Por Ernesto Vázquez Souza
9. O sistema cultural galego, com todos os seus produtos, é um sistema cultural dependente do sistema cultural espanhol e tem como conseqüência que todos os produtos que chegam a nós tenham que ter passado anteriormente um filtro. A nossa cultura nunca conseguirá falar em pé de igualdade com culturas doutros lugares estando baixo este jugo, pois nom poderá ter presença própria, senom através da espanhola.
Quem conquista sempre rouba, /Quem cobiça nunca dá /Quem oprime tiraniza… dizia aquela belíssima música do Fausto a enxergar das páginas de Mendes Pinto os manuais e práticas dos impérios.
Sem dúvida o “olho branco” nunca respeita os Tratados. Quando assina é porque a circunstância destaca como melhora tática a necessidade de uma pausa, ou porque a imagem traçada pelos cartógrafos e estrategas desvenda que pode haver métodos mais baratos e efetivos de desgaste e conquista que os enfrontamentos abertos. Mas nunca, nunca dá mais, e sempre tira negócio, porque as condições não serão respeitadas.
Se há algo que os da minha geração sabemos é que a Constituição de 1978 foi um tratado que as circunstâncias obrigaram. Nas “nações índias” fomos androminados com a escusa do tratado justo e a possibilidade de ampliar o assinado; naquele espírito declamado e fotografado em sépia ou primitiva cor, do entendimento e das boas práticas da convivência. Nela as autonomias foram-nos vendidas como germolos de federalismo e o futuro para a língua é que se abria a horizontes nunca vistos e menos navegados: livros, escolas, permissão de uso por toda parte.
Era bom acordo, diziam, especialmente os possibilistas, convinha ceder certas cousas, especialmente sonhos de soberania e ortografias com imaginados lusitanismos. Em troca, o estado forneceria de ferramentas, serviços culturais, sistemas educativos, livros e garantiria o pequeno Galego como parte do grande e protetor sistema do Castelão.
Os escritores acharam bom, os acadêmicos acharam bom, as editoras acharam bom. E assinou-se.
Mas era o confinamento. E a dependência do sistema. A impossibilidade de criar a língua em plenitude. E foi-se perdendo uso e a velha língua não saiu dos farrapos em que estava. Afinal de contas as ferramentas fabricavam-se na Espanha, as normas, os textos, os pensamentos, os jeitos, os modos… não havia que os elaborar nem fabricar na reserva, as roupas, as cordas, os livros (quitando alguns da escola –o grande progresso- e aqueles tantos de poesia que apenas consumiam os que escreviam poesia).
O galego chegava para a casa, os discursos, os rituais e as prédicas e cantos dos feiticeiros demandando a chuva anunciada de mil “primaveiras” mais.
Mas para que mais, se tudo vinha em divertidos pacotes made in Spain. Com aquelas notas de uso tão feituquinhas e engraçadas. Ultimamente até traziam essa língua semelhante e alguns diziam irmã que se usava além das montanhas do Sul onde também se vendiam.
Mas a gente continuou a distinguir entre usos menores e maiores e a dizer de quando em vez que chovia, cada vez mais e mais escuro. Os acadêmicos continuaram a explicar o bom que tudo era e a regalar-se com caros papéis entanto iam esquecendo comentar outros. Os escritores buliam no sonho da metrópole e achavam bom ainda aquele odor persistente que total vinha de Elsinore, na parte de Dinamarca.
E as editoras, as editoras tinham editores e fascinavam-se por lograr boas talhadas dos Intendentes da reserva e de saber como aquelas grandes editoras que tinham sub-editoras em Madrid das quais eles dependiam estavam encantadas com o seu trabalho de descobertas de talentos locais para o mercado espanhol. Via este mercado na querida Madrid podia-se mesmo chegar aos remotíssimos mundos da França, Itália, Portugal e o gigante brasileiro.
A língua foi confinada apenas a reserva. A sua circulação não se garantia livremente pelo território e também não se equiparava plenamente os usos. Existia dever de usar e garantia-se o direito a usar o castelão em todo o estado, o que incluía a reserva. Quanto ao galego, o que se garantia era a obriga de não ultrapassar os limites da reserva.
Apoiaram-se no tratado, pois o tratado era a eles que servia. Em nome da liberdade, dos direitos cidadãos dos castelão-falantes e o progresso, a reserva ia minguando.
Agora já vieram os colonos, andam a reclamarem “os seus direitos” e a liberdade de fazer uso da Terra e de impor a sua língua. A predicadora Glory Lake inflama na capital do Império pequeno os ânimos de uma imprensa que destaca para mais vender que os tratados são uma ofensa nacional. Os políticos, fora a alma, cada vez mais tentados pelas velhas estéticas feixistas sempre andam a dizer que há que pensar no contribuinte… não vaia ser que a panteira Rosa 10 lhes apanhe a colheita de votos.
Os tratados, enfim, daquela, há que entendé-lo, mas agora palavras molhadas…e a força pública, como a cavalaria, sempre da sua parte protege as caravanas de colonos que se passeiam provocando uma e outra vez.
Mas da Torre do faro alvisca-se a lusofonia. Talvez, ainda é tempo:
Antes que chegue a noite
Que vem do cabo do mundo
Tirar vidas à sorte
Do fraco e do forte
Do cimo e do fundo
Trago um jeito bailarino
Que apesar de tudo baila
No meu olhar peregrino
Nos abismos do marnavegar, navegar…
Contra a imposição do castelão
Galego sempre mais
