulta e numa profissão para o futuro, mas não tive absolutamente nenhuma orientação profissional para me ajudar no planejamento. Eu comecei fazendo um curso técnico em Química, numa escola pública que na época era considerada uma das melhores do Estado, e no ano seguinte, decidi começar, concomitantemente, o curso de técnica em Contabilidade em outra escola.
Era uma prática um tanto comum entre alguns estudantes, e tive vários colegas que também estudavam dois cursos técnicos ao mesmo tempo, com a expectativa de que teríamos mais oportunidades de conseguir um bom emprego. Afinal, com os cursos técnicos, estávamos nos preparando diretamente para a entrada no mercado de trabalho. No entanto, alguns de nós decidimos dar continuidade aos estudos pós ensino médio. O que em princípio parecia um desatino – fazer os dois cursos técnicos ao mesmo tempo – me ajudou muito na classificação do vestibular para o Instituto de Letras da Universidade Federal da Bahia. Não tinha conhecimento do funcionamento, estrutura ou formato do vestibular. Não tinha feito nenhum cursinho preparatório, e claro, não tinha muita esperança de ser aprovada. Como amava as minhas aulas de Língua e Literatura, escolhi Letras.

Eu comecei fazendo um curso técnico em Química, numa escola pública que na época era considerada uma das melhores do Estado, e no ano seguinte, decidi começar, concomitantemente, o curso de técnica em Contabilidade em outra escola.

Como foi receber uma bolsa de doutorado na Espanha e como foram os anos na Europa?
Eu tinha muito interesse em continuar os meus estudos depois da graduação em Letras, mas pela primeira vez vi que não seria possível seguir estudando numa instituição pública no Brasil. Há um afunilamento interno profundo, formando uma barreira que torna muito difícil o acesso à pós-graduação. Além do mais, poucos alunos conseguem uma bolsa de estudos. Para quem não vem de uma família abastada com uma tradição de estudos universitários, a pressão de encontrar um emprego e se manter economicamente é muito forte. Mais uma vez, eu tive o privilégio de, no terceiro ano de tentativa, conseguir uma bolsa da então AECI – Agência Espanhola de Cooperação Internacional. Realizei os meus estudos na Universidad de Alcalá, em Alcalá de Henares. A bolsa tinha duração de três anos, um período que eu trabalhei incessantemente para completar o máximo de pesquisa possível. Mas com o fim dela, eu tive que voltar ao mercado de trabalho e dividir o tempo entre trabalho e pesquisa.

Quando e em qual situação a senhora foi para os Estados Unidos? Em especial no Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT.
Várias universidades espanholas e americanas possuem um programa de intercâmbio de estudantes de doutorado. Meu marido participou de um desses programas e foi convidado a dar aulas de espanhol em Harvard. Uma vez lá, entrei em contato com o programa de Português e fui contratada para dar aulas de língua durante um ano. O contrato foi renovado ano após ano e fiquei seis anos lá. Em 2010, fui convidada para desenhar o novo Programa de Português do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT). No início, era um projeto piloto de dois anos. Funcionou e felizmente passou a fazer parte do programa de línguas do Instituto. Oferecemos cursos de diferentes níveis de ensino, de básico a avançado, e cursos com fins específicos sobre língua portuguesa e cultura lusófona.

Em 2010, fui convidada para desenhar o novo Programa de Português do Instituto Tecnológico de Massachusetts (MIT). No início, era um projeto piloto de dois anos. Funcionou e felizmente passou a fazer parte do programa de línguas do Instituto.

Como está o Programa de Língua Portuguesa hoje? O Brasil perdeu seu protagonismo internacional?
O Programa de Português do MIT começou devido à grande demanda de alunos. Lembro-me que na minha primeira aula, havia tantos alunos não-matriculados que não havia cadeiras disponíveis. Era tanto o interesse que frequentemente tínhamos lista de espera. Os estudantes tinham interesses variados no Brasil: trabalho, pesquisa, vínculo afetivo, turismo… Eram os anos em que a imagem do Brasil na imprensa internacional era muito positiva, tanto do ponto de vista econômico como social e cultural. Era um dos chamados países emergentes e se tornou enormemente atraente para muita gente. Mesmo com a crise de 2008, eventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas fizeram com que o interesse se mantivesse. Os acontecimentos políticos dos últimos anos, unidos ao aprofundamento da crise econômica e, por último, a pandemia, sem dúvida tiveram influência na diminuição no interesse que temos experimentado nos últimos anos. Em contraste, Portugal tem aparecido como um destino turístico muito desejável, e até como uma boa opção para aposentar-se. Além disso, existe uma política institucional efetiva, à qual se destinam fundos, de promoção da língua portuguesa. São ciclos nos quais se misturam muitos fatores, bastante complexos, mas que, sem dúvida, impactam os programas de Língua Portuguesa no país todo.

Existe uma política institucional efetiva, à qual se destinam fundos, de promoção da língua portuguesa. São ciclos nos quais se misturam muitos fatores, bastante complexos, mas que, sem dúvida, impactam os programas de Língua Portuguesa no país todo.

O que é preciso fazer para retomar o interesse dos alunos estrangeiros para o aprendizado da Língua Portuguesa e para a Lusofonia.
Eu acredito que seja necessário um trabalho vigoroso, em conjunto com diferentes órgãos. As instituições de ensino nacionais e internacionais também têm que fazer a sua parte. É necessário diminuir as barreiras para o intercâmbio e compartilhamento de conhecimento entre pesquisadores, estudantes e instituições. Precisamos do suporte e da parceria governamental e da iniciativa privada, incluindo o apoio financeiro. É importante entender que a promoção e a divulgação da língua e da cultura próprias no mundo constituem, de todo ponto de vista, inclusive o econômico, um investimento que tem um retorno certo ao longo prazo, mesmo se este não é imediatamente quantificável. Línguas como o inglês, o chinês, o espanhol e outras que estão em expansão, compreenderam isso há muito tempo. Precisamos que os governos lusófonos deem atenção a sua comunidade fora do país e trabalhem para manter a língua portuguesa viva e atuante entre os seus falantes de herança. Com a perda da língua, parte da cultura também se perde. Não é fácil entender como o português pode ser a terceira língua mais falada (depois de inglês e espanhol) em Massachusetts, e ao mesmo tempo, estar entre as línguas comumente menos ensinadas.
É necessário que os países lusófonos abracem a pluralidade cultural e linguística da nossa língua e, sincera e verdadeiramente, reconheçam que falamos a mesma língua e se unam em sua manutenção e promoção. Hoje, apesar do discurso ser diferente, na prática, cada país olha para os seus próprios interesses. O Brasil e Portugal são os maiores representantes da língua portuguesa, mas sempre trabalham independentemente, e os países africanos continuam em uma espécie de ostracismo. A mudança para um enfoque lusófono inclusivo, que os docentes adotaram no ensino muito tempo atrás, não tem um reflexo nas políticas das instituições que deveriam ocupar-se deste assunto.

Não é fácil entender como o português pode ser a terceira língua mais falada (depois de inglês e espanhol) em Massachusetts, e ao mesmo tempo, estar entre as línguas comumente menos ensinadas.

Por favor, fale sobre o renomado prêmio Martin Luther King.
O MIT Martin Luther King Jr. Leadership Award é um prêmio que há 48 anos celebra a vida de um dos maiores ativistas dos direitos humanos da história, o Dr. Martin Luther King Jr., e reconhece e premia indivíduos e grupos que incorporam o espírito do ativista em seu trabalho, através do serviço à comunidade “com resultados positivos e aparentes”. Para mim, além da honra pelo reconhecimento, foi também uma surpresa inimaginável. Nunca poderia imaginar que ganharia um prêmio tão conceituado por fazer algo que via como uma responsabilidade humana e profissional, e muito menos que havia gente observando as minhas ações. Por todo o seu simbolismo, este prêmio é um estímulo a mais para continuar tentando unir comunidades, especialmente aquelas que, como eu, vivem lutando contra a invisibilidade.

A senhora está a par da situação do reintegracionismo na Galiza? Se sim, como os países de Língua Portuguesa poderiam auxiliar na defesa do idioma na Galiza?
Não sei o suficiente para poder falar a respeito. É um assunto complexo que, sem dúvida, gera posições antagônicas que vão além do puramente linguístico, como costuma acontecer em qualquer questão em que a língua está envolvida, porque a língua é sempre um componente fundamental da identidade.
Eu tenho um carinho enorme pela Galiza. Tive o privilégio de fazer um curso de verão de galego em 1997, pelo Centro Ramón Pinheiro para Investigación en Humanidades, através do Celga do Instituto de Letras da UFBa. Foi a minha primeira viagem internacional. Uma colega e amiga generosíssima, recipiente de uma bolsa de estudos de verão, me convidou para fazer o curso com ela, cobrindo parte dos gastos. Eu aceitei e a experiência foi realmente inesquecível. Mas me surpreendi, na época, ao ver que a maioria dos jovens com quem falava, respondiam sempre em castelhano, apesar de eu fazer um esforço de falar em galego. Havia estudantes do mundo inteiro, e lembro que foi um acontecimento para Santiago de Compostela ver tantos estrangeiros interessados em aprender a falar galego.

Me surpreendi, na época, ao ver que a maioria dos jovens com quem falava, respondiam sempre em castelhano, apesar de eu fazer um esforço de falar em galego. Havia estudantes do mundo inteiro, e lembro que foi um acontecimento para Santiago de Compostela ver tantos estrangeiros interessados em aprender a falar galego.

A senhora tem novos projetos para a Língua Portuguesa?
Os projetos acadêmicos são muitos e frequentes, mas eu tenho que dividir a minha atenção
entre a sala de aula e os outros projetos, o qual acaba influenciando a minha prática educativa.
Estamos passando por tempos desafiadores. Retrocedemos décadas em poucos anos. Estamos trabalhando muito para nos aproximar aos números de alunos que tínhamos há 10 anos, fortalecendo a nossa parceria com outras instituições, buscando parcerias novas, inclusive com Portugal e outros países lusófonos na África, tentando trazer mais visibilidade para o Português dentro do estado de Massachusetts e aumentar a conexão das comunidades lusófonas da região.


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