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Narrar com consciência: usar a imaginação para defender a vida

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Sara Guerrero

Num templo perdido entre as montanhas, um grupo de monges está imerso na tarefa de contar a “História eterna” que sustém o universo. A parcimónia é interrompida pela visita do diabo, que chega com a intenção de provar que, se os monges deixassem de contar a história, o mundo continuaria a existir. Assim que tira aos monges a capacidade de fala, orgulhoso, comenta ao monge superior:

-A história parou, mas continuamos aqui. O vento continua a soprar, as aves a voar. Nada mudou.

O monge, com o sorriso de quem acabou de ter uma epifania, responde:

-Agora vejo-o: isto não tem a ver connosco. Nalgum lugar afastado, do qual não sabemos nada, alguém está a contar uma história agora mesmo. Uma história distinta. Uma lenda, uma novela, um relato de uma morte imprevista, não importa. Está a suster o universo. Por isso continuamos aqui. Não podes evitar que se contem histórias.

***

Quando penso no relato oral, vem-me à cabeça imediatamente esta pequena história que me cativou quando era criança. E acho que não existe outra forma mais adequada de exprimir a realidade de um ato atemporal e imperecedouro como é o de contar histórias, um ato sem o qual não estaríamos aqui.

A escritora Ana Llurba diz: “A capacidade de sugestão de “Era uma vez”, é só comparável com o arranque da Génese”. E penso que não só devemos à narração oral a nossa construção identitária. Sem a imaginação que se verte nos relatos que falam de lugares afastados, nunca nos encaminharíamos a explorar territórios desconhecidos, nem a sair ao espaço ou a alumiar a teoria da relatividade.

Não sei se foi numa caverna nem se foi primeiro com gestos ou sons que estavam a evoluir em palavras. O surgimento do relato só pode ser resolvido pela imaginação. Só sei que o ato de contar histórias, a narrativa oral, é a génese da comunidade, pois é em si mesma a dinâmica de organização mais primigénia: alguém que fala e alguém que escuta.

Só sei que o ato de contar histórias, a narrativa oral, é a génese da comunidade, pois é em si mesma a dinâmica de organização mais primigénia: alguém que fala e alguém que escuta.

Paula Carballeira (Fene, 1972) trabalha profissionalmente no eido teatral como atriz, gerente de palco, dramaturga e narradora oral. Escreveu e geriu espetáculos para várias companhias de teatro profissional dentro e fora da Galiza, entre as quais se destaca o Centro Dramático Galego. Como narradora oral, participou nos principais festivais deste eido a nível nacional e internacional. Como escritora, a sua produção literária está constituída por mais de uma vintena de livros publicados de literatura infantil, poesia e narrativa.

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Paula Carballeira

E continuaremos a contar (2021), a sua última obra, foi publicada pela Através Editora. Faz parte de Alicerces, uma coleção dirigida por Teresa Moure dedicada à publicação de ensaio breve. Dá voz a especialistas de distintos âmbitos para tratar de questões relacionadas com o pensamento, a arte ou a sociedade.

Nesta obra, Paula Carballeira afunda nas características, possibilidades e importância da narração oral. Mesmo que a autora começasse a escrever o texto antes de estalar a crise sanitária em 2020, ela terminou de construir a sua reflexão durante a pandemia, o que a leva a formular perguntas pertinentes a respeito da presencialidade e a capacidade curativa do relato. Assim, num momento em que todos os espaços e possibilidades de encontro permaneceram fechados e foram impostas as medidas de distanciamento –o que marcou a crise do sector cultural–, Carballeira enuncia:

“Continuaremos a contar, porque está em nós e porque é a maneira ancestral de enfrentarmos ao medo. (…) Contaremos a contar porque é a nossa maneira de sobreviver, nas memórias individuais e coletivas, a nossa maneira de existir e deixar constância da nossa passagem pelo mundo; de nos visibilizarmos (…) Continuaremos a contar para nos sentirmos menos sozinhas, menos sozinhos; para escutarmos e que nos escutem”.

Mas a autora não se mantém no tom de manifesto, nem no plano das metáforas. Tece o livro com pensamentos, citações, definições e anedotas, para tornar patentes as múltiplas implicações do ato de contar.

“A neta pequena daquela avó, como jogo, começou a ir ter com ela para a escutar. E a avó, milagrosamente, recuperou de todos os achaques que tinha. (…) as mãos da avó voltaram a debuxar no ar, a sua voz fez com que as cordas da garganta vibrassem, deixando a morte do outro lado da janela, tranquila, que acabasse de contar”.

E continuaremos a contar, lembra, sem dúvida, certa tradição de escrita teórica das artes performativas. Falo daquela à que se adscrevem autores como Peter Brook ou Yoshi Oida, que têm uma didática transmitida às leitoras através de experiências pessoais. No seu livro, Paula Carballeira escreve como quem escreve a um aprendiz, como uma mestra que partilha com agarimo e diligência os segredos da arte da narração oral. Assim, apesar de ser escrito na modernidade, o livro guarda nas suas páginas certo caráter artesanal e mítico.

No seu livro, Paula Carballeira escreve como quem escreve a um aprendiz, como uma mestra que partilha com agarimo e diligência os segredos da arte da narração oral.

Contar a consciência

Embora a autora recorra a metáforas para ressaltar os efeitos que tornam a profissão artística nalgo indispensável para a sociedade, não comete o erro de tantos outros autores que distanciam a arte do mundo real, elevando-o por cima do mundo da moral. Ao contrário, reitera a responsabilidade, o carácter ético, do facto de ter a palavra e enunciá-la frente a um público.

“Contar força-nos a adotar uma postura. Por muito omnisciente que for, relativamente à estória, quem narra escolhe as palavras, o argumento, as inflexões na trama, a entonação, o ritmo, e isso reflete uma mensagem, um subtexto (….) A narração oral tem a capacidade de visibilizar o que se tenta ocultar, de mostrar, de dar voz a quem não a costuma ter”.

Destarte, Paula Carballeira enquadra a reflexão sobre a narração oral na época digital e a importância que tem nos processos de recuperação da memória histórica.

“Penso que a nossa sociedade promove o esquecimento. A velocidade da informação, o mal entendido aproveitamento do tempo em produzir para o consumo imediato, a superficialidade dos conhecimentos, a falta de consideração por tudo o que exija reflexão pausada (…) confluem numa desmemória coletiva que dificulta o nosso avanço”.

A autora entende a narração oral como um ato capaz de afrontar não só a desmemória, mas também os discursos que carecem de perspetivas otimistas sobre o futuro. No final, no acto de contar, tanto pelo encontro que requer, como pelos horizontes que abre o exercício imaginativo, invoca a capacidade de empatia das ouvintes, capacidade necessária para evitar cair em generalizações e inviabilizações das distintas comunidades que formam a sociedade.

Assim, E continuaremos a contar é um livro que propõe formas de opor-se a um Realismo capitalista presente em todas as distopias que nos fazem acreditar que não há futuro possível ao falarmos de um porvir dominado por totalitarismos e horizontes apocalípticos. Paula Carballeira propõe outros jeitos de contar e, nesse sentido, dignifica a profissão das narradoras e narradores orais ao lembrar que o seu labor é indispensável.

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