Não podeis dar-nos o que é nosso

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Por Ernesto Vázquez Souza

– Loucura! – gritou o patrão

Não vês o que te dou eu?

– Mentira! – disse o operário

Não podes dar-me o que é meu.

Vinicius de Moraes, O operário em construção

Não penso que seja muita originalidade, a estas alturas, destacar a genial capacidade de Daniel Castelao para captar da realidade social certas ideias e formalizá-las em belíssimas metáforas gráficas.

Do mesmo jeito, na escrita, o pensamento do rianjeiro articula-se constantemente através de símbolos e metáforas que reelaboram bem sucedidas o fundo popular e que acabaram por fazer parte do imaginário coletivo.

Entre as suas mais celebradas intuições merece a pena assinalar – para o que nos ocupa – um desses ditados que veio a tornar-se tópico e ao mesmo tempo alicerce de toda uma formulação nacional e filológica:

Se ainda somos galegos é por obra e gracia do idioma.

Não é pouca cousa, nestes tempos que correm, recolocar em primeiro plano o conceito identitário (entendido como nacional) quando falamos de literatura (nacional); de língua (nacional); ou de qualquer um dos elementos do sistema cultural (nacional) para entendermos o que há de fundo no debate sobre a língua na Galiza contemporânea.

Desde meados do século XIX a língua galega foi-se incorporando paulatinamente enquanto símbolo e bandeira no discurso político que ia tornando-se nacional, mas apenas desde 1916 é que entra como elemento pleno da reivindicação e o conflito lingüístico passa daquela a ser empregue como destaque da opressão e destruição programada da Comunidade.

A nossa reivindicação lingüística evidencia a voz opressa da nossa comunidade. A nossa literatura escreve-se, pois, conscientemente em galego por decisão coletiva, através dum processo lento começado a princípios do século XIX e ainda não terminado. O mesminho processo que tiveram as demais literaturas desque se fizeram nacionais mui em finais do XVIII.

E se a nossa literatura é aquela que se escreve em galego não é porque haja um direito natural preexistente e imutável, mas e também porque, quando menos, quando menos digo, isto é o fruto acadado através das nossas reivindicações identitárias como coletivo nos dous últimos séculos.

Certamente, o nosso sábio caricaturista acertou a formular um dos elementos centrais da justificação da nossa identidade. Um dos alicerces do nosso discurso nacional. De feito:

Se o idioma galego ainda existe é unicamente por obra e graça teimuda dos Galegos e Galegas ao longo dos últimos séculos

Se o idioma galego conta com formulações ortográficas que possibilitaram a sua escrita é pelo esforço de numerosos desses cidadãos e coletivos.

Se o idioma galego tem registos literários é pelo trabalho e esforços dalguns dos seus cidadãos, coletivos e plataformas ao longo dos dous últimos séculos.

Porque, para além do êxito do aforismo de Castelao, convém reparar na possibilidade de reformular a mesma ideia (nação = idioma ou “temos unha identidade porque temos unha língua”) à inversa e começar a dizer com respeito:

Se ainda temos idioma (nacional) é por obra e graça dos galegos.

E nisso de termos idioma (nacional), para sermos galegos, andamos. Nós, os operários, a gente comum, os utentes. Em construção.

Máis de Ernesto V. Souza